Bruxelas anunciou esta semana uma estratégia que pretende distinguir-se tanto da alinhação automática com Washington como da aproximação a Pequim. O alto representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell, detalhou a posição europeia num discurso em Madrid, sublinhando que a União Europeia não pretende subscrever nenhuma das duas narrativas dominantes que dividem o panorama geopolítico global.
O Contexto da Terceira Via
A estratégia foi apresentada num momento de intensificação dos contactos diplomáticos entre a Europa e os Estados Unidos, frequentemente descrita pelos media como uma espécie de «festa de amor» transatlântica. Apesar desta aproximação com Washington, Borrell afirmou que Bruxelas mantém a sua autonomia estratégica. «A Europa precisa de pensar por si mesma», declarou o responsável europeu, cuja intervenção decorreu no Instituto Complutense de Madrid.
Esta posição surge quando as tensões comerciais entre Washington e Pequim continuam a escalar, criando pressão sobre os aliados europeus para que optem por um dos lados. A UE argumenta que manter relações sólidas com ambas as potências serve melhor os seus interesses económicos e de segurança.
A Visita de Blinken a Bruxelas
O Secretary of State norte-americano, Antony Blinken, esteve em Bruxelas no mês passado para participar num fórum conjunto UE-EUA. Os encontros focaram-se em questões comerciais, tecnologia e segurança. Washington tem pressionado os europeus a adotarem posições mais firmes em relação a Pequim, especialmente no que toca a tecnologia e investimentos.
Contudo, as autoridades europeias têm resistido a esta pressão. Um porta-voz da Comissão Europeia confirmou que a UE mantém o seu direito de cooperar com a China quando tal sirva os interesses europeus. «Não aceitamos ultimatos de nenhum parceiro», afirmou o responsável comunitário em declarações aos jornalistas.
A Dimensão Comercial
O comércio entre a UE e a China atingiu valores significativos na última década. Bruxelas exporta principalmente machinery, veículos e produtos químicos para o mercado chinês, enquanto importa eletrónicos, têxteis e componentes industriais. Esta relação comercial complexa torna qualquer alinhamento automático com Washington economicamente arriscado para vários setores europeus.
Ao mesmo tempo, os investimentos chineses em infraestruturas europeias — particularmente no Sul e Leste da Europa — têm preocupado Washington. O Departamento de Estado norte-americano alertou repetidamente para os riscos de segurança associados a estas transações.
Os Desafios da Independência Estratégica
A estratégia da terceira via enfrenta ceticismo de ambos os lados do Atlântico. Analistas em Washington questionam se a Europa pode manter-se genuinamente neutra num contexto de rivalidade crescente entre superpotências. Por outro lado, Pequim observa com interesse a recusa europeia em aderir à pressão norte-americana.
Um estudo do European Council on Foreign Relations publicado no ano passado indicou que mais de 60% dos europeus preferem que a UE mantenha distância em relação ao confronto sino-norte-americano. Esta visão reflete-se na política oficial de Bruxelas.
Implicações para Portugal
Para Portugal, a posição europeia tem consequências diretas. As empresas portuguesas que exportam tanto para os EUA como para a China beneficiam de uma Europa que não se alinha completamente com nenhum dos mercados. O setor do vinho, do calçado e da cortiça — setores onde Portugal mantém presença forte em ambos os mercados — seria particularmente afetado por uma escolha forçada.
Bruxelas anunciou que apresentará um documento formal sobre a sua abordagem estratégica até ao final do primeiro semestre. O texto deverá detalhhar como a UE planeia navegar entre as duas superpotências nos próximos anos.
O Que Vem a Seguir
Os próximos meses serão decisivos para esta estratégia. Uma cimeira UE-China está prevista para a primavera, onde representantes europeus encontrarão counterparts chineses em Pequim. Antes disso, Blinken deverá regressar a Bruxelas para novas negociações sobre comércio e tecnologia.
A Comissão Europeia prepara-se também para apresentar novas regras sobre investimentos externos em setores estratégicos. Estas medidas sollen ser debatidas no Parlamento Europeu durante o verão, antes de uma votação final prevista para o outono.
O que fica por definir é como a UE responderá caso Washington ou Pequim exijam escolhas mais concretas. A autonomia estratégica só será testada quando uma das superpotências deixar de aceitar a neutralidade europeia como resposta válida.


