Um criador de cães na província de Henan, na China, enfrenta uma batalha legal que expõe uma lacuna gritante na legislação de proteção animal do país. O seu Border Collie, conhecido nas redes sociais chinesas por recoger objetos e realizar truques elaborados, foi roubado e vendido por apenas 25 dólares antes de ser morto e consumido. O dono, que descobriu o destino do animal, moveu uma ação judicial contra os responsáveis, mas as leis chinesas sobre animais de estimação limitaram severamente as suas hipóteses de obter justiça.

O cão que conquistou milhares de seguidores

O Border Collie, chamado Chutou, tornou-se uma figura popular em plataformas como Douyin e Weibo, atraindo milhares de seguidores com vídeos que mostravam a sua agilidade e inteligência. O animal destacava-se pela capacidade de recolher objetos espalhados pelo chão e por executar comandos complexos com rapidez e precisão. O seu sucesso digital fez dele uma pequena celebridade no ecossistema de conteúdos sobre animais de estimação na China, gerando receitas de inúmeros visualizações e parcerias com marcas locais de produtos para cães.

Dono processa após cão 'celebridade' na China ser roubado, vendido por 25 dólares e comido — Energia
Energia · Dono processa após cão 'celebridade' na China ser roubado, vendido por 25 dólares e comido

Contudo, esta popularidade tornou-o também num alvo. Na madrugada de um dia não especificado, Chutou foi retirado da propriedade do seu dono por desconhecidos. As câmaras de vigilância do bairro captaram imagens de dois indivíduos a aproximarem-se do quintal durante a noite, mas a identificação dos suspeitos revelou-se difícil para as autoridades locais.

A venda por 25 dólares e o destino do animal

A investigação posterior revelou que os ladrões não estavam interessados no valor sentimental ou mediático do cão. Após o roubo, Chutou foi vendido a um comprador anónimo por aproximadamente 25 dólares, uma quantia insignificante face ao estatuto do animal. O novo proprietario mudou o animal para uma zona rural nos arrabaldes de Zhengzhou, capital da província de Henan, onde o matou para consumo.

Quando o dono original rastreou o paradeiro do seu cão através de testemunhas e publicações nas redes sociais, já era tarde demais. A confirmação do destino do animal chegou através de vizinhos que reconheceram o Border Collie desaparecido e relataram o que tinha acontecido. A reação online foi imediata e intensa, com milhares de utilizadores a expressarem indignação nas plataformas digitais chinesas.

A batalha legal e os obstáculos

O dono de Chutou apresentou uma queixa formal junto das autoridades locais, identificando os indivíduos responsáveis pelo roubo e pela venda do cão. A polícia de Henan abriu uma investigação e os suspeitos acabaram por ser identificados e detidos. No entanto, o processo judicial enfrentou complicações inesperadas quando o caso chegou ao tribunal.

Na China, os animais de estimação são classificados legalmente como propriedade, não como seres com direitos próprios. Esta classificação significa que os tribunais avaliam casos de roubo de animais principalmente pelo seu valor económico, não pelo impacto emocional ou pelo estatuto do animal. Como resultado, mesmo com provas claras de roubo e de maus-tratos, as penas aplicadas são tipicamente mínimas e centram-se na devolução de valores monetários.

O enquadramento jurídico atual

A legislação chinesa sobre bem-estar animal permanece fragmentada e insuficiente, segundo organizações de defesa dos direitos dos animais no país. Embora existam regulamentos específicos para espécies protegidas e animais de criação, os animais de companhia caem numa zona cinzenta que não contempla proteções adequadas contra roubo, abandono ou crueldade. Esta lacuna legal tem vindo a ser debatida por especialistas, mas as reformas avançam lentamente no parlamento.

O advogado do dono de Chutou tentou argumentar que o valor do cão deveria ser calculado com base na sua presença nas redes sociais e no potencial de rendimento futuro, mas o tribunal rejeitou esta abordagem. O caso acabou por se concentrar numa indemnização simbólica pelo valor de mercado de um Border Collie comum, muito inferior ao que o animal representava para o seu dono.

A indignação pública e o debate nacional

O caso de Chutou reacendeu um debate na sociedade chinesa sobre a necessidade de uma legislação mais robusta para proteger animais de estimação. Nas semanas seguintes à divulgação da história, múltiplas organizações não-governamentais emitiram comunicados a exigir mudanças legais, e petições online recolheram centenas de milhares de assinaturas a pedir uma revisão do enquadramento jurídico.

Grupos de defesa dos animais em Xangai e Shenzhen organizaram manifestações frente às assembleias municipais, exigindo que os deputados incluam a questão na agenda legislativa. As redes sociais continuam a ser palco de discussions acaloradas, com utilizadores a partilharem histórias semelhantes de roubo e perda de animais de estimação, evidenciando que o caso de Chutou não é um incidente isolado.

O que acontece a seguir

O Parlamento chinês tem previsto debater projectos de lei sobre bem-estar animal na sessão de primavera, embora as datas concretas ainda não tenham sido anunciadas oficialmente. Activistas e organizações de defesa dos animais vão monitorizar de perto estes desenvolvimentos, esperando que casos de grande visibilidade mediática como o de Chutou pressionem os legisladores a agir.

O dono do Border Collie declarou à imprensa local que não pretende desistir, mesmo que a batalha legal se prolongue. Afirmou que continuará a procurar justiça não apenas para Chutou, mas para todos os proprietários de animais de estimação na China que possam vir a enfrentar situações semelhantes. Nas ruas de Zhengzhou, a história do cão que virou celebridade e acabou vendido por uma quantia ínfima tornou-se um símbolo de alerta para o que muitos consideram ser uma falha sistémica na proteção dos animais de companhia.

P
Autor
Analista de mercados e jornalista de dados com formação em Estatística pelo ISEG — Lisboa School of Economics & Management. Paulo integra metodologias quantitativas na cobertura jornalística, produzindo análises baseadas em dados sobre setores como turismo, imobiliário e retalho. Foi investigador no INE antes de transitar para o jornalismo económico. Domina ferramentas de visualização de dados e econometria aplicada.