Os fabricantes chineses de materiais para semicondutores estão a intensificar a competição contra rivais japoneses num mercado avaliado em 73 mil milhões de dólares, segundo análises do setor. A disputa surge num momento em que Pequim procura reduzir a dependência de tecnologia estrangeira para chips avançados, enquanto empresas japonesas tentam defender a sua fatia num segmento historicamente dominado por Tóquio. O confronto coloca duas das maiores potências tecnológicas asiáticas frente a frente numa corrida que poderá redefinir a cadeia global de fornecimento de semicondutores.
A corrida pelo domínio dos materiais para chips
A indústria de materiais para semicondutores inclui substratos de silício, gases de processamento e químicos de elevada pureza utilizados na fabricação de processadores e memória. Estes materiais representam uma fração do custo total de um chip, mas são essenciais para o seu funcionamento. Empresas como a Shin-Etsu Chemical e a JSR Corporation, ambas sedeadas no Japão, dominam há décadas segmentoschave deste mercado, fornecendo componentes a fabricantes em todo o mundo, incluindo a própria China.
Contudo, os produtores chineses têm vindo a expandir capacidades nos últimos anos, impulsionados por fundos governamentais e pela ambição de alcançar autossuficiência tecnológica. A Shanghai Wafer Technology e a Zing Semiconductor estão entre as empresas que investiram em novas fábricas para produzir wafers de silício de maior qualidade, segundo dados da Associação da Indústria de Semicondutores da China. Estes desenvolvimentos representam uma ameaça direta às posições estabelecidas das empresas japonesas.
O valor em jogo e as estimativas de crescimento
Os 73 mil milhões de dólares referidos nas projeções do mercado representam o valor total estimado para o setor de materiais de semicondutores a nível global até ao final da década. Analistas da TechInsights estimam que o segmento de wafers de silício alone deverá crescer a uma taxa anual composta de 6,5 por cento até 2028. Esta trajetória de crescimento atrai investimento significativo e intensifica a competição entre fornecedores de diferentes países.
O mercado japonês de materiais para chips emprega diretamente mais de 25 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 12 mil milhões de dólares, de acordo com dados do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão. A perda de quota de mercado para concorrentes chineses teria implicações económicas e estratégicas profundas para Tóquio, que considera a cadeia de fornecimento de semicondutores uma prioridade de segurança nacional.
Fatores que impulsionam a competição
A tensão geopolítica entre a China e os Estados Unidos acelerou os esforços de Pequim para desenvolver capacidades internas em tecnologia de chips. Restrições de exportação impostas por Washington obrigaram empresas chinesas a procurar fornecedores alternativos, mas também motivaram o governo de Xi Jinping a acelerar investimentos em produção nacional. Esta política produziu resultados visíveis: a taxa de importação de materiais semicondutores pela China caiu três pontos percentuais entre 2022 e 2024, segundo dados alfandegários chineses.
Paralelamente, o Japão implementou medidas para fortalecer a sua própria indústria de semicondutores, incluindo subsidies milionários para empresas como a Rapidus, que visa produzir chips de 2 nanómetros na ilha de Hokkaido. Esta estratégia cria uma aparente contradição: Tóquio quer ser um fornecedor global de tecnologia avançada, mas ao mesmo tempo compete com a China por clientes nos mercados emergentes, onde os fabricantes chineses oferecem preços mais competitivos.
Estratégias divergentes de ambos os lados
As empresas japonesas apostam na qualidade e na inovação tecnológica como principais argumentos de venda. A JSR Corporation, por exemplo, desenvolveu materiais photorresist de última geração utilizados na litografia EUV, uma tecnologia que permanece vedada à China devido às sanções americanas. Esta vantagem técnica oferece alguma proteção, mas não garante imunidade face à pressão constante sobre os preços.
Do lado chinês, o enfoque recai na escala de produção e no suporte estatal. Empresas estatais e fundos de investimento controlados pelo governo injectaram mais de 150 mil milhões de yuans no setor desde 2020, segundo othink tank China Semiconductor Industry Association. Estainjeção de capital permitiu a construção de fábricas modernas que, embora ainda atrás das melhores tecnologias japonesas em termos de precisão, conseguem atender às necessidades de segmentos menos sofisticados do mercado de chips.
Implicações para a cadeia global de fornecimento
A intensificação da competição sino-japonesa ocorre num momento de reestruturação profunda da cadeia global de semicondutores. Governos em todo o mundo estão a exigir maior diversificação de fornecedores para evitar dependências excessivas de um único país. Esta tendência cria oportunidades para ambos os lados: empresas chinesas podem preencher nichos deixados por ocidentais relutantes em exportar para certos mercados, enquanto firmas japonesas mantêm vantagem em segmentos de alta gama.
Fabricantes de chips na Coreia do Sul, Taiwan e Europa monitorizam de perto esta disputa,aware de que a estabilidade dos seus fornecimentos depende parcialmente do equilíbrio de forças entre Pequim e Tóquio. Qualquer perturbação significativa na cadeia de materiais poderia atrasar a produção de smartphones, computadores e equipamento industrial em escala global.
O que esperar nos próximos anos
Especialistas do setor preveem que a competição se intensifique até 2027, quando várias fábricas de materiais chinesas atingirão plena capacidade operacional. Até lá, as empresas japonesas deberán decidir se investem em reduzir custos ou se concentram exclusivamente em tecnologia de ponta. A resposta a esta questão definirá os contornos do mercado durante a próxima década.
As autoridades chinesas indicated recently que pretendem aumentar a produção doméstica de wafers de silício para 40 por cento das necessidades internas até 2026, contra os atuais 28 por cento. Se concretizado, este objetivo reduzirá significativamente as importações do Japão e de outros fornecedores. O mercado de 73 mil milhões de dólares está longe de estar dividido — e a batalha apenas começou.


