O conselheiro de Estado e ministro da Defesa da China, Dong Jun, não compareceu ao Diálogo de Shangri-La de 2024 em Singapura, confirmou o Ministério da Defesa chinês num comunicado enviado à comunicação social na sexta-feira. A ausência de um ministro da Defesa de uma potência nuclear num fórum de segurança Ásia-Pacífico que decorre anualmente desde 2002 levantou imediatamente questões sobre o estado das relações militares entre Pequim e Washington. Dong Jun, que ocupa o cargo apenas desde dezembro de 2023, enviou um subdiretor em vez de presidir a delegação, uma decisão que analistas consideram invulgar para um evento desta dimensão.

Um fórum com peso geopolítico

O Diálogo de Shangri-La, organizado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), realiza-se todos os anos em Singapura e reúne ministros da Defesa, chefes de estados-maiores e especialistas em segurança de dezenas de países. Este ano, o evento arrancou a 31 de maio e decorreu até 2 de junho. A Índia enviou o seu primeiro-ministro Narendra Modi na abertura, enquanto os Estados Unidos fizeram-se representar pelo secretary da Defesa, Lloyd Austin. A ausência de Dong Jun contrastou de forma evidente com a presença de outras grandes potências asiáticas, incluindo o Japão, a Austrália e a Coreia do Sul.

Ministro da Defesa da China falha Diálogo de Shangri-La — e ninguém sabe ao certo porquê — Politica
Política · Ministro da Defesa da China falha Diálogo de Shangri-La — e ninguém sabe ao certo porquê

O que Pequim disse

O Ministério da Defesa chinês indicou que Dong Jun cancelou a viagem por motivos de «agenda doméstica», sem esclarecer quais. A agência noticiosa estatal Xinhua avançou que o ministro tinha «compromissos urgentes» que impediram a deslocação a Singapura. Fontes próximas do governo citadas pela Reuters disseram que os compromissos incluíam reuniões internas sobre questões de segurança nacional. Nenhuma dessas reuniões foi descrita com mais detalhe. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Mao Ning, disse durante uma conferência de imprensa que a China «continua comprometida com o diálogo e a cooperação em matéria de defesa».

Sinais de tensão com Washington

A ausência ocorreu num momento particularmente sensível. O general Lloyd Austin reuniu-se em Singapura com o homólogo japonesa e com representantes de países do Sudeste Asiático, num esforço visível para reforçar os laços militares dos Estados Unidos na região. Pequim tem aumentado a pressão sobre Taiwan e expandido a sua presença no Mar da China Meridional, o que deixou vários aliados regionais nervosos. Analistas do IISS escreveram que a decisão de enviar uma delegação de baixo nível pode ter sido uma resposta às sanções americanas impostas a empresas militares chinesas no início deste ano. Washington proibiu a importação de tecnologia militar chinesa como parte de um paquete de medidas restritivas.

Comparação com edições anteriores

Em 2023, o então ministro da Defesa da China, Li Shangfu, também não viajou para o Diálogo de Shangri-La. Na altura, os Estados Unidos tinham emitido um mandato de detenção contra Li por suspeitas de compra de armas russas, embora Pequim nunca tenha confirmado oficialmente o motivo da ausência. A repetição deste padrão em dois anos consecutivos levou alguns analistas a questionar se existe uma estratégia deliberada de Pequim para marginalizar o fórum ou simplesmente para evitar o confronto direto com os representantes americanos presentes. O IISS não comentou publicamente as razões avançadas pela China.

Como os países vizinhos reagiram

As reações na região foram maioritariamente discretas. O Ministério da Defesa do Vietname disse que «tomou nota» da ausência, sem elaborar. A Indonésia, que assume a liderança da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), optou por um comunicado genérico sobre a importância do diálogo regional. Apenas as Filipinas, que têm vindo a confrontar navios chineses em águas disputadas no Mar do Sul, deixaram transparecer frustração. O presidente Ferdinand Marcos Jr. afirmou que a falta de engagement direto com a China «torna mais difícil gerir os incidentes marítimos». Singapura, o país anfitrião, não comentou as razões da ausência.

Consequências para a diplomacia militar

Especialistas em segurança apontaram que o fórum representa uma das poucas ocasiões em que chefes de defesa de grandes potências se sentam à mesma mesa. Quando um país envia um representante de baixo nível, perde a oportunidade de conduzir reuniões bilaterais à margem do evento. Fontes da delegação americana indicaram que não houve qualquer contacto entre o secretary Austin e o representante chinês durante os três dias do fórum. Isto marca uma rutura em relação a 2022, quando os dois países mantiveram pelo menos três encontros informais em Singapura. A China confirmou que enviou o major-general Wang Ning para liderar a delegação, mas este não participou em nenhum painel de alto nível.

O que se segue

O próximo grande teste para as relações militares entre Pequim e Washington está marcado para agosto, quando as duas partes têm uma reunião de trabalho prevista no quadro do fórum de Defesa do Mar do Sul da China. Washington e Pequim concordaram em retomar os canais de comunicação estratégicos durante a cimeira de São Francisco em novembro de 2023, mas vários desses canais permanecem inativos. Analistas apontam que uma eventual visita de Dong Jun aos Estados Unidos este ano continua incerta, o que pode manter as tensões entre as duas maiores economias do mundo em níveis elevados durante os próximos meses.

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Pedro Costa
Autor
Pedro Costa é jornalista político a cobrir a Assembleia da República, o Governo e as relações de Portugal com as instituições europeias. Baseado em Lisboa, acompanha os debates legislativos, as negociações orçamentais e a política externa portuguesa com particular atenção às questões de governação e administração pública.

Pedro tem vasta experiência em cobertura parlamentar e reportagem de política europeia, tendo seguido várias presidências do Conselho da UE. É licenciado em Ciência Política pela Universidade de Lisboa.