O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia descartou esta quarta-feira qualquer envolvimento de países terceiros na disputa fronteiriça com o Nepal, depois de Balen Shah, presidente da Câmara Municipal de Catmandu, ter sugerido que nações como a China ou a Grã-Bretanha poderiam ter interesse na questão. A posição da diplomacia indiana representa uma resposta direta e sem precedentes ao autarca nepales, que gerou tensão ao afirmar que territórios no setor de Lipulekh terão sido ocupados.

Quem é Balen Shah e porque falou sobre fronteiras

Balen Shah venceu as eleições autárquicas de Katmandu em maio de 2022, tornando-se um dos políticos mais mediáticos do Nepal. Conhecido pelo discurso nacionalista e pelas políticas de modernização da capital, Shah não ocupa um cargo diplomático, mas as suas declarações sobre a fronteira com a Índia causaram impacto. Em publicações nas redes sociais, o presidente da câmara referiu-se a uma alegada «invasão» de território nepales por forças indianas, uma afirmação que foi amplificada por meios de comunicação locais.

Índia Exclui Terceiros na Questão Fronteiriça com Nepal após Comentário Polémico de Balen Shah — Agricultura
Agricultura · Índia Exclui Terceiros na Questão Fronteiriça com Nepal após Comentário Polémico de Balen Shah

A origem do diferendo remete para 2019, quando a Índia inaugurou uma estrada em Lipulekh, uma região reivindicada pelo Nepal. Catmandu considerou o ato uma violação do seu território. Desde então, as relações bilaterais têm atravessado momentos de tensão, apesar dos esforços diplomáticos. Balen Shah, however, chose a more confrontational tone that drew New Delhi's formal response.

A resposta de Nova Deli ao autarca nepales

«Não existe qualquer papel para uma terceira parte nesta questão», declarou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia em conferência de imprensa. O comunicado não mencionou explicitamente a China ou a Grã-Bretanha, mas fontes governamentais indianas citadas pela imprensa local indicaram que Nova Deli considera qualquer referência a potências externas como uma tentativa de internacionalizar um diferendo essencialmente bilateral.

A posição da Índia baseia-se no princípio de que os assuntos fronteiriços devem ser resolvidos através de negociações diretas entre os dois países, um entendimento que tem sido transversal a diferentes governos em Nova Deli. O Ministério referiu ainda que os mecanismos existentes entre a Índia e o Nepal são suficientes para abordar quaisquer preocupações territoriais.

Contexto da disputa fronteiriça India-Nepal

O Nepal reclama três sectores territoriais que considera seus: Lipulekh, Limpiyadhura e Kalapani, num total estimado de 370 quilómetros quadrados. Estas áreas encontram-se sob administração indiana há décadas, mas Catmandu sustenta que lhe foram cedidas pelo Tratado de Sugauli de 1816. Nova Deli, por sua vez, mantém que a questão requer negociações prolongadas e que os mapas publicados pelo Nepal em 2020 não alteram a situação no terreno.

A proximidade geográfica entre os dois países torna a fronteira particularmente sensível. Mais de 1.800 quilómetros separam os dois estados, e milhões de pessoas atravessam a linha divisória diariamente, seja para comércio, trabalho ou vínculos familiares. Qualquer tensão diplomática tem efeitos imediatos nas comunidades fronteiriças.

Sinais de alarme com possíveis intervensões externas

A referência de Balen Shah a países terceiros surge num momento em que a China tem aumentado a sua presença na Ásia do Sul. O Nepal assinou acordos de cooperação com Pequim nos últimos anos, incluindo projetos de infraestrutura financiados por investimento chinês. Analistas em Catmandu apontam que o governo nepales tem tentado equilibrar as suas relações com a Índia e a China, evitando alinhar-se exclusivamente com qualquer uma das potências.

A Grã-Bretanha, por sua vez, mantém laços históricos com o Nepal, país onde ainda existe um batalhão gurca a servir no exército britânico. Contudo, nenhuma destas nações manifestou oficialmente interesse em intervir no diferendo fronteiriço. A menção das mesmas nas declarações de Shah terá sido interpretada em Nova Deli como uma provocação deliberada.

Reações em Catmandu e impacto interno no Nepal

Dentro do Nepal, as palavras de Balen Shah dividiram opiniões. Sectores nacionalistas apoiaram a sua posição firme, enquanto o governo do primeiro ministro Pushpa Kamal Dahal Prachanda evitou endossar as declarações do autarca. O Ministério dos Negócios Estrangeiros nepales emitiu uma nota prudente, afirmando que a questão fronteiriça «será tratada através dos canais diplomáticos adequados».

O primeiro edil de Catmandu acumula ainda três processos judiciais por alegada difamação, o que alimenta o debate sobre a oportunidade das suas afirmações num momento de relativa estabilidade nas relações bilaterais. Alguns comentadores nepaleses consideram que Shah utiliza a questão fronteiriça para consolidar apoio interno, num cenário político fragmentado.

O que acontece a seguir

Ambos os países mantém programadas reuniões de trabalho ao nível dos ministros dos Negócios Estrangeiros para o próximo trimestre. O Nepal deverá apresentar um novo memorando sobre os sectores disputados na próxima ronda de conversações bilaterais, disseram fontes próximas do dossier. A Índia, porém, reafirmou que não aceitará qualquer tentativa de alterar o status quo por via de pressões externas. Os próximos meses serão decisivos para perceber se a tensão verbal se traduz em rutura negociadora ou se prevalece o diálogo bilateral.

I
Autor
Correspondente de negócios internacionais com foco na relação entre Portugal e os mercados emergentes, nomeadamente Brasil, Angola e Moçambique. Licenciada em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e mestre em Economia Internacional. Inês acompanha os fluxos de investimento luso-africanos, o papel das empresas portuguesas no PALOP e as oportunidades de exportação para mercados da CPLP. Fala português, inglês e espanhol fluentemente.