O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou um relatório que projeta perdas de 380 mil milhões de dólares em rendimentos educacionais na África até 2050 devido às mudanças climáticas. O estudo, divulgado em Nova Iorque, destaca o impacto crescente das secas, inundações e mudanças na produtividade agrícola na educação das crianças. A região do Sahel, incluindo países como Mali, Níger e Chade, é particularmente vulnerável, com agravamento dos desafios socioeconómicos já sentidos nos últimos anos.
O Relatório e as Previsões do Unicef
O relatório do Unicef, intitulado "A Educação na Era do Clima", analisa como os eventos climáticos extremos estão a afectar o acesso à educação, a qualidade das escolas e as oportunidades futuras para as crianças. Segundo o estudo, até 2050, a diminuição da produtividade agrícola e o aumento da pobreza vão reduzir o número de crianças que conseguem completar o ensino secundário em mais de 10%. A região de África Subsaariana, onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos, é a mais afetada.
“A educação é a chave para a resiliência climática, mas as mudanças estão a minar esta oportunidade”, afirmou Maria Fernanda Sá, representante do Unicef em África. “As crianças mais afectadas são as que vivem em zonas rurais, onde os recursos são limitados e as infraestruturas são frágeis.” O relatório sugere que a perda de rendimento educacional pode reduzir o PIB da região em até 2% anualmente até 2050, se não forem tomadas medidas urgentes.
Impacto na Vida das Crianças
As mudanças climáticas estão a afetar directamente a vida das crianças em diversas formas. Secas prolongadas estão a levar à fome e à migração forçada, enquanto as inundações destróem escolas e forçam a suspensão das aulas. No Níger, por exemplo, mais de 20% das escolas foram danificadas por inundações nos últimos dois anos, segundo o Ministério da Educação local. Além disso, a falta de água potável e a diminuição da produtividade agrícola estão a aumentar o número de crianças que abandonam a escola para trabalhar em família.
“Muitas crianças precisam de ajudar a família a sobreviver, especialmente em zonas rurais”, explicou o professor Samuel Kofi, de uma escola em Ghana. “Isso significa que elas não podem estudar regularmente, o que afecta o seu futuro.” O relatório do Unicef aponta que, se os países não investirem em infraestruturas educacionais resistentes e em programas de apoio às famílias, o impacto será irreversível.
Desafios e Soluções Propostas
O relatório do Unicef propõe várias soluções para mitigar o impacto das mudanças climáticas na educação. Entre elas, a construção de escolas resistentes a inundações e secas, a digitalização do ensino para garantir acesso contínuo, e a criação de programas de apoio financeiro às famílias mais afectadas. O estudo também chama a atenção para a importância de integrar a educação climática nos currículos escolares, para preparar as crianças para os desafios futuros.
“A educação não pode ser ignorada nas políticas climáticas”, afirmou a especialista em mudanças climáticas, Dr. Amina Diallo, da Universidade de Dakar. “As crianças são as mais afectadas, mas também têm o potencial de serem os maiores agentes de mudança.” O relatório recomenda que os governos e organizações internacionais aumentem os investimentos em educação climática, com foco em regiões mais vulneráveis.
Repercussão na Comunidade Internacional
O relatório do Unicef gerou reacções de várias partes da comunidade internacional. O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o estudo e pediu uma maior cooperação entre governos e organizações para proteger o acesso à educação. “A educação é um direito humano fundamental, e as mudanças climáticas estão a ameaçar esse direito em larga escala”, disse Guterres em declarações públicas. A União Europeia também anunciou que vai aumentar o financiamento para projectos educativos em África, como parte de um plano maior de apoio climático.
“A educação é a base para a resiliência climática, e a África precisa de mais apoio para construir escolas e sistemas educativos robustos”, afirmou o comissário europeu para o Desenvolvimento, Jutta Urpilainen. O estudo do Unicef foi apresentado durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP28), onde o tema da educação climática foi debatido em várias sessões.
Investimento em Infraestrutura e Inovação
Uma das principais recomendações do relatório é o investimento em infraestrutura educacional adaptada às mudanças climáticas. Isso inclui a construção de escolas com sistemas de captação de água, telhados resistentes a ventos fortes e salas de aula que possam funcionar mesmo em condições adversas. Além disso, a digitalização do ensino é vista como uma alternativa viável, especialmente em zonas onde as escolas estão destruídas ou em risco.
“Tecnologia e inovação podem ajudar a manter a educação em qualquer condição”, afirmou o director da Agência de Inovação em Educação, Pedro Costa, durante uma conferência em Lisboa. “O desafio é garantir que estas ferramentas cheguem às crianças mais vulneráveis.” O relatório também sugere que os governos devem investir em programas de formação para professores, para que possam adaptar o ensino às realidades climáticas.
O relatório do Unicef serviu como alerta para os governos e organizações internacionais sobre a urgência de actuar. A data limite para a implementação de políticas eficazes é 2030, segundo o relatório, com um plano de acção a ser apresentado na próxima conferência climática. As crianças da África, que representam a maior parte da população jovem do continente, são as principais beneficiárias, mas também as mais afectadas. A educação é o caminho para a resiliência e o desenvolvimento sustentável, e o tempo para agir é curto.


