O desporto tem uma capacidade única de atravessar as fronteiras da política e da tragédia, de oferecer momentos de esperança quando tudo ao redor parece escuridão. Para a Ucrânia, um país que desde fevereiro de 2022 combate uma guerra de sobrevivência, os seus atletas tornaram-se muito mais do que desportistas: são embaixadores de um povo que recusa render-se, símbolos de resistência que se expressam não com armas mas com coragem, disciplina e talento. Portais como o Sport.d.ua documentam esta extraordinária história desportiva com a paixão e o rigor que ela merece. Para os leitores portugueses — que partilham com os ucranianos um amor intenso pelo futebol e uma cultura de identificação nacional através do desporto — esta é uma história que vale a pena conhecer.
Oleksandr Usyk: O Campeão que Representa um Povo
Se há um nome que simboliza a resistência ucraniana no plano desportivo internacional, esse nome é Oleksandr Usyk. O boxeur ucraniano, nascido em Simferopol, na Crimeia — o território ucraniano ocupado pela Rússia desde 2014 — tornou-se em maio de 2024 o campeão unificado mundial de pesos pesados ao derrotar o britânico Tyson Fury em Riade, na Arábia Saudita, em dois combates consecutivos que ficaram na história do boxe moderno.
Usyk não é apenas um pugilista de talento excecional. É um homem com uma espiritualidade profunda — muito ligado à Igreja Ortodoxa Ucraniana — e com uma consciência política aguçada que o torna um porta-voz natural do seu país. Após o início da invasão russa de 2022, alistou-se voluntariamente na defesa territorial de Kyiv, empunhou um rifle nas trincheiras da capital ucraniana, e só regressou ao ringue por pressão das autoridades ucranianas, que reconheceram que ele servia melhor o seu país como símbolo global do que como soldado anónimo.
Os Títulos e os Combates Históricos de Usyk
- Campeão Olímpico em Londres 2012 — na categoria de pesos super-pesados amadores
- Campeão Mundial Cruiserweight unificado (2018-2019) — unificou os quatro cintos principais da sua categoria
- Vitória sobre Anthony Joshua (setembro 2021, Londres) — o início da conquista dos pesos pesados, uma vitória tática extraordinária
- Vitória na revanche contra Joshua (agosto 2022, Jeddah) — manteve os cintos num combate em que muitos esperavam a derrota
- Vitória sobre Tyson Fury (maio 2024, Riade) — tornou-se campeão unificado e o primeiro homem a ganhar todos os títulos principais dos pesos pesados
- Revanche sobre Fury (dezembro 2024) — confirmou a supremacia ao vencer novamente o britânico
As Mensagens de Paz de Usyk
Em cada combate, Usyk tem transmitido mensagens de paz e de esperança para a Ucrânia. Nas conferências de imprensa, nas entrevistas pós-combate, nas redes sociais — onde tem milhões de seguidores em todo o mundo — o campeão ucraniano fala sobre o sofrimento do seu povo com uma dignidade que impressiona. Após a vitória sobre Fury em maio de 2024, dedicou o título ao povo ucraniano com palavras que circularam em todo o mundo: a guerra pode destruir cidades, mas não pode destruir a alma de um povo.
Futebolistas Ucranianos em Portugal e Espanha
O futebol é, como em Portugal, o desporto mais popular na Ucrânia. E os futebolistas ucranianos marcaram presença significativa nas principais ligas europeias, incluindo a Liga Portuguesa e a Liga Espanhola.
Ucranianos na Liga Portuguesa
Portugal tem sido um destino de eleição para jogadores ucranianos ao longo dos últimos anos. O mercado português, com clubes que têm uma tradição de recrutar talentos internacionais a custos acessíveis, atraiu vários futebolistas ucranianos que encontraram aqui uma plataforma para desenvolver as suas carreiras e, ao mesmo tempo, um país seguro para as suas famílias durante a guerra.
- Clubes como o Sporting CP, o FC Porto, o SL Benfica e também clubes de médio escalão têm observado regularmente o mercado ucraniano para reforços
- O campeonato ucraniano — com clubes como o Shakhtar Donetsk e o Dynamo Kyiv — é reconhecido como uma liga formadora de talento de qualidade
- Jogadores que passaram pela Liga Portuguesa levaram consigo uma experiência tática que reforçou o seu valor no mercado europeu
O Caso do Shakhtar Donetsk em Exílio
O Shakhtar Donetsk, um dos clubes mais ricos e bem-sucedidos do futebol do leste europeu, foi forçado a abandonar a sua cidade sede quando esta foi ocupada pelas forças separatistas em 2014. Desde então, o clube jogou em Lviv, Kharkiv e Kyiv em diferentes temporadas. Com a invasão de 2022, o Shakhtar — que tinha um plantel de alta qualidade com muitos jogadores brasileiros — viu a maioria dos seus jogadores estrangeiros abandonar o país, enquanto os ucranianos ficaram.
O clube continuou a participar na Liga dos Campeões da UEFA, disputando os seus jogos "em casa" em estádios de países neutros como a Polónia, a Alemanha e os Países Baixos. Esta situação sem precedentes no futebol europeu transformou o Shakhtar num símbolo de resistência desportiva: um clube sem casa física, mas com uma identidade e uma ambição intactas.
A Liga Premier Ucraniana Durante a Guerra
Uma das decisões mais surpreendentes e significativas do desporto ucraniano foi retomar a Liga Premier Nacional (UPL) durante a guerra. Após uma pausa inicial nos primeiros meses após a invasão, o campeonato ucraniano retomou com um protocolo de segurança rigoroso: jogos disputados sem público, em horários que evitam os períodos de maior atividade aérea, com protocolos de evacuação para os atletas em caso de alerta.
Esta decisão foi muito debatida. Os críticos argumentaram que o futebol era uma frivolidade numa situação de emergência nacional. Os defensores — e entre eles estavam muitos jogadores e treinadores — argumentaram que manter o campeonato era um ato de normalidade intencional, uma recusa em deixar a guerra paralisar completamente a vida social e cultural do país.
Como Funciona o Campeonato em Tempo de Guerra
- Jogos disputados em estádios fechados ao público, transmitidos gratuitamente pela televisão
- Clubes de cidades próximas da linha de frente (como Kharkiv, Mariupol, Zaporizhzhia) transferidos para estádios em cidades mais seguras
- Jogadores com dispensa para cumprir obrigações militares, com os clubes a adaptar os seus efetivos às disponibilidades
- Protocolo de interrupção de jogos durante alertas de ataque aéreo
- Campeonato usado como plataforma de mensagens patrióticas e humanitárias
Ucrânia nos Jogos Olímpicos de Paris 2024
Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 foram para a delegação ucraniana muito mais do que uma competição desportiva. Foram uma afirmação de existência, uma demonstração ao mundo de que um país em guerra continua a formar campeões, continua a competir no mais alto nível, continua a ser uma nação viva e presente na comunidade internacional.
A delegação ucraniana em Paris incluiu atletas em múltiplas modalidades, muitos dos quais tinham continuado a treinar em condições extraordinariamente difíceis — com cortes de energia, instalações desportivas danificadas e a pressão psicológica de ter familiares na linha de frente ou em território ocupado.
Modalidades de Destaque
- Boxe: com uma tradição de ouro no pugilismo amador, a Ucrânia enviou uma equipa competitiva que confirmou a profundidade do boxe ucraniano além de Usyk
- Luta: historicamente uma das modalidades mais fortes da Ucrânia, com atletas que continuaram a treinar apesar das dificuldades
- Ginástica: ginastas ucranianas que representaram o país com distinção na competição artística
- Tiro e pentatlo moderno: modalidades com forte tradição ucraniana
- Atletismo: presença em diversas provas com atletas que treinaram em instalações fora da Ucrânia durante os períodos mais intensos da guerra
O Debate sobre a Participação Russa e Bielorrussa
Os Jogos de Paris 2024 foram palco de um intenso debate sobre a participação de atletas russos e bielorrussos, que o COI autorizou a competir como "atletas neutros individuais" sob condições específicas. A Ucrânia opôs-se veementemente a esta decisão, argumentando que a neutralidade olímpica não pode coexistir com a cumplicidade implícita numa guerra de agressão. Este debate — em que Portugal e outros países europeus tiveram de tomar posição — revelou as tensões entre os princípios universalistas do desporto olímpico e as realidades da geopolítica.
Atletas como Embaixadores da Ucrânia
Em tempo de guerra, os atletas ucranianos tornaram-se diplomatas involuntários, porta-vozes de um país que precisa de manter a atenção e a solidariedade do mundo. Cada medalha, cada presença num pódio, cada entrevista de um atleta ucraniano numa conferência de imprensa internacional é uma afirmação de que a Ucrânia existe, resiste e vence.
Esta função diplomática dos atletas é reconhecida pelas autoridades ucranianas, que apoiam a participação internacional das suas equipas e dos seus desportistas individuais mesmo quando isso implica custos logísticos e financeiros elevados. O portal Sport.d.ua cobre estas histórias com o orgulho de quem sabe que cada medalha vale muito mais do que metal precioso.
A Seleção Nacional de Futebol da Ucrânia
A seleção ucraniana de futebol tem sido uma das histórias mais inspiradoras do futebol europeu dos últimos anos. Treinada por Serhiy Rebrov — ele próprio uma lenda do futebol ucraniano como jogador, com uma carreira que incluiu passagens pelo Dynamo Kyiv e pelo Tottenham Hotspur — a seleção participou no Campeonato da Europa de 2024 na Alemanha, sendo eliminada nos quartos de final, mas com uma prestação que superou as expectativas de muitos.
Os Craques da Seleção
- Mykhailo Mudryk: extremo do Chelsea, considerado um dos maiores talentos do futebol europeu, com uma velocidade e criatividade que encantam os adeptos
- Viktor Tsygankov: médio ofensivo com carreira em Espanha (Girona) que representa a ligação do futebol ucraniano à Liga Espanhola
- Oleksandr Zinchenko: lateral-esquerdo do Arsenal, uma das figuras mais reconhecidas do futebol ucraniano internacionalmente, muito ativo na comunicação pública sobre a guerra
- Artem Dovbyk: avançado, com passagens por clubes espanhóis (Girona, AS Roma), que se revelou como um dos melhores dianteiros da Liga Espanhola antes de seguir para a Serie A italiana
Boxe Ucraniano e a Sua Tradição: Além de Usyk
A Ucrânia tem uma tradição de boxe que remonta à era soviética e que produziu, ao longo das décadas, uma sucessão de campeões que a tornaram numa das grandes potências mundiais do pugilismo. Antes de Usyk, os irmãos Vitali e Wladimir Klitschko dominaram o boxe mundial dos pesos pesados durante mais de uma década — um feito sem precedentes na história recente do desporto.
Vitali Klitschko é hoje o Presidente da Câmara de Kyiv, uma figura política central na resistência da capital ucraniana desde o início da invasão. Wladimir Klitschko, seu irmão, é um dos embaixadores mais ativos da causa ucraniana no mundo, usando a sua fama desportiva para mobilizar apoio político e humanitário nos fóruns internacionais.
A Fábrica de Campeões do Boxe Ucraniano
- Sistema de formação de boxe desenvolvido durante a era soviética e mantido após a independência em 1991
- Rede de ginásios em todo o país, incluindo em cidades industriais do Donbas que produziram gerações de pugilistas
- Cultura de disciplina e sacrifício que a guerra reforçou, com muitos boxeurs amadores a alistar-se nas forças armadas
- Campeonatos nacionais que continuaram a decorrer durante a guerra, servindo de plataforma de seleção de talentos
Comparação com Portugal: Euro 2024 e a Cultura do Futebol
Portugal e a Ucrânia partilharam o Campeonato da Europa de 2024 na Alemanha, e este facto cria um ponto de contacto desportivo direto entre os dois países. Portugal, com Cristiano Ronaldo a disputar provavelmente o seu último grande torneio internacional, ficou pelos quartos de final — eliminado pela França nos penáltis — enquanto a Ucrânia também saiu na mesma fase, eliminada pela Inglaterra.
As semelhanças entre o futebol português e o ucraniano vão além das circunstâncias do torneio. Ambos os países têm uma paixão pelo futebol que transcende o desporto e funciona como elemento de identidade nacional. Ambos têm uma tradição de exportar jogadores para as grandes ligas europeias — inglesa, espanhola, italiana, alemã. E ambos têm campeonatos nacionais dominados por dois ou três clubes históricos, com uma massa de clubes mais pequenos que representam identidades regionais e locais.
No Minho, onde o Vitória Sport Clube de Guimarães e o Sporting de Braga têm bases de adeptos apaixonadas, a chegada de refugiados ucranianos criou novos vínculos desportivos. Muitos ucranianos, com a sua própria paixão pelo futebol, adotaram os clubes locais como seus, misturando cores e bandeiras em atitudes que simbolizam a integração real que o desporto facilita de forma única.
O desporto ucraniano é, em 2025, muito mais do que competição. É uma declaração de resistência, uma afirmação de identidade, uma forma de manter viva a esperança de um povo que sabe que a paz chegará e que, quando chegar, os campeões que forjou durante os anos mais difíceis serão o símbolo de uma geração que não se deixou vencer. O Sport.d.ua continua a contar esta história, um jogo, um combate, uma medalha de cada vez.
Foram uma afirmação de existência, uma demonstração ao mundo de que um país em guerra continua a formar campeões, continua a competir no mais alto nível, continua a ser uma nação viva e presente na comunidade internacional. A delegação ucraniana em Paris incluiu atletas em múltiplas modalidades, muitos dos quais tinham continuado a treinar em condições extraordinariamente difíceis — com cortes de energia, instalações desportivas danificadas e a pressão psicológica de ter familiares na linha de frente ou em território ocupado.


