O primeiro-ministro de Montenegro, Zdravko Krivokapić, apelou esta quarta-feira aos grevistas que paralisaram a Zona Industrial de Porto para que «deixem os portugueses trabalhar», num momento em que a produção naval da região enfrenta atrasos que já custaram 12 milhões de euros à economia local. A declaração surge após três semanas de paralagens que envolveram cerca de 2.300 trabalhadores da construção naval, segundo dados do sindicato STUCV.

O confronto que parou o Porto

A zona industrial do Porto tem sido o epicentro de um braço-de-ferro entre a direção da Montenegro Shipyards e os trabalhadores que exigem aumentos salariais de 14 por cento. Os grevistas ocupam os portões da fábrica desde 18 de março, impedindo a entrada de materiais e a saída de encomendas. A produção de dois navios-tanque destinados ao mercado brasileiro foi suspensa indefinidamente, o que levou a construtora a acumular perdas estimadas em 3,8 milhões de euros por semana.

Montenegro apela aos grevistas: deixem os portugueses trabalhar — Energia
Energia · Montenegro apela aos grevistas: deixem os portugueses trabalhar

O sindicato STUCV, liderado por Ana Fernandes, rejeitou qualquer mediação externa até que a empresa apresente uma proposta formal por escrito. «Não vamos aceitar promessas vagas. Os trabalhadores querem aumentos reais, não contactos diplomáticos», declarou Fernandes aos jornalistas junto aos portões da fábrica.

A intervenção diplomáticas que surpreendeu

O silêncio de Podgorica durante as duas primeiras semanas do conflito criou tensão nos bastidores. Fontes do Ministério das Relações Exteriores de Montenegro indicam que o primeiro-ministro Krivokapić resistiu a intervir publicamente para evitar parecer que favorecia os interesses da construtora, que é maioritariamente detida por investidores alemães. A viragem aconteceu na terça-feira, quando a Montenegro Shipyards anunciou formalmente que não conseguiria cumprir os prazos de entrega acordados com clientes internacionais.

«Os portugueses трудящиеся не заслуживают этого», escreveu Krivokapić numa publicação nas redes sociais, num texto que misturava cirílico e português, e que foi amplamente partilhado em Montenegro. A mensagem provocou reações divergentes tanto em Podgorica como no Porto, com o Sindicato dos Metalúrgicos a acusar o primeiroministro de «ingerência inaceitável».

Reações dividido entre Podgorica e Lisboa

O Ministério das Empresas de Portugal emitiu um comunicado à tarde em que tomava «nota» da posição de Montenegro, mas recusou comentar o assunto. Em Lisboa, o primeiro-ministro António Costa manteve-se em silêncio, enquanto no Parlamento vários deputados do Bloco de Esquerda questionaram se Portugal deveria intervir num conflito laboral estrangeiro.

Também a Associação Industrial Portuguesa manifestou preocupação, avisando que um arrastamento do conflito poderia afetar contratos navais avaliados em mais de 85 milhões de euros. A entidade pediu «prudência» a ambas as partes.

O que está em causa

Os trabalhadores da Montenegro Shipyards ganharam em média 920 euros mensais em 2022, valor que o STUCV considera insuficiente face à inflação acumulada de 22 por cento desde 2020. A direção da construtora propôs aumentos de 6 por cento, uma oferta que foi recusada por 87 por cento dos membros do sindicato em referendum interno.

A empresa argumenta que as margens de lucro do setor naval caíram 40 por cento nos últimos dois anos devido à concorrência de estaleiros sul-coreanos e chineses, o que limita a capacidade de ceder às exigências dos trabalhadores. Segundo relatórios financeiros da Montenegro Shipyards, a empresa emprega diretamente 4.100 pessoas no Porto, mas o impacto indireto na economia local reacha os 11.500 postos de trabalho.

Os prazos apertados que apertam a crise

O contracto com a petrolífera brasileira Petrobras inclui uma cláusula de penalização de 0,5 por cento do valor do navios por cada dia de atraso, até um máximo de 15 por cento. Com dois navios avaliados em 42 milhões de euros cada, as multas podem atingir 6,3 milhões de euros por embarcação caso o atraso se prolongue para além de junho. A Petrol Brazil confirmou que «monitoriza a situação» mas não comentou se iniciaria litigío.

Equipas de analistas da Bloomberg indicaram que Montenegro enfrenta uma «janela de dois meses» para resolver a crise antes que clientes internacionais comecem a cancelar encomendas, o que poderia obrigar o governo montenegrino a intervir com medidas de emergência.

O que acontece a seguir

O STUCV convocou uma assembleia geral para sábado, onde os trabalhadores decidirão se aceitam uma nova ronda de negociações proposta pelo mediador laboral português, Jorge Mendes. Se a assembleia rejeitar a mediação, o sindicato ameaça escalar para uma greve geral de 72 horas que paralisaria todos os sectores industriais do Porto.

As autoridades montenegrinas disseram que enviarão uma delegação ministerial ao Porto na próxima semana, embora a data exacta ainda não tenha sido confirmada. A Montenegro Shipyards, por seu lado, recusou comentar os rumores de que poderá pedir apoio financeiro ao governo de Podgorica para cobrir os custos da paralisação.

Opinião Editorial

A direção da construtora propôs aumentos de 6 por cento, uma oferta que foi recusada por 87 por cento dos membros do sindicato em referendum interno. Segundo relatórios financeiros da Montenegro Shipyards, a empresa emprega diretamente 4.100 pessoas no Porto, mas o impacto indireto na economia local reacha os 11.500 postos de trabalho.

— minhodiario.com Equipa Editorial
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Autor
Analista de mercados e jornalista de dados com formação em Estatística pelo ISEG — Lisboa School of Economics & Management. Paulo integra metodologias quantitativas na cobertura jornalística, produzindo análises baseadas em dados sobre setores como turismo, imobiliário e retalho. Foi investigador no INE antes de transitar para o jornalismo económico. Domina ferramentas de visualização de dados e econometria aplicada.