O primeiro-ministro de Bangladesh, Sheikh Hasina, escolheu Kuala Lumpur e Pequim para a sua viagem inaugural ao estrangeiro, deixando Nova Deli de fora da digressão de estreia. A decisão marca uma rutura simbólica com a tradição diplomática de Banguecoque, que durante décadas manteve a Índia como destino prioritário nas visitas internacionais de alto nível. A escolha surpreendeu analistas na região e reacendeu o debate sobre o equilíbrio estratégico da política externa bengali.
Uma digressão que quebra precedente
Desde a independência de Bangladesh em 1971, os primeiros-ministros do país priorizaram Nova Deli como parceiro estratégico por excelência. A proximidade geográfica, os laços históricos e a parceria no setor de segurança fizeram da Índia um aliado incontornável. No entanto, Rahman inverteu essa lógica logo na sua primeira viagem ao estrangeiro. Em vez de atravessar a fronteira ocidental, voou para leste — primeiro à Malásia, depois à China.
A decisão foi anunciada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Bangladesh em Dhaka na semana passada. O comunicado não especificou os motivos da ausência da Índia no itinerário, o que alimentou especulações em Nova Deli e entre capitais regionais.
Malásia: o parceiro muçulmano
Kuala Lumpur ocupa um lugar particular na diplomacia de Bangladesh. A comunidade bengali na Malásia é uma das maiores diásporas do país, com centenas de milhares de trabalhadores a remeter dinheiro para casa todos os anos. Esse fator económico torna a relação com a Malásia uma prioridade prática, não apenas simbólica.
Os dois países partilham também afinidades religiosas e culturais que facilitam o diálogo político. Rahman encontrou-se com o primeiro-ministro Anwar Ibrahim em Kuala Lumpur, discutindo cooperação no comércio, na educação e nas migrações de trabalho. Foi a primeira vez que um chefe de governo de Bangladesh escolheu a Malásia como paragem inaugural de uma digressão internacional.
Relações económicas em foco
A Malásia é um dos principais destinos para trabalhadores bengalis no setor dos serviços e da construção. As remessas destes migrantes representam uma fatia significativa do PIB de Bangladesh, e o governo de Rahman pretende renegociar termos mais favoráveis para os seus cidadãos no estrangeiro. Esse tema dominou as conversações em Kuala Lumpur, segundo fontes próximas do encontro.
China: o credor e o mercado
Após a Malásia, Rahman seguiu para Pequim, onde se reuniu com líderes chineses e assinou acordos de cooperação em infraestrutura e investimento. A China é o maior parceiro comercial de Bangladesh e um dos principais credores do país, financiando projetos de caminhos-de-ferro, ports e autoestradas ao abrigo da iniciativa Belt and Road.
A visita a Pequim ocorre num momento delicado. Bangladesh tem uma dívida significativa com a China, e Pequim tem pressionado por pagamentos regulares num contexto de escassez de reservas cambiais no país sul-asiático. Rahman tentou assurances de flexibilidade nos termos de reembolso durante as negociações.
A sombra da Índia
Nova Deli observou a digressão com atenção particular. A Índia sempre se considerou o parceiro de segurança preferencial de Bangladesh, particularmente na luta contra insurgências na região nordeste indiana. A ausência de Rahman do itinerário levanta questões sobre o futuro dessa parceria.
Fontes diplomáticas em Nova Deli indicaram que a Índia não foi formalmente convidada para esta viagem. O silêncio oficial indiano contrasta com a frustração palpável em círculos estratégicos. Analistas em Dhaka apontam que a política externa de Rahman está a reposicionar Bangladesh num eixo mais abrangente, reduzindo a dependência de qualquer potência única.
O que muda na região
A digressão de Rahman sinaliza uma política externa mais pragmática e menos ideológica. Bangladesh quer manter relações cordiais com todos os grandes poderes — China, Índia, Estados Unidos e Japão — sem se alinhar totalmente com nenhum. A estratégia tem precedentes na política خارجية de outros países sul-asiáticos, como o Sri Lanka e o Nepal.
Para a Índia, a mensagem é clara: Banguecoque já não considera Nova Deli como o ponto de partida obrigatório. Essa mudança coincide com uma reaproximação entre a China e países do Sul da Ásia, num contexto de competição geopolítica mais ampla na região do Índico.
A escolha de Kuala Lumpur como primeira paragem também não é casual. A Malásia ocupa a presidência rotativa da ASEAN este ano, o que confere a Rahman uma plataforma paraprojeteer a influência de Bangladesh para além do subcontinente indiano.
O que vem a seguir
O regresso de Rahman a Dhaka está previsto para a próxima semana. Os resultados concretos da viagem — os acordos assinados, os compromissos obtidos — serão escrutinados pelo parlamento e pela oposição. Os críticos em Bangladesh questionam se a visita produziu benefícios tangíveis para os trabalhadores migrantes e para a economia do país.
O silêncio sobre a Índia na digressão sugere que Nova Deli não será ignorada — apenas adiada. Observadores em Dhaka indicam que uma visita à Índia pode acontecer ainda este ano, mas num formato diferente: menos cerimonial, mais focada em questões práticas de segurança e comércio. A sequência da viagem importa tanto quanto a viagem em si.
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