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Finança

Estamo revela limite de crescimento de Portugal a 2%

— Carlos Mendes 8 min read

O presidente da Estamo, Miguel Maya, afirmou que não vê um Portugal capaz de crescer de forma sustentável acima dos 2% de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Esta declaração surge num momento de reflexão crítica sobre os resultados económicos recentes do país e os desafios estruturais que ainda persistem. A análise do líder da organização patronal aponta para um teto realista para a economia portuguesa, desafiando as expectativas otimistas de alguns setores.

O cenário económico atual em Portugal

A economia portuguesa tem demonstrado resiliência face às turbulências globais, mas os fundamentos do crescimento estão a mudar. Os dados recentes indicam que o ritmo de expansão está a desacelerar em comparação com os anos de pós-pandemia. Este cenário exige uma leitura mais fria e menos influenciada pela euforia inicial da recuperação.

Para compreender a gravidade da afirmação de Miguel Maya, é necessário olhar para os números concretos. O PIB tem crescido a taxas próximas ou ligeiramente superiores a 2% nos últimos trimestres, mas a qualidade desse crescimento é questionada. A produtividade, um dos pilares essenciais para um crescimento sustentável, não tem acompanhado o ritmo da massa salarial.

A posição da Estamo sobre o futuro do país

A Estamo representa milhares de empresas, com forte presença nos setores do turismo, hotelaria, comércio e serviços. Estas são indústrias que sofreram muito durante a crise sanitária e que agora buscam estabilidade. A posição de Miguel Maya reflete o sentimento de uma grande fatia do tecido empresarial que teme que o crescimento atual seja mais uma bolha do que uma tendência estrutural.

A organização patronal tem defendido há anos a necessidade de reformas estruturais para desbloquear o potencial do país. Sem alterações profundas na estrutura produtiva, o risco de estagnação aumenta. A mensagem é clara: sem produtividade, o crescimento de 2% pode ser o máximo alcançável a médio prazo.

Os desafios do setor do turismo

O turismo é um dos motores da economia portuguesa, mas enfrenta desafios de saturação e sazonalidade. O crescimento deste setor tem sido impulsionado pelo preço do dinheiro barato e pela afluência de visitantes, fatores que podem ser voláteis. A dependência excessiva deste setor torna a economia vulnerável a choques externos, como alterações nas rotas aéreas ou crises geopolíticas.

Além disso, o setor enfrenta uma crise de mão de obra. A escassez de trabalhadores qualificados e não qualificados está a pressionar os custos das empresas. Esta pressão nos custos, sem um aumento proporcional na produtividade, corrói as margens de lucro e limita a capacidade de reinvestimento das empresas, criando um ciclo vicioso que freia o crescimento.

Produtividade: o gargalo do crescimento

O principal argumento de Miguel Maya assenta na falta de ganhos de produtividade. Em termos económicos, a produtividade mede a quantidade de output produzido por unidade de input, geralmente trabalho ou capital. Se os salários sobem mais rápido do que a produtividade, a competitividade das empresas diminui. Isso leva a que os preços subam, tornando as exportações mais caras e as importações mais atrativas.

Em Portugal, a massa salarial tem crescido a um ritmo acelerado, o que é positivo para o poder de compra dos cidadãos. No entanto, se não houver um aumento correspondente na eficiência das empresas, o custo do trabalho torna-se elevado em comparação com os vizinhos europeus. Isto coloca pressão sobre a inflação e sobre a taxa de câmbio, afetando diretamente o equilíbrio externo do país.

A baixa produtividade é um problema crónico na economia portuguesa. As empresas são, em média, pequenas e médias, com menos capacidade de investir em tecnologia e inovação do que os seus concorrentes no resto da União Europeia. Sem um esforço coletivo para aumentar a escala e a eficiência, o crescimento tende a ser mais extensivo do que intensivo, ou seja, depende mais de adicionar trabalhadores do que de tornar cada trabalhador mais produtivo.

Comparação com os parceiros europeus

Quando se olha para o resto da Europa, a situação portuguesa destaca-se pela sua singularidade, mas também pelas suas limitações. Países como a Alemanha ou a Holanda têm estruturas industriais mais robustas e taxas de produtividade mais altas. Isto permite-lhes crescer a taxas mais elevadas sem gerar tanto pressão inflacionária. Portugal, por sua vez, tem uma estrutura económica mais baseada em serviços, que tende a ter ganhos de produtividade mais lentos.

A comparação com a Espanha, o principal parceiro comercial e geográfico, é também reveladora. Embora ambos os países tenham beneficiado dos fundos europeus, a capacidade de absorção e a eficiência no investimento variam. A Estamo alerta que, sem uma melhor alocação dos recursos, o risco de desperdício aumenta, reduzindo o retorno sobre o investimento público e privado.

É importante notar que o contexto europeu está a mudar com a introdução de novos impostos verdes e digitais. Estas medidas podem afetar desproporcionalmente as economias mais dependentes de setores específicos, como o turismo e o imobiliário. A preparação para estas mudanças é crucial para manter a competitividade e garantir que o crescimento não seja apenas um fenómeno de curto prazo.

O papel dos fundos europeus na economia

Os fundos europeus têm sido um motor fundamental para o investimento em Portugal. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e os fundos estruturais têm permitido o investimento em infraestruturas, educação e inovação. No entanto, a eficácia destes fundos depende da capacidade de execução e da qualidade dos projetos selecionados. Há o risco de que, sem uma gestão eficiente, os fundos criem uma dependência que não se traduz em crescimento autogestivo.

A Estamo tem enfatizado a necessidade de simplificar a burocracia para que as empresas possam aproveitar melhor estes recursos. A complexidade administrativa continua a ser um dos maiores entraves ao investimento, especialmente para as pequenas e médias empresas que formam a espinha dorsal da economia portuguesa. Reduzir a carga administrativa pode libertar recursos e tempo, permitindo que as empresas se foquem mais na sua atividade principal e na inovação.

Implicações para as políticas públicas

A afirmação de Miguel Maya tem implicações diretas para as políticas públicas. Se o teto de crescimento é de fato próximo dos 2%, então as políticas económicas devem focar-se na qualidade desse crescimento. Isto significa investir em educação, saúde e infraestruturas para melhorar a produtividade a longo prazo. Também implica a necessidade de reformas estruturais nos mercados de trabalho e de produtos para aumentar a flexibilidade e a eficiência.

Os decisores políticos devem considerar que um crescimento acima de 2% pode exigir medidas mais agressivas, como aumentos de impostos ou maiores défices, o que pode gerar instabilidade. Uma abordagem mais prudente, focada na sustentabilidade e na produtividade, pode ser mais eficaz para garantir um crescimento estável e duradouro. O equilíbrio entre o investimento público e a eficiência das empresas é crucial para alcançar este objetivo.

Além disso, a política de salários deve ser coordenada com a evolução da produtividade. Embora seja necessário aumentar os salários para melhorar o poder de compra, fazê-lo sem ganhos de produtividade pode levar a uma espiral de custos que prejudica a competitividade. Diálogo social e uma melhor compreensão das dinâmicas do mercado de trabalho são essenciais para encontrar o ponto de equilíbrio.

O que esperar nos próximos meses

Os próximos meses serão cruciais para validar ou refutar as projeções da Estamo. Os dados trimestrais do PIB, as taxas de inflação e a evolução da produtividade serão indicadores-chave a monitorizar. Os investidores e os analistas estarão de olho nestes números para ajustar as suas expectativas e estratégias. A reação dos mercados financeiros às políticas económicas do governo também será um fator importante.

Além disso, a evolução da situação geopolítica e económica global terá um impacto significativo na economia portuguesa. As tensões comerciais, a guerra no Leste Europeu e as alterações nas taxas de juro do Banco Central Europeu são variáveis externas que podem acelerar ou travar o crescimento. A capacidade de adaptação da economia portuguesa a estas mudanças será testada nos próximos anos.

A sociedade civil, as empresas e os sindicatos terão um papel fundamental na definição do rumo da economia. O diálogo e a cooperação entre estas partes são essenciais para implementar as reformas necessárias e garantir que o crescimento seja partilhado e sustentável. A atenção de todos os atores económicos deve estar voltada para a produtividade e a eficiência como caminhos para superar o teto dos 2%.

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