A temporada de furacões de 2024 no Atlântico foi das mais activas em décadas. O furacão Milton atingiu a Florida com ventos de 285 quilómetros por hora, causando mais de 16 mil milhões de dólares em prejuízos. Cientistas do Instituto de Oceanografia da NOAA confirmaram esta semana o que muitos investigadores já suspeitavam: o aquecimento dos oceanos está a tornar estes fenómenos significativamente mais intensos.
A física por detrás da formação
Os furacões nascem em águas tropicais quando a temperatura da superfície ultrapassa os 26 graus Celsius. O processo começa quando a evaporação intensa cria áreas de baixa pressão. O ar quente e húmido sobe rapidamente, arrefecendo à medida que ganha altitude e formando nuvens de tempestade.
O movimento de rotação da Terra influencia o padrão em espiral característico. A energia provém do contraste térmico entre a superfície do mar e as camadas superiores da atmosfera. Quando a água está mais quente, a evaporação acelera e mais energia fica disponível para alimentar o sistema.
Os meteorologistas distinguem três fases: depressões tropicais com ventos até 62 quilómetros por hora, tempestades tropicais que podem ultrapassar os 118 quilómetros por hora, e furacões classificados na escala de Saffir-Simpson de 1 a 5. Os tufões do Pacífico são a mesma fenómeno, apenas com outro nome.
O papel do aquecimento dos oceanos
Desde 1980, a temperatura média da superfície dos oceanos subiu aproximadamente 0,9 graus Celsius. Este dado, recolhido por boias oceanográficas espalhadas pelo globo, permite aos cientistas traçar uma correlação directa com a intensificação dos fenómenos.
O investigador Kerry Emanuel, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts, publicou em 2024 um estudo que demonstra um aumento de 15% na intensidade máxima dos furacões nas últimas quatro décadas. "Cada grau adicional de temperatura do mar liberta mais energia para a tempestade", explicou Emanuel num comunicado da instituição.
A formação de furacões exige condições muito específicas. Quando a água aquecida se estende a profundidades maiores, o oceano funciona como um reservatório térmico que alimenta a tempestade mesmo quando esta se desloca. Anteriormente, a água mais fria nas camadas inferiores limitava a intensidade alcançável.
Evidências recentes dos oceans
Os dados do satélite Jason-3, gerido conjuntamente pela NASA e pela agência europeia ESA, mostram que o Pacífico ocidental aqueceram quase dois graus em algumas regiões desde 2015. Os tufões que atingiriam as Filipinas e o Japão beneficiaram dessa energia adicional.
Em Setembro de 2024, o tufão Gaemi deixou mais de 100 mortos nas Filipinas apesar de ter sido classificado como tempestade tropical. A razão: as chuvas extremo intensificaram-se por causa da temperatura superficial anómala do Mar do Sul da China.
Ciclogénese e mudança climática
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU publicou em 2023 uma avaliação clara. Os modelos climáticos projectam que os furacões futuros trarão mais chuva e ventos mais intensos, embora o número total de tempestades possa não aumentar de forma significativa.
O IPCC destacou que tempestades como o furacão Katrina, que atingiu Nova Orleães em 2005, representam um novo padrão. A precipitação associada aumentou aproximadamente 10% por cada grau de aquecimento. Para os especialistas, a mensagem é inequívoca: os sistemas que já existiam estão a ficar mais poderosos.
A Organização Meteorológica Mundial acompanha estas mudanças através do seu programa de vigilância de ciclones tropicais. Dados de 2023 indicam que sete das dez tempestades mais intensas registadas occurred occurred after 2015, o que reforça a tendência apontada pelos modelos.
Impacto nas comunidades costeiras
As ilhas do Pacífico enfrentam ameaças existenciais. Tuvalu, Kiribati e os Estados Federados da Micronésia não possuem recursos para reconstruir após cada passagem de um super tufão. O Banco Mundial estimou que os prejuízos anuais causados por fenómenos meteorológicos extremos podem atingir os 400 mil milhões de dólares até 2030.
Na Florida, os seguros contra furacões tornaram-se inacessíveis para muitos proprietários. A seguradora Farmers deixou o mercado estatal em 2024, seguindo outras que já haviam abandonado. A exposição financeira disparou à medida que mais famílias vivem em zonas costeiras vulneráveis.
Os governos locais reagem com medidas de adaptação. Miami investiu 500 milhões de dólares em infra-estruturas de protecção contra tempestades desde 2020. Nova Orleães concluíu um sistema de comportas que custou mais de 14 mil milhões de dólares e levou duas décadas a construir.
O debate científico sobre a frequência
Uma争论 persists sobre se aquecimento causa mais furacões ou apenas mais fortes. Alguns investigadores argumentam que mudanças na circulação atmosférica podem reduzir o número de tempestades mesmo quando estas são mais intensas.
James Elsner, da Universidade do Estado da Florida, estudou registos de furacões desde 1850. Os seus dados mostram um aumento de 0,4 furacões por década na bacia atlântica. "A intensidade está claramente a subir", disse Elsner. "Isso é factual. A causa provável é a temperatura da água."
O fenómeno El Niño añade complexidade. Este padrão atmosférico oceânico altera a temperatura da superfície em ciclos de dois a sete anos. Em 2023, um El Niño forte coincidiu com águas recordes no Atlântico, resultando em tempestades excepcionalmente poderosas durante a temporada.
O que vem a seguir
Os modelos climáticos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo preveem águas mais quentes até 2050, mesmo sob cenários de redução de emissões. Para os cientistas, a questão central já não é se os furacões ficarão mais fortes, mas quão rapidamente as comunidades podem adaptar-se.
A próxima reunião do Fundo Verde para o Clima acontece em Fevereiro de 2025 no Qatar. Os países insulares提交的propostas incluem sistemas de alerta precoce e infra-estruturas resistentes. O financiamento disponível está ainda longe do necessário.
As famílias nas zonas costeiras precisam de planos de evacuação actualizados e seguro adequado. Os engenheiros desenvolvem edifícios capazes de resistir a ventos de 320 quilómetros por hora. Estas soluções existem, mas exigem investimento consistente e vontade política que, até agora, não se materializou na escala necessária.
Impacto nas comunidades costeiras As ilhas do Pacífico enfrentam ameaças existenciais. Para os especialistas, a mensagem é inequívoca: os sistemas que já existiam estão a ficar mais poderosos.


