O governo chinês revelou um plano abrangente para proteger milhões de empregos ameaçados pela inteligência artificial, anunciou esta semana o Ministério dos Recursos Humanos e Segurança Social em Pequim. A estratégia inclui formação profissional em larga escala, subsídios para empresas que mantenham efetivos e apoio direto a trabalhadores em sectores de alto risco. As autoridades estimam que a automação possa afetar até 30% dos postos de trabalho nas fábricas do delta do Rio das Pérolas nos próximos cinco anos.
Um plano com escala sem precedentes
O programa lançado por Pequim representa um dos maiores investimentos públicos alguma vez dedicados à transição tecnológica no país. O Ministério do Trabalho confirmou que serão alocados fundos substanciais para centros de formação espalhados por 23 provinces. Estes centros oferecerão cursos em competências digitais, programação básica e operação de sistemas automatizados. A ideia central é que os trabalhadores transitem para funções que complementem, em vez de competirem com, as máquinas.
As autoridades escolheram Shenzhen como cidade-piloto do programa. Na zona económica especial, várias fábricas já começaram a testar modelos híbridos onde humanos e robôs trabalham lado a lado. O município comprometeu-se a formar 200 mil trabalhadores até ao final de 2025, segundo a câmara municipal.
Os sectores mais vulneráveis
A indústria transformadora é o sector mais exposto. Relatórios do Banco Popular da China indicam que empresas de electrónica na região de Dongguan começaram a substituir linhas de montagem inteiras por robôs. Um trabalhador de uma fábrica de componentes para smartphones contou à televisão estatal que os seus colegas receberam propostas de formação ou indemnizações. «Escolhi a formação. Quero aprender a programar these machines», disse, usando a palavra em inglês.
Além da manufactura, o comércio retalhista e a logística enfrentam pressões crescentes. Centros comerciais em Xangai relatam uma quebra de 15% nas contratações de caixa desde 2022, tendência que os proprietários atribuem à proliferação de caixas automáticos e pagamentos por telemóvel. No sector dos transportes, empresas de distribuição em Pequim já experimentam veículos autónomos para entregas de última milha.
Resistência em sectores-chave
Não todos os sectores aceitam a transição da mesma forma. O sector automóvel, que emprega directamente mais de cinco milhões de pessoas na China, atravessa uma fase particularmente complexa. A mudança para veículos eléctricos reduziu a necessidade de mecânicos especializados em motores de combustão interna. Fabricantes como a BYD e a NIO anunciaram programas internos de requalificação, mas sindicalistas ouvidos pela agência oficial Xinhua alertam que muitos trabalhadores mais velhos resistem a aprender novas competências.
A construção civil, outro empregador maciço com mais de 50 milhões de trabalhadores, permanece por enquanto relativamente protegida. A automatização neste sector avança lentamente devido à complexidade das obras. Contudo, analistas do Banco de Investimentos da China preveem que robôs de alvenaria e impressão 3D possam começar a substituir operários dentro de uma década.
Modelo inspirado no passado
Pequim já enfrentou transições económicas dolorosas no passado. O encerramento de fábricas de aço e carvão nas provinces do nordeste entre 2016 e 2020 obrigou a.realocar milhões de trabalhadores. Na altura, o governo criou fundos de reassentamento e programas de apoio ao empreendedorismo. Fontes do Ministério da Transição Ecológica confirmam que muitos desses mecanismos estão agora a ser adaptados para a nova realidade da inteligência artificial.
O modelo inspira-se também em experiências internacionais. Especialistas do think tankChina Development Research observaram os programas alemães de formação profissional dual e as políticas sul-coreanas de requalificação para trabalhadores do sector automóvel. «Aprendemos que a intervenção precoce é fundamental. Não podemos esperar que o desemprego dispare para agir», escreveu Wang Hui, director do programa, num artigo para aRevista Ekonomi Chino.
O papel das empresas tecnológicas
O governo chinese espera que as próprias empresas de tecnologia contribuam para o esforço. Gigantes como a Alibaba, a Tencent e a Huawei foram convidadas a participar na formação de trabalhadores através de parcerias com universidades e institutos técnicos. A Alibaba respondeu com um programa que oferece cursos gratuitos de inteligência artificial a pequenas empresas.
Porém, críticos questionam se estas iniciativas são suficientes. Investigadores da Universidade Tsinghua, em Pequim, publicaram um estudo no mês passado alertando que a velocidade da adopção de IA supera a capacidade dos programas de formação actuais. «Temos um fosso crescente entre o que as empresas precisam e o que os trabalhadores sabem fazer», concluiu o relatório.
Impacto nas relações laborais
A tensão entre produtividade e estabilidade laboral está a mudar a negociação colectiva na China. Reguladores do Ministério dos Recursos Humanos afirmaram que vão apertar a fiscalização de despedimentos colectivos em empresas que adoptem sistemas de inteligência artificial. Empresas com mais de 500 trabalhadores precisam agora de aprovação governamental antes de proceder a lay-offs superiores a 50 pessoas.
Algumas multinacionais com operações na China manifestaram preocupação com estas exigências. A câmara de comércio europeia em Pequim enviou uma carta ao governo a solicitar flexibilidade. «As empresas precisam de adaptar-se aos mercados globais. Restrições excessivas podem afastar investimentos», lê-se no documento.
Perspectivas para o futuro
Os próximos meses serão decisivos para avaliar a eficácia do plano. O Ministério do Trabalho marcou para Novembro uma conferência nacional sobre transição tecnológica e emprego, onde serão apresentados os primeiros dados sobre o número de trabalhadores formados. Nessa altura, Pequim anunciará se o programa piloto em Shenzhen será alargado a outras cidades.
A questão central permanece sem resposta definitiva: pode a China conseguir que a inteligência artificial crie mais empregos do que destrói? A resposta depende de factores que vão além das políticas domésticas, incluindo a procura global por produtos manufacturados e a evolução das próprias tecnologias. O que é certo é que milhões de trabalhadores chineses enfrentarão nos próximos anos uma realidade profissional profundamente diferente da actual.
Leia Também
- Mercado Diacetone Alcool Daa 2020 Por Manufaturas Tipos Aplicacoes Regioes e Previsao Para 2025
- Mercado Adesivos Industriais Previsoes Geograficas e de Crescimento 2019 2022
Impacto nas relações laborais A tensão entre produtividade e estabilidade laboral está a mudar a negociação colectiva na China. Modelo inspirado no passado Pequim já enfrentou transições económicas dolorosas no passado.


