As autoridades de saúde europeias divulgaram esta semana novas recomendações sobre hidratação, reforçando que a água continua a ser o líquido mais eficaz para manter o corpo funcionar corretamente. O documento, coordenado pela Direção-Geral de Saúde europeia em parceria com organizações médicas internacionais, chega num momento em que estudos indicam que grande parte da população do continente não ingere a quantidade diária recomendada.
Recomendações actualizadas para adultos e crianças
O novo guia estabelece que os adultos devem consumir entre 1,5 e 2 litros de água por dia, embora essa quantity possa variar conforme o peso corporal, nível de atividade física e condições climatéricas de cada região. A orientação anterior, publicada há mais de uma década, não tinha em conta as diferenças regionais dentro da Europa. As crianças entre os 4 e 13 anos devem beber entre 1 e 1,5 litros diários, uma subida significativa face às indicações anteriores.
O documento destaca que bebidas como café e chá contribuem para a hidratação, mas que a água continua a ser a escolha mais eficiente. Bebidas açucaradas, por outro lado, podem ter o efeito contrário, alertam os especialistas envolvidos na elaboração do relatório.
Porquê reavaliar agora
A revisão das orientações surge após uma análise que durou dois anos, conduzida por investigadores de universidades em Lisboa, Amesterdão e Varsóvia. Os dados recolhidos mostram que o consumo médio de água na Europa diminuiu nos últimos 15 anos, coincidindo com o aumento do consumo de refrigerantes e sumos. A tendência é particularmente marcada nos países do Sul, onde as temperaturas mais elevadas no verão agravam o risco de desidratação.
Em Portugal, os dados do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge indicam que cerca de 30% dos adultos não atingem a ingestão mínima recomendada. As regiões do interior alentejano e algarvio apresentam os índices mais baixos de consumo de água, associadas a menor acesso a água potável de qualidade em espaços públicos durante os meses de verão.
Diferenças entre o Norte e o Sul da Europa
O relatório sublinha que o clima influencia diretamente as necessidades de hidratação. Nos países nórdicos, as recomendações adaptam-se aos meses de inverno, quando a desidratação é menos óbvia mas continua a ocorrer. Já nos países mediterrânicos, como Portugal, Espanha e Grécia, o calor extremo do verão exige vigilance acrescida, especialmente entre idosos e trabalhadores expostos ao sol.
As zonas urbanas apresentam desafios específicos. A falta de fontanários públicos em muitas cidades europeias dificulta o acesso a água potável durante deslocações. Bruxelas, por exemplo, reduziu o número de pontos de água públicos nos últimos dez anos, uma tendência que as organizações de saúde querem inverter.
O que muda na prática
A nova orientação recomenda que empresas e instituições públicas garantam acesso fácil a água potável. Escolas, hospitais e locais de trabalho devem disponibilizar água gratuitamente, segundo as novas normas. Os restaurantes passam a ter a obrigação de servir um copo de água a qualquer cliente que o solicite, sem custos adicionais.
Estas medidas integram uma estratégia mais ampla para prevenir doenças relacionadas com a desidratação, que incluem dores de cabeça, fadiga, infeções urinárias e, nos casos mais graves, problemas renais. O custo estimado destas patologias para os sistemas de saúde europeus ultrapassa os 2 mil milhões de euros anuais, indicam os dados do relatório.
Perspetivas divididas entre organizações de saúde
Algumas organizações de consumidores aplaudiram as novas recomendações, mas criticaram a falta de mecanismos de fiscalização. A Federação Europeia de Consumidores considerou que as orientações são válidas, mas que sem consequências para quem não as cumprir, permanecerão letra morta. Em sentido contrário, a Associação Europeia de Bebidas argumentou que o documento penaliza injustamente o setor, afirmando que as bebidas não alcoólicas também contribuem para a hidratação.
O médico José Fernandes, especialista em medicina interna no Hospital de São João no Porto, afirmou em declarações à comunicação social que as novas recomendações são bem-vindas, mas que a formação dos profissionais de saúde deve acompanhar estas mudanças. "Muitos médicos ainda subestimam a importância de perguntar aos pacientes sobre o consumo de água", disse.
O que esperar nos próximos meses
Os estados-membros têm um prazo de 18 meses para adaptar as suas legislações nacionais às novas orientações europeias. Portugal já anunciou que vai acelerar o processo, com um projeto de lei a ser apresentado no parlamento até ao final do ano. A implementação inclui a instalação de mais fontanários públicos em Lisboa, Porto e Faro, com um investimento previsto de 5 milhões de euros.
As autoridades de saúde recomendam que cada pessoa monitore a cor da urina como indicador simples de hidratação adequada. Tons claros indicam boa hidratação; tons escuros sugerem necessidade de aumentar o consumo de água. Esta dica prática, incluída no novo guia, pretende facilitar a aplicação das recomendações no dia a dia.
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