Três das maiores fabricantes solares da China relataram prejuízos combinados superiores a mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2024, vítimas de uma crise de sobreprodução que desencadeou uma guerra de preços sem precedentes no setor. A Longi Green Energy, a Trina Solar e a Jinko Solar viram as suas margens colapsarem enquanto inundavam o mercado global com painéis a custos cada vez mais baixos, segundo dados financeiros revelados esta semana.
Os números da crise
A Longi Green Energy, a maior fabricante de painéis solares do mundo, anunciou prejuízos de 3,9 mil milhões de yuan (cerca de 540 milhões de dólares) entre janeiro e junho. A Trina Solar reportou perdas de 1,8 mil milhões de yuan, enquanto a Jinko Solar fechou o semestre com números igualmente preocupantes. As três empresas combinadas queimaram mais de mil milhões de dólares em seis meses, uma situação que os analistas consideram insustentável a médio prazo.
A sobrecapacidade no setor atingiu níveis recordes. A capacidade instalada de produção de painéis solares na China ultrapassa agora os 1.000 gigawatts por ano, mas a procura global situou-se em cerca de 500 gigawatts em 2023. Esta discrepância gigantesca forçou as empresas a baixar preços de forma agressiva para manter as fábricas a funcionar.
A estratégia que saiu furada
Durante anos, as empresas solares chinesas apostaram na expansão acelerada da capacidade como forma de alcançar economias de escala. Governos locais em provinces como Jiangsu, Zhejiang e Xinjiang disponibilizaram subsídios e terrenos a custos mínimos para atraer investimentos. O resultado foi uma corrida frenética à construção de fábricas que agora se revelou contraproducente.
O preço médio de um painel solar de 550 watts caiu de 0,25 dólares por watt em 2022 para menos de 0,10 dólares por watt atualmente. Esta redução de 60% em dois anos esmagou as margens de lucro de todas as empresas do setor, incluindo as mais eficientes. A produção de painéis solares tornou-se essencialmente uma commodity com margens negativas para muitos fabricantes.
O impacto nos trabalhadores
A degradação financeira das empresas solares chinesas já começou a ter consequências no terreno. A mídia local reportou que várias fábricas na cidade de Hefei e na região do Xinjiang reduziram horários de trabalho ou colocaram funcionários em licença não remunerada. Algumas empresas menores já anunciaram planos de lay-off, embora as gigantes mantenham ainda os efetivos completos à custa dos prejuízos.
A guerra de preços e o mercado global
A estratégia de preço baixo não serviu apenas para limpar stocks. As fabricantes chinesas tentaram estrategicamente dominar mercados internacionais, exportando painéis a preços tão reduzidos que seria impossível replicar a produção fora da China. Esta tática provocou atritos comerciais com a União Europeia e os Estados Unidos, quelauncharam investigações por subsídios unfairly.
A Comissão Europeia abriu uma investigação aos painéis solares chineses em 2023, concluindo que os fabricantes beneficiaram de subsídios estatais ilegais. Os Estados Unidos impuseram tarifas de mais de 100% sobre painéis solares chineses, numa tentativa de proteger a indústria doméstica. Estas medidas limitaram as exportações, mas não resolveram o problema central de sobrecapacidade na China.
Por que a China não freia a produção
Apesar dos prejuízos avultados, as empresas chinesas continuam a expandir capacidade. A lógica por detrás desta aparente irracionalidade prende-se com vários fatores. Primeiro, as fábricas já construídas representam investimentosbilionários que precisam de ser amortizados. Encerrar uma fábrica significaria admitir perdas totais.
Segundo, o governo chinês considera o setor solar uma prioridade estratégica nacional. As metas climáticas do país dependem de capacidade de produção massiva, e Pequim quer manter a liderança tecnológica global. third, many local governments have stakes in these companies and pressure them to maintain employment even at a loss. A pressão política para manter empregos supera, neste momento, a lógica económica pura.
O que isto significa para Portugal
Para Portugal, a crise solar chinesa tem implicações contraditórias. Por um lado, painéis mais baratos aceleram a transição energética do país. O custo de projetos fotovoltaicos em Portugal caiu drasticamente graças à concorrência chinesa, tornando a energia solar uma das fontes mais baratas do mix elétrico nacional.
Por outro lado, a dependência de tecnologia chinesa cria vulnerabilidades. A União Europeia está a pressionar por uma maior diversificação de fornecedores, e Bruxelas anunciou metas para reduzir a dependência solar da China para 40% até 2030. Portugal, que importa a maioria dos painéis solares de empresas chinesas, terá de adaptar-se a esta transição.
O que vem a seguir
O setor solar chinês aproxima-se de um ponto de rutura. Analistas do Goldman Sachs estimam que pelo menos um terço das capacidades de produção na China terá de encerrar ou converter-se nos próximos dois anos para restabelecer equilíbrio no mercado. O governo de Pequim terá de decidir se intervém para estabilizar o setor ou se deixa a lei da oferta e da procura eliminar os produtores menos eficientes.
Os próximos meses serão decisivos.several grandes bancos chineses já começaram a restringir crédito para novas fábricas solares, sinalizando uma potencial contração do setor. A questão central é se a consolidação vai acontecer de forma ordenada ou através de falências em cadeia. Para Portugal e para a Europa, o desfecho desta crise determinará durante anos o custo e a velocidade da transição energética.
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Encerrar uma fábrica significaria admitir perdas totais.Segundo, o governo chinês considera o setor solar uma prioridade estratégica nacional. A pressão política para manter empregos supera, neste momento, a lógica económica pura.O que isto significa para PortugalPara Portugal, a crise solar chinesa tem implicações contraditórias.


