Os líderes europeus aprovaram em Bruxelas uma estratégia que evita o alinhamento automático com qualquer uma das superpotências. A decisão surge dias depois de uma visita do Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken à capital belga, onde Washington procurou aprofundar a cooperação transatlântica. A UE optou, contudo, por manter canais abertos com Pequim, recusando-se a seguir o roteiro proposto pela administração norte-americana.

O que mudou em Bruxelas

A União Europeia anunciou formalmente a intenção de construir o que os seus diplomatas designam como uma "terceira via" nas relações internacionais. O plano, aprovado pelo Conselho Europeu, prevê maior autonomia estratégica em áreas como tecnologia, comércio e defesa. Bruxelas pretende reduzir a dependência tanto de Washington como de Pequim em setores críticos, desde semicondutores até fontes de energia.

Bruxelas Define Terceira Via Entre EUA e China — E Agora? — Agricultura
Agricultura · Bruxelas Define Terceira Via Entre EUA e China — E Agora?

O documento de 47 páginas aprovado na semana passada estabelece metas concretas para 2027. Entre elas, a criação de um fundo de 12 mil milhões de euros para investigação em inteligência artificial e computação quântica. O objetivo declarado é alcançar 20% de produção doméstica em tecnologias estratégicas até ao final da década.

A visita de Blinken a Bruxelas

Antony Blinken esteve em Bruxelas no início do mês para reunir-se com responsáveis europeus. Durante dois dias de reuniões, o chefe da diplomacia norte-americana pressionou os aliados a adotarem posições mais assertivas contra a China. Os norte-americanos propuseram um pacote de cooperação em tecnologia que incluía restrições conjuntas à exportação de chips avançados.

As conversas decorreram no edifício do Conselho Europeu, no coração do bairro europeu da capital belga. Fontes presentes nas reuniões indicaram que os europeus ouviram as propostas, mas não deram respostas definitivas. Um diplomata da UE confirmou que houve "troca de pontos de vista aprofundada", sem confirmar os detalhes específicos das propostas norte-americanas.

As exigências norte-americanas

Washington gostaria que a UE se juntasse a um embargo mais amplo a tecnologias chinesas, especialmente na área das telecomunicações 5G. Os norte-americanos argumentam que a participação da empresa Huawei em redes europeias representa um risco de segurança. Além disso, Blinken terá apresentado dados sobre alegadas transferências tecnológicas forçadas por empresas chinesas.

As exigências incluíam também uma posição comum nas organizações internacionais sobre questões de propriedade intelectual. Os norte-americanos querem que a UE vote sistematicamente ao lado de Washington em disputas comerciais na Organização Mundial do Comércio.

Por que a UE recusa alinhar-se

A resposta europeia não foi um não categórico. Bruxelas concordou em estudar algumas das propostas norte-americanas, especialmente no que toca a controles de exportação. Contudo, os europeus fizeram questão de sublinhar que não pretendem tornar-se um instrumento da política externa norte-americana.

O Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, declarou que a Europa tem "interesses próprios" que nem sempre coincidem com os de Washington. Borrell lembrou que a UE é o maior parceiro comercial da China, com trocas que ultrapassam os 850 mil milhões de euros anuais. Qualquer ruptura abrupta teria consequências económicas graves para empresas europeias.

Berlim, Paris e Roma expressaram reservas semelhantes em comunicado conjunto. Os três governos sublinharam a importância de manter um diálogo construtivo com Pequim, especialmente em questões climáticas e desenvolvimento sustentável. A Alemanha, em particular, tem interesses significativos na indústria automóvel chinesa.

Os pontos de rutura com Pequim

A UE não ignora as tensões com a China. Nos últimos anos, Bruxelas impôs sanções a entidades chineseas envolvidas em violações de direitos humanos. Investigações sobre práticas comerciais desleais resultaram em tarifas sobre produtos solares e elétricos chineses. A Comissão Europeia abriu também processos sobre subsídios estatais a fabricantes de veículos elétricos.

Contudo, os europeus distinguem entre concorrência económica e confronto geopolítico. O Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou que a UE pretende "competir de forma justa" com a China, sem contudo fechar portas ao diálogo. Michel alertou que uma nova Guerra Fria não serviria os interesses europeus.

Implicações para Portugal

Para Portugal, a terceira via europeia tem consequências diretas. As empresas portuguesas exportam para a China produtos que vão desde cortiça até equipamentos industriais. Qualquer escalada de tensões poderia afetar sectores económicos nacionais. Por outro lado, a aposta europeia em autonomia tecnológica pode abrir oportunidades para empresas portuguesas na fileira das energias renováveis.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa manifestou apoio à estratégia europeia. Uma nota oficial refere que Portugal "valoriza uma relação transatlântica forte", mas também defende que a UE deve "preservar os seus instrumentos de política externa autónomos". O comunicado não menciona explicitamente a China.

O que vem a seguir

As próximas semanas serão decisivas para definir os contornos da terceira via europeia. Em maio, a Comissão Europeia apresentará uma proposta de regulamento sobre investimentos externos em setores estratégicos. O texto poderá restringir investimentos chineses em tecnologias críticas na UE, mas incluirá exemptions para parcerias bilaterais.

Washington continuará a pressionar. Blinken deverá regressar a Bruxelas no verão para uma nova ronda de negociações. Os europeus prometem manter as suas posições, mas mostram-se abertos a encontrar terreno comum em questões específicas. A verdadeira prova será nas votações em organizações internacionais, onde os interesses europeus e norte-americanos nem sempre coincidem.

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Opinião Editorial

Os três governos sublinharam a importância de manter um diálogo construtivo com Pequim, especialmente em questões climáticas e desenvolvimento sustentável. A Alemanha, em particular, tem interesses significativos na indústria automóvel chinesa.

— minhodiario.com Equipa Editorial
Carlos Pereira
Autor
Carlos Pereira é jornalista agrícola e rural, cobrindo a agricultura do Minho e do Norte de Portugal, as políticas da PAC, o sector vitivinícola e os desafios das explorações agrícolas familiares perante as alterações climáticas.

Carlos tem larga experiência em reportagem de terreno, visitando quintas, adegas e cooperativas agrícolas em todo o Entre-Douro-e-Minho. É licenciado em Agronomia pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo.