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Política

Itália prende dois suspeitos após morte de quatro migrantes em incêndio de carrinha

— Sofia Rodrigues 5 min read

Duas pessoas foram detidas na Itália na terça-feira na sequência de um incêndio que matou quatro trabalhadores migrantes numa carrinha agrícola na região de Foggia, no sul do país. As autoridades italianas disseram que os detidos enfrenta acusações de homicídio involuntário e transporte ilegal de pessoas, crimes que podem resultar em penas superiores a dez anos de prisão.

O incêndio e as vítimas

O fogo deflagrou durante a madrugada numa estrada rural nos arredores de San Severo, município na província de Foggia conhecido pela sua produção intensiva de frutos e legumes. A carrinha transportava pelo menos dez trabalhadores agrícolas, na sua maioria cidadãos do Bangladesh e do Paquistão, que tinham sido contratados para a época de colheita. Testemunhas disseram que as chamas alastraram rapidamente quando o veículo parou numa berma.

Os serviços de emergência chegaram ao local por volta das quatro da manhã, mas quatro homens já não apresentavam sinais vitais. Outros três migrantes foram levados para o hospital local com queimaduras graves. Um deles permanece em estado crítico na unidade de cuidados intensivos. As identidades das vítimas ainda não foram oficialmente confirmadas, mas fontes judiciais indicam que tinham entre 25 e 40 anos.

A operação de resgate e a investigação

Os Carabinieri do comando provincial de Foggia lideram a investigação. O oficial responsável, Tenente-Coronel Marco Ferrante, disse aos jornalistas que os detidos são homens de nacionalidade italiana, proprietários de uma empresa de contratação de mão-de-obra agrícola. A empresa operava alegadamente sem licença e tinha vários processos pendentes por violações do direito laboral.

A carrinha estava registada em nome de uma cooperativa agrícola fictícia. As autoridades acreditam que os migrantes eram transportados em condições de sobrelotação, sem ventilação adequada, numa zona onde as temperaturas nocturnas ainda ultrapassam os 30 graus. O Ministério Público de Foggia abriu um inquérito por homicídio múltiplo com dolo eventual — uma acusação que requer prova de que os suspeitos sabiam dos riscos e optaram por ignorar os resultados.

Um padrão recorrente na Puglia

A região de Foggia tem sido palco de vários incidentes mortais envolvendo trabalhadores agrícolas migrants nos últimos anos. Em 2021, três cidadãos indianos morreram electrocutados quando o veículo que os transportava embateu num poste eléctrico. Em 2023, um trabalhador bengali morreu atropelado durante uma marcha de protesto contra as condições de trabalho.

O fenómeno conhece-se coloquialmente como "caporalato" — um sistema de intermediários ilegais que recrutam migrantes para jornadas de 12 horas em campos sob forte calor, pagas a menos de cinco euros por hora. A lei anti-caporalato de 2016 deveria ter eliminado a prática, mas organizações não-governamentais dizem que a aplicação permanece quase inexistente nas zonas rurais do sul de Itália.

A resposta política ao fenómeno

O ministro da Agricultura, Francesco Battistoni, reagiu ao incidente prometendo uma "revisão completa" do sistema de contratação no sector agrícola. Em comunicado, o Ministério anunciou uma task-force conjunta entre as forças policiais e a autoridade laboral para inspecting empresas de contratação na Puglia. Os críticos, porém, dizem que promessas semelhantes já foram feitas depois de tragédia anteriores sem resultados concretos.

As condições de trabalho no sector

A Puglia é responsável por cerca de 40% da produção hortícola italiana, uma indústria que depende fortemente de mão-de-obra migrante sazonal. Estima-se que mais de 100.000 trabalhadores migrants trabalhem na região durante os meses de colheita, entre Abril e Outubro. A maioria chega através de redes informais de contratação coordenadas por intermediários que cobram comissões de até 30% do salário.

Organizações como a Oxfam Italia e a Federbio indicaram que as condições de vida nos campos de acolhimento temporário são "alarmantes". Construções improvisadas sem água corrente, saneamento deficiente e sobrelotação são routinely documentadas pelos activistas. A organização Medici per i Diritti Umani denúncia que os trabajadores estão "presos num ciclo de endividamento" junto dos caporali desde o momento em que chegam à Itália.

Implicações transfronteiriças e a rota migratória

Embora o incidente tenha ocorrido em território italiano, o caso reflecte dinâmicas migratórias que envolvem directamente países do Sul da Europa. Muitos dos trabalhadores encontrados na carrinha tinham entrado recentemente na Itália através de rotas do Mediterrâneo Central, depois de atravessar a Líbia ou a Tunísia. Uma vez no país, foram imediatamente direccionados para zonas agrícolas por redes de contrabandistas.

A Rota Marítima Central, que liga o norte de África à Sicilia e à Calábria, permanece a via de migração mais movimentada do Mediterrâneo. Em 2024, mais de 50.000 pessoas atravessaram esta rota, um aumento de 60% face ao ano anterior. O fluxo cria pressão sobre os sistemas de acolhimento e alimenta a procura de trabalho barato e não declarado nas zonas rurais.

O que acontece agora

Os dois detidos ficaram em silêncio durante o primeiro interrogatório perante o juiz de instrução em Foggia. Os seus advogados indicaram que vão impugnar a validade das provas recolhidas no local, argumentando que a carrinha foi movida antes da chegada da polícia científica. O julgamento preliminar está marcado para o próximo mês.

Entretanto, o Parlamento Italiano debate uma proposta de lei que criminaliza a contratação de trabalhadores sem documentação. A votação está prevista para Fevereiro. Grupos de defesa dos direitos humanos vão monitorizar o processo e pedem que os detidos sejam investigados também por "tráfico de seres humanos", uma acusação mais grave que requer prova de coacção ou engano. As organizações pedem ainda que o caso leve a uma investigação parliamentary sobre as condições nos campos agrícolas da Puglia — algo que não acontece há três anos.

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