Venezuela: A Quinta Industrial Desmorona — O Que Resta do Sonho-manufacturing
Em Puerto Ordaz, no coração da região de Guayana, uma fábrica que durante décadas simbolizou a força industrial da Venezuela jaz quase abandonada. As linhas de montagem da Toyota, outrora capazes de produzir centenas de veículos por mês, encontram-se cobertas de poeira. Os tornos de precisão estão imobilizados. Os armazéns, vazios. O que era um pilar da manufacturing nacional transformou-se no rosto visível do colapso económico que continua a assolar o país.
O Fim de Uma Epopeia Industrial
A Toyota operou em Puerto Ordaz durante mais de trinta anos, montando veículos robustos como o Land Cruiser, modelo que se tornou ubiquitous nas cidades e zonas rurais venezuelanas. No seu pico, a fábrica empregava diretamente cerca de 2.500 trabalhadores e movimentava uma rede de fornecedores locais que sustentava outros 8.000 empregos. Em 2013, a produção anual ultrapassava as 12.000 unidades.
Hoje, a produtividade baixou para menos de 500 veículos por ano. Os fornecedores locais fecharam um a um. Os salários não acompanham a inflação, e muitos trabalhadores ganham o equivalente a 15 dólares mensais, quantia que não cobre as necessidades básicas de uma família durante uma semana.
Erosão Progressiva e Saída da Toyota
A decisão da Toyota de abandonar completamente as operações locais ocorreu em 2020, mas foi o culminar de anos de deterioração acelerada. A companhia japonesa não revelou os valores exactos das perdas acumuladas, embora fontes do sector automóvel em Caracas estimem que os prejuízos consolidados ultrapassaram os 180 milhões de dólares no período de 2014 a 2020. A conjunção de controlo cambial, impossibilidade de importar peças e hiperinflação tornou a operação insustentável.
Funcionários que trabalharam na fábrica durante dois decades descrevem uma transição gradual de orgulho industrial para desespero quotidiano. "Antes tínhamos turnos com metas claras, reinvestimento em equipamento, formação técnica", lembra Miguel Ángel Rodríguez, 54 anos, hoje vendedor ambulante junto a uma filial da Pdvsa em San Félix. "Agora? Sou eu a vender garrafas de água para sobreviver."
A Região de Guayana: Industrialização em Paralelo
A fábrica de Toyota não foi um caso isolado. A mesma zona industrial que albergava as produtoras de alumínio da estatal Alcasa e a gigante siderúrgica Sidor enfrentou uma contração brutal. A capacidade instalada na região baixou de aproximadamente 85% em 2013 para menos de 20% actualmente. A Sidor, que chegou a produzir 4,5 milhões de toneladas métricas anuais de aço, opera agora a um terço dessa capacidade.
A empresa estatalCvG, responsável pela gestão do complexo industrial de Guayana, não respondeu a pedidos de comentário enviados pela Reuters. Documentos internos a que a imprensa local teve acesso apontam para uma deterioração acelerada dos sistemas de refrigeração e electricidade nas instalações, situação agravada pela falta de investimentos em manutenção desde 2016.
Custos Humanos de Uma Economia em Colapso
Os números oficiais do INE, o instituto nacional de estatísticas, indicam que a taxa de desemprego no estado Bolívar ronda os 32%, mas economists locais consideram esta figura subestimada. O departamento de recursos humanos de uma empresa de logística que opera no porto de Puerto Ordaz confirmou que recebe em média 340 currículos por mês para 12 vagas disponíveis, reflectindo a escassez extrema de oportunidades formais.
Jesús Moreno, antigo técnico de soldadura na Sidor, mudou-se com a família para Cumaná em 2021. "A minha filha mais velha tem 19 anos e nunca teve um emprego formal", conta durante uma chamada telefónica. "Aqui em Cumaná há menos fábricas, mas pelo menos conseguimos trabalhar na construção civil. Em Puerto Ordaz, o futuro era completamente fechado."
Impacto na Infraestrutura e na Força de Trabalho
A fuga de trabalhadores qualificados constituiu uma perda irreparável para o tecido industrial da região. Estimativas do Центрinvestigação económico da Universidad Católica Andrés Bello indicam que mais de 60.000 profissionais técnicos deixaram o estado Bolívar desde 2015, migrando para a Colômbia, Chile ou Peru. Muitos levaram consigo competências acumuladas ao longo de décadas em siderurgia, montagem de veículos e produção de alumínio.
A falta de mão-de-obra especializada agrava-se com a saída das empresas. Sem técnicos capazes de operar maquinaria complexa, a reativação de qualquer unidade industrial exigiria investimentos em formação que os orçamentos estatais não permitem.
A Inflação Corrói o Que Resta
A taxa de inflação na Venezuela atingiu 190% em 2023 segundo dados do Fundo Monetário Internacional, continuando a侵蚀 o poder de compra dos trabalhadores que ainda conservam empregos formais. O salário mínimo mensal ronda os 3,5 dólares, valor que mal cobre o custo de uma semana de alimentação para uma família de quatro pessoas.
Os sindicalistas do sector metalúrgico em Puerto Ordaz relatam que os subsídios de alimentação distribuidos pelas empresas que ainda operam representam uma parte significativa do rendimento real dos trabalhadores. Sem esses benefícios, a голод seria uma realidade imediata para milhares de agregados familiares.
Sinais de Esperança ou Ilusões?
Funcionários do Ministério da Economia Industrial, que falaram sob condição de anonimato, indicaram que existem estudos preliminares para converter parte das instalações fabris em unidades de produção de bens de primeira necessidade, incluindo medicamentos genéricos e materiais de construção básicos. O impacto dessas medidas, caso avancem, ficaria aquém do necessário para reverter o declíneo estrutural.
Critérios técnicos internos citados pela агентство Bloomberg apontam que uma revitalização mínima do parque industrial de Guayana exigiria investimentos da ordem dos 850 milhões de dólares em cinco anos — quantia que excede em quase quatro vezes o orçamento anual do Ministério da Indústria. As propostas circulam em Caracas, mas semanyi sinal concreto de financiamento.
O Que Vem a Seguir?
Analistas do banco de investimento Torino Capital, com sede em Miami, publizaram no mês passado um relatório a antecipar que as sanções internacionais impostas pelos Estados Unidos manterão-se até ao menos ao segundo semestre de 2025, continuando a dificultar a importação de componentes industriais. A recuperação da manufacturing venezuelana, escreveram, "depende de перемены geopolíticas fora do controlo de Caracas".
Em Puerto Ordaz, os Toyota Land Cruiser que circulam pelas ruas trazem peças importadas do Brasil ou Paraguai, pagas a preços elevados no mercado paralelo. Os proprietários não conseguem trocar os veículos por modelos nacionais porque a produção local cessou. Esse detalhe — a presença continueda de uma marca japonesa enquanto a fábrica que a montava está encerrada — tornou-se, para muitos habitantes da cidade, o символ mais pungente da transformação.
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