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Política

França aprova lei histórica para devolução de arte saqueada às ex-colónias

— Sofia Rodrigues 8 min read

A França aprovou uma legislação histórica que simplifica o processo de devolução de obras de arte saqueadas durante o período colonial, marcando uma virada significativa na gestão do património cultural europeu. Esta nova lei, que entrou em vigor na quinta-feira, remove barreiras burocráticas que mantinham milhares de peças em museus franceses durante décadas. O impacto imediato é a aceleração das negociações com países como o Senegal e a Nigéria, que aguardam a retorno de símbolos nacionais fundamentais.

Detalhes da nova legislação francesa

O texto legal aprovado pelo parlamento francês estabelece um mecanismo claro para a restituição de bens culturais sem a necessidade de um decreto presidencial individual para cada caso. Anteriormente, o processo era extremamente lento, exigindo aprovação unânime em várias comissões e frequentemente paralisado por disputas sobre a titularidade jurídica. A nova lei transfere o poder de decisão para os ministros da Cultura e das Finanças, permitindo decisões mais rápidas e baseadas em critérios específicos.

Estima-se que existam cerca de 2.000 obras de arte de origem colonial nos principais museus de Paris, incluindo o Museu do Quai Branly e o Louvre. Muitas destas peças foram adquiridas durante as campanhas militares no final do século XIX e início do século XX, num período em que a definição de "propriedade" era frequentemente decidida pela força das armas. A lei visa resolver a questão da "propriedade imóvel" do Estado francês, permitindo que as obras voltem aos seus locais de origem sem perderem o estatuto jurídico necessário.

Impacto nos países africanos e no Senegal

O Senegal é um dos primeiros beneficiários desta mudança legislativa. O país africano tem pressionado por anos pela devolução de peças sagradas e reais que foram levadas para Paris durante o domínio francês. A nova lei facilita o retorno de itens como a coroa do rei Bidju e outros artefactos do Reino do Gabu, que são centrais para a identidade cultural senegalesa. Estas devoluções não são apenas simbólicas; elas representam a reparação de uma memória histórica fragmentada.

Além do Senegal, outros países africanos estão de olho no processo. A Nigéria, por exemplo, tem uma longa disputa com a França sobre a devolução das máscaras do povo Fang, além das famosas esculturas do Reino de Benin, que estão principalmente no Reino Unido. A ação francesa pode criar um efeito dominó, pressionando outros países europeus a acelerarem as suas próprias reformas legislativas. O contexto é crucial: a arte não é vista apenas como um objeto estético, mas como um veículo de memória e soberania nacional.

Desafios na definição de "saque" versus "compra"

Um dos pontos mais complexos da nova lei é a distinção entre obras que foram efetivamente "saqueadas" e aquelas que foram "compradas" ou "trocadas" durante o período colonial. A legislação francesa tenta abordar esta nuance ao permitir que as partes negociem acordos específicos, mas isso ainda gera debates jurídicos. Alguns especialistas argumentam que a definição de "saque" deve ser mais ampla para incluir compras feitas sob coação, onde o poderio militar francês ditava os termos da negociação.

Esta distinção é vital porque afeta o número de obras elegíveis para devolução. Se apenas as peças tomadas à força forem consideradas, o número pode ser menor do que se incluir todas as aquisições feitas em condições de desigualdade. O governo francês terá de analisar cada caso com cuidado para evitar precedentes que possam abrir as portas a centenas de outras reivindicações de outros continentes, como a Índia ou o Vietname.

Reações da comunidade museológica europeia

A aprovação da lei gerou reações mistas entre os curadores e diretores de museus na Europa. Alguns celebram a decisão como um passo necessário para modernizar a relação entre os museus e as suas coleções, argumentando que a transparência atrai novos públicos. Outros, no entanto, temem que a devolução em massa esvazie as coleções europeias, reduzindo a sua capacidade de contar a história global através de objetos físicos presentes nas suas salas.

O diretor do Museu do Quai Branly, em Paris, destacou que a lei não significa o fim das coleções, mas sim o início de uma nova era de parcerias internacionais. Ele enfatizou que a devolução pode ser complementada por empréstimos rotativos, permitindo que as obras continuem a circular entre Paris e as capitais africanas. Esta abordagem tenta equilibrar a justiça histórica com a necessidade de manter o acesso público às obras de arte em ambos os lados do Atlântico.

No entanto, há preocupações sobre a capacidade dos países receptores de preservar as obras. Alguns críticos questionam se as infraestruturas museológicas em certas ex-colónias estão preparadas para receber e manter peças frágeis. Esta questão é frequentemente levantada para justificar a retenção das obras em Paris, mas muitos especialistas africanos argumentam que esta visão é, por vezes, paternalista e ignora os avanços recentes em conservação e curadoria em países como o Quénia e a Costa do Marfim.

Contexto histórico e disputas anteriores

A questão da restituição de arte colonial não é nova, mas ganhou urgência nas últimas duas décadas. Relatórios anteriores, como o Relatório Sarr-Savoy de 2018, encomendado pelo então presidente francês Emmanuel Macron, recomendavam a devolução de 26 peças específicas ao Benim. Este relatório foi um divisor de águas, pois foi o primeiro documento oficial que reconheceu o caráter "forçado" de muitas aquisições coloniais. A nova lei é, em muitos aspetos, a concretização prática das recomendações desse relatório.

Antes desta legislação, a França era frequentemente vista como uma das potências mais relutantes em devolver artefatos, comparada ao Reino Unido ou à Alemanha. A burocracia francesa era conhecida por ser densa, e o conceito de "domínio público" era usado como um escudo quase intransponível. A mudança de atitude reflete uma evolução política mais ampla na França, onde o debate sobre o legado colonial se tornou central nas eleições e na identidade nacional. A lei é vista como uma tentativa de pacificar as relações com as ex-colónias e de reposicionar a França como líder cultural europeia.

Implicações para Portugal e o seu património

Embora a lei seja francesa, as suas implicações estendem-se a todo o continente europeu, incluindo Portugal. A forma como a França lida com as suas devoluções pode servir de modelo ou de aviso para outros países com impérios coloniais extensos. Portugal, com uma longa história colonial na África, Ásia e América, enfrenta questões semelhantes, embora a sua abordagem tenha sido mais baseada em acordos bilaterais do que em legislação abrangente. A observação do caso francês é crucial para compreender como as leis nacionais podem influenciar a diplomacia cultural.

Em Portugal, o debate sobre a restituição de arte colonial tem ganhado força, especialmente em relação a peças nos museus de Lisboa e no Museu Nacional de Arte Antiga. A experiência francesa mostra que a criação de um quadro legal claro pode acelerar o processo e reduzir a incerteza jurídica. Para os curadores portugueses, a lição é que a transparência e a colaboração com os países de origem são essenciais para manter a relevância dos museus num mundo globalizado. A pressão por mais devoluções pode aumentar nos próximos anos, seguindo o exemplo francês.

Próximos passos e cronograma esperado

Com a lei já em vigor, o Ministério da Cultura francês anunciou que as primeiras devoluções concretas devem ocorrer nos próximos seis meses. O governo está a trabalhar em estreita colaboração com os embaixadores dos países africanos para identificar as obras de maior prioridade. Espera-se que um acordo com o Senegal seja anunciado ainda este ano, servindo como piloto para o processo. Esta linha temporal é importante para avaliar a eficácia da nova legislação e para manter o momentum político em torno da questão.

Os observadores devem acompanhar de perto as decisões dos ministros da Cultura e das Finanças nas próximas semanas, pois as suas escolhas definirão os critérios que serão aplicados a casos futuros. Além disso, é crucial monitorizar as reações de outros países europeus, que podem ser forçados a adotar leis semelhantes para manter a competitividade cultural e diplomática. O futuro da gestão do património colonial está em transformação, e a França está atualmente na vanguarda desta mudança histórica.

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