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Energia

Sicília Regista 48,8°C — Novo Máximo Histórico de Calor na Europa

— Paulo Teixeira 4 min read

As temperaturas na Sicília atingiram 48,8°C em agosto de 2024, estabelecendo um novo máximo histórico para a Europa continental. O valor foi registado pela estação meteorológica de Siracusa, superando em quase três graus Celsius o anterior recorde do continente. Este número não é apenas mais uma estatística — representa uma rutura clara com os padrões climáticos que moldaram a vida europeia durante séculos.

O Recorde de Siracusa

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou oficialmente o valor de 48,8°C, medido na madrugada de 11 de agosto. A equipa do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV) de Itália analisou os dados durante semanas antes de validar a leitura. O anterior recorde europeu era de 48°C, estabelecido em Atenas em julho de 2021.

O calor intenso não se limitou a Sicília. Durante o mesmo período, várias regiões de Portugal, Espanha e Grécia ultrapassaram os 45°C durante dias consecutivos. Em Córdoba, os termómetros indicaram 46,7°C em três ocasiões distintas.

Um Padrão em Aceleração

Os dados do Serviço Copernicus para Alterações Climáticas revelam que 2024 foi o ano mais quente alguma vez registado na Europa. A temperatura média do verão superou em 1,3°C a média da década anterior. Os cientistas do programa europeu enfatizam que não se trata de uma anomalia isolada — é parte de uma tendência que se intensifica a cada década.

A investigação publicada pela revista Nature Climate Change em outubro de 2024 demonstrou que os extremos de calor na Europa quadruplicaram desde a década de 1980. O estudo, coordenado pela Universidade de Exeter no Reino Unido, utilizou dados de mais de 1.500 estações meteorológicas.

O Papel das Alterações Climáticas

Cientistas do Instituto Potsdam para Investigação do Impacto Climático afirmaram que o aquecimento global tornou estes eventos não apenas mais prováveis, mas inevitáveis. O fenómeno de retenção de calor nos oceanos Mediterrâneo e Atlântico amplifica as ondas de calor que atingem o continente.

O Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) já havia alertado, no seu relatório de 2023, que temperaturas acima dos 50°C se tornariam realidade em partes da Europa até 2050. O que aconteceu em Sicília sugere que esse cenário pode concretizar-se mais cedo do que o previsto.

Impacto na Saúde Pública

Durante o verão passado, os hospitais de Sevilha, Atenas e Florença reportaram aumentos significativos nos internamentos por golpe de calor. A Direção-Geral da Saúde de Portugal estimou mais de 2.000 mortes atribuíveis ao calor extremo entre junho e setembro. As vítimas foram predominantemente pessoas acima dos 75 anos e indivíduos com doenças crónicas.

A Cruz Vermelha de Espanha ativou planos de emergência em 14 provinces durante o pico da onda de calor. Voluntários distribuíram água e verificaram o estado de idosos que vivem sozinhos em zonas rurais da Andaluzia e Estremadura.

Resposta dos Governos

O Conselho da União Europeia aprovou em setembro um pacote de 2,3 mil milhões de euros para adaptação climática. Doze países mediterrânicos receberam fundos prioritários para instalar sistemas de arrefecimento em escolas e lares de idosos. A comissária europeia para o Clima, Wopke Hoekstra, anunciou que as metas de redução de emissões serão revistas em 2025.

Em Itália, o governo de Giorgia Meloni declarou estado de emergência em seis regiões. O primeiro-ministro autorizou a suspensão temporária de restrições laborais para permitir que trabalhadores do setor agrícola evitassem as horas de maior calor — uma medida criticada por sindicatos, que alegaram falta de proteção adequada para os trabalhadores.

O Que Vem a Seguir

Os modelos climáticos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo indicam que o verão de 2025 poderá trazer condições semelhantes. Os investigadores preveem que os meses de julho e agosto concentrarão os períodos mais críticos de calor na Península Ibérica e na Itália.

Até ao final de 2025, a União Europeia pretende implementar o primeiro sistema pan-europeu de alertas precoces para calor extremo. Dezassete países já aderiram ao programa piloto. A população europeia deve acompanhar a evolução das políticas de adaptação — e exigir que os governos actuem antes que novos recordes sejam estabelecidos.

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