A Comissão Europeia anunciou esta semana o desenvolvimento de um modelo de inteligência artificial capaz de processar e gerar texto em 24 línguas oficiais da União Europeia. O projeto, batizado internamente como EUROMIND, surge numa altura em que Portugal celebrava a herança cultural de Amália Rodrigues, criando um contraste entre a preservação da tradição e a aposta na tecnologia de ponta europeia.

O modelo que fala 24 línguas europeias

O novo sistema de IA está a ser desenvolvido pelo Joint Research Centre, o organismo científico da Comissão Europeia sediado em Bruxelas. O modelo promete permitir comunicação instantânea entre cidadãos de países que usam línguas tão diversas como o húngaro, o maltês e o português. Esta capacidade multilingue representa um avanço significativo face aos modelos existentes, que frequentemente privilegiam o inglês.

UE desenvolve modelo de IA que fala 24 línguas e muda comunicação europeia — Agricultura
Agricultura · UE desenvolve modelo de IA que fala 24 línguas e muda comunicação europeia

Segundo a documentação oficial distribuída aos estados-membros, o EUROMIND consegue manter contexto conversacional em todas as línguas suportadas. Isto significa que um cidadão de Varsóvia pode comunicar com um interlocutor de Lisboa sem recurso ao inglês como intermediário.

Contexto político e financiamento

O projeto insere-se na estratégia europeia de soberania tecnológica, que reserva 1,2 mil milhões de euros para iniciativas de inteligência artificial até 2027. O financiamento provém do programa Europa Digital, aprovado pelo Parlamento Europeu em 2021. A Numa, uma estrutura de inovação francesa ligada ao ecossistema de startups, foi seleccionada como parceiro técnico para a fase de testes.

Esta aposta surge depois de os estados-membros terem alertado para a dependência europeia de modelos de IA desenvolvidos nos Estados Unidos e na China. Vários governos, incluindo o de Lisboa, manifestaram preocupação com questões de privacidade e soberania de dados quando cidadãos recorrem a serviços de IA norte-americanos.

O caso português e a relevância cultural

Portugal viveu nesta mesma semana a commemoration oficial dos 25 anos sobre a morte de Amália Rodrigues. O governo português organizou eventos culturais em Lisboa e no Rio de Janeiro, cidade onde a fadista actuou inúmeras vezes. Paralelamente, Lisboa prepara-se para acolher a sede de uma das futuras infraestruturas de computação quântica europeia, num investimento de 257 milhões de euros.

O timing do anúncio europeu não foi acidental. Fontes próximas do processo confirmam que a Comissão queria sublincar como a tecnologia pode servir a diversidade cultural, e não apenas a homogeneização linguística que muitas vezes acompanha a globalização digital.

Desafios técnicos e limitações

Especialistas independentes advertem para os obstáculos que o projeto enfrenta. O Maltês e o Irlandês, ambas línguas oficiais da União, apresentam corpora digitais relativamente pequenos, o que dificulta o treino de modelos de alta qualidade. Além disso, variantes regionais como o catalão e o basco requerem tratamento específico para garantir reconhecimento adequado.

O consórcio responsável pelo EUROMIND admite que os primeiros protótipos apresentam taxas de erro mais elevadas em línguas com menos speakers disponíveis online. A equipa sediada em Ispra, no norte de Itália, trabalha actualmente na recolha de dados adicionais junto de universidades e institutos linguísticos de doze países.

Implicações para serviços públicos

Se o modelo confirmar as expectativas, várias aplicações práticas tornam-se imediatamente relevantes. Serviços de atendimento ao cidadão, processos judiciais com réus de diferentes nacionalidades e procedimentos médicos de emergência poderiam beneficiar de tradução em tempo real de alta qualidade.

O governo português manifestou interesse particular na aplicação do modelo à administração pública. Uma fonte do Ministério da Ciência e Tecnologia indicou que Lisboa pretende testar o sistema nos serviços de immigração e na linha de apoio a cidadãos emigrantes. A iniciativa enquadra-se no programa simétrica +, que visa digitalizar 200 serviços públicos até 2026.

Reações e perspetivas dos estados-membros

A receção entre os 27 estados-membros foi maioritariamente positiva, embora com reservas de alguns países do Leste europeu. A Polónia e a República Checa expressaram preocupação com o equilíbrio de poder entre centros de decisão técnicos e instâncias políticas. Ambos os governos querem garantias de que a governança do modelo permanecerá sob controlo democrático.

A chancelaria alemã, por sua vez, sublinhou a importância de incluir dialetos e variantes linguísticas dentro de cada país. Esta exigência surge após queixas de comunidades minoritárias queixarem-se de serem excluídas de serviços digitais por não falarem a língua padrão.

O que acontece a seguir

O lançamento de uma versão beta do EUROMIND está previsto para o primeiro trimestre do próximo ano. Até lá, cidadãos e organizações podem candidatar-se a participar nos testes através do portal digital da Comissão. Os resultados desta fase piloto vão determinar se o modelo avança para implementação plena nos serviços institucionais da União.

Portugal deverá integrar o grupo inicial de países testers, de acordo com o calendário partilhado com os estados-membros. O que está em jogo vai além da tecnologia: trata-se de saber se a Europa consegue construir ferramentas de IA que respeitem a sua diversidade linguística, ou se acabará por seguir o modelo centralizado de potências tecnológicas externas.

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Opinião Editorial

Serviços de atendimento ao cidadão, processos judiciais com réus de diferentes nacionalidades e procedimentos médicos de emergência poderiam beneficiar de tradução em tempo real de alta qualidade.O governo português manifestou interesse particular na aplicação do modelo à administração pública. Ambos os governos querem garantias de que a governança do modelo permanecerá sob controlo democrático.A chancelaria alemã, por sua vez, sublinhou a importância de incluir dialetos e variantes linguísticas dentro de cada país.

— minhodiario.com Equipa Editorial
Carlos Pereira
Autor
Carlos Pereira é jornalista agrícola e rural, cobrindo a agricultura do Minho e do Norte de Portugal, as políticas da PAC, o sector vitivinícola e os desafios das explorações agrícolas familiares perante as alterações climáticas.

Carlos tem larga experiência em reportagem de terreno, visitando quintas, adegas e cooperativas agrícolas em todo o Entre-Douro-e-Minho. É licenciado em Agronomia pelo Instituto Politécnico de Viana do Castelo.