O Ministério da Inovação de Portugal anunciou novas diretrizes para a adoção segura de tecnologias de inteligência artificial generativa (GenAI), em resposta ao crescimento acelerado do uso dessas ferramentas em setores públicos e privados. As regras, publicadas no dia 10 de outubro, visam garantir a proteção de dados, transparência e conformidade com a legislação europeia de proteção de dados. O anúncio ocorre em um momento em que o uso de modelos de linguagem como o GPT-4 e o Claude está se tornando mais comum no país.

Novas Diretrizes e Regras de Segurança

As diretrizes, desenvolvidas em colaboração com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), exigem que todas as organizações que utilizem GenAI implementem políticas claras de gestão de riscos. Entre as medidas, está a obrigação de realizar auditorias regulares e garantir que os modelos não difundam conteúdo ilegal ou discriminatório. A ANPD, que supervisiona o cumprimento das normas, alerta que as organizações que não seguirem as regras poderão enfrentar multas significativas.

Portugal Adota Regras Mais Rígidas para Uso de GenAI — Empresas
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O ministro da Inovação, Paulo Teixeira, destacou que as novas diretrizes são uma resposta às preocupações crescentes sobre a segurança e a ética no uso de IA. "A tecnologia tem potencial para transformar setores como saúde, educação e finanças, mas só pode ser aproveitada com responsabilidade", afirmou em coletiva de imprensa. O ministro também mencionou que a iniciativa é parte de um plano mais amplo para posicionar Portugal como um hub de inovação responsável na Europa.

Impacto nos Setores Privados e Públicos

O setor público, em particular, está sendo um dos primeiros a adotar as novas diretrizes. O Ministério da Saúde, por exemplo, já está testando modelos de IA generativa para melhorar a comunicação com pacientes e otimizar processos administrativos. O diretor do Departamento de Tecnologia da Saúde, João Almeida, explicou que as ferramentas estão sendo usadas para gerar resumos de prontuários médicos e responder a perguntas comuns sobre tratamentos. "A segurança dos dados é a prioridade absoluta", afirmou.

No setor privado, empresas como a Novo Banco e a Sonae estão revisando suas políticas internas para garantir conformidade com as novas regras. A Novo Banco, que já utiliza IA em sua análise de risco, anunciou que investirá 10 milhões de euros em ferramentas de auditoria de IA nos próximos dois anos. A empresa também está atraindo especialistas em ética digital para compor seu comitê de governança de IA.

Contexto e Relevância Europeia

As novas diretrizes de Portugal são parte de uma tendência mais ampla na União Europeia, onde a Comissão Europeia está trabalhando em uma legislação comum para a IA. O Regulamento da IA, que deve ser aprovado em 2024, estabelece categorias de risco para diferentes aplicações de IA, incluindo as generativas. Portugal, como um dos primeiros países a adotar regras nacionais, está se alinhando com os padrões europeus, mas também buscando inovar com diretrizes mais rigorosas.

O professor de direito digital da Universidade de Lisboa, Ana Moreira, destacou que o enfoque em segurança e transparência é crucial. "A IA generativa tem potencial para revolucionar a forma como trabalhamos, mas também traz riscos como manipulação de informações e viés algorítmico. O papel do Estado é garantir que essas tecnologias sejam usadas de forma ética e responsável", disse.

Desafios e Críticas

Apesar das medidas, alguns especialistas alertam sobre os desafios de implementação. A Associação de Tecnologia e Inovação de Portugal (ATIP) questiona se as regras são realistas para pequenas empresas. "Há um custo significativo para implementar sistemas de auditoria e monitoramento de IA", afirma o presidente da ATIP, Miguel Ferreira. "Precisamos de apoio financeiro e técnico para que todas as organizações possam seguir as diretrizes."

Outra crítica vem de grupos de direitos digitais, que temem que as regras possam limitar a inovação. "A regulamentação é necessária, mas deve ser equilibrada", diz a ativista digital Marta Silva. "Precisamos de um quadro que proteja os cidadãos, mas também permita que Portugal se mantenha competitivo no setor de tecnologia."

Próximos Passos

As novas diretrizes entram em vigor em 1 de janeiro de 2024, com um período de transição de três meses para que as organizações se ajustem. Durante esse tempo, o Ministério da Inovação oferecerá workshops e orientações para empresas e instituições. A ANPD também lançará um portal online com ferramentas de autoavaliação para ajudar as organizações a verificar se estão cumprindo as normas.

Para os cidadãos, o próximo passo é uma campanha de conscientização sobre o uso seguro de GenAI. O governo planeja lançar uma plataforma digital com dicas e recursos para ajudar o público a identificar conteúdos falsos e a utilizar as ferramentas de forma responsável. A iniciativa deve ser lançada no primeiro trimestre de 2024.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.