A Comissão Europeia revelou esta semana uma estratégia digital avaliada em 43 mil milhões de euros, destinada a fortalecer a autonomia tecnológica do bloco face à dominância das grandes empresas tecnológicas norte-americanas. O plano, denominado «Inteligência Artificial para a Competitividade Europeia», estabelece metas concretas até 2030 para reduzir a dependência de serviços cloud e plataformas digitais controlados por empresas como a Microsoft, a Amazon e a Google.

Um plano com ambitions de longo prazo

O documento de 47 páginas, apresentado em Bruxelas, delineia investimentos em infraestrutura de dados, investigação em inteligência artificial e apoio a empresas europeias do setor tecnológico. As autoridades comunitárias reconhecem que o continente perdeu terreno significativo para as tecnológicas americanas na última década, com empresas como a Meta, a Apple e a Nvidia a dominarem áreas-chave desde a computação em nuvem até aos chips avançados. O comissário europeu para a Democracia Digital, responsável pela apresentação do plano, afirmou que «a Europa não pode continuar dependente de tecnologia estrangeira para funções críticas da nossa sociedade».

Europa Expõe Plano de 43 Mil Milhões para Reduzir Dependência da Big Tech Americana — Agricultura
Agricultura · Europa Expõe Plano de 43 Mil Milhões para Reduzir Dependência da Big Tech Americana

Investimentos em centros de dados europeus

O plano prevê a criação de pelo menos três novos centros de dados de alta performance em território da União Europeia, com localizações ainda a definir pelos Estados-membros. Estes centros serão financiados por uma combinação de fundos públicos e investimento privado, incentivado por isenções fiscais e subsídios diretos. A ideia é criar uma infraestrutura que permita às empresas europeias armazenar e processar dados sensíveis sem recorrer a servidores localizados nos Estados Unidos, onde estão sujeitas à legislação americana.

Por que a Europa actou agora

A decisão surge após meses de pressão crescente sobre os líderes europeus para responderem ao que muitos consideram uma assimetria tecnológica crescente. As empresas americanas controlam cerca de 70 por cento do mercado europeu de serviços de computação em nuvem, segundo dados do observatório europeu do mercado digital. Esta concentração levantou preocupações em matéria de segurança e soberania, particularmente após casos recentes de acesso a dados de cidadãos europeus por autoridades norte-americanas ao abrigo de leis como o CLOUD Act.

A pandemia de covid-19 acelerou a digitalização na Europa, mas também expôs a dependência do bloco em relação a tecnologia americana para funções essenciais. Hospitais, governos e empresas dependem daily de serviços como o Azure da Microsoft ou o AWS da Amazon, uma realidade que os estrategistas europeus pretendem alterar. O plano inclui ainda medidas para apoiar empresas emergentes europeias no setor da inteligência artificial, com programas de incubação e acesso a financiamento.

Reacções da indústria tecnológica

A resposta das grandes tecnológicas americanas ao plano europeu foi imediata, embora cautelosa. Várias empresas manifestaram preocupação com possíveis medidas que dificultassem a sua operação no mercado europeu, onde continuam a gerar receitas significativas. A legislação antimonopólio europeia já resultou em multas milionárias contra empresas como a Google, mas os críticos argumentam que as coimas não alteraram substancialmente o poder de mercado destas empresas.

Do outro lado do Atlântico, analistas em Washington acompanha a situação com atenção. A administração norte-americana view com desconfiança qualquer iniciativa europeia que possa limitar a expansão das suas empresas tecnológicas, um setor em que os Estados Unidos mantêm uma vantagem competitiva considerada estratégica. As tensões comerciais entre os dois blocos, já exacerbadas por disputas em torno de tarifas e subsídios, poderão intensificar-se com a implementação do plano.

O impacto para Portugal e a Península Ibérica

Para Portugal, o plano europeu representa uma oportunidade de posicionamento estratégico no ecossistema digital europeu. O país dispõe de centros de dados em crescimento e de uma mão de obra qualificada em tecnologias da informação, embora continue atrás de países como a Irlanda, a Alemanha ou os Países Baixos no setor. O governo português manifestou interesse em acolher investimento ao abrigo do novo programa, segundo fontes do Ministério da Economia.

A região ibérica beneficia de condições favoráveis para centros de dados, incluindo custos energéticos competitivos e clima que facilita a refrigeração das instalações. Empresas como a Nowo, a Vodafone Portugal e operadores espanhóis já expandiram as suas capacidades neste domínio. O plano europeu poderá dinamizar ainda mais este setor, criando empregos qualificados e atraindo investimento estrangeiro direto para a zona sul da Europa.

Próximos passos e o que esperar

O plano carece ainda de aprovação pelos Estados-membros e pelo Parlamento Europeu, um processo que deverá prolongar-se durante vários meses. Os debates no Conselho e no hemiciclo europeu prometem ser intensos, com deputados a exigir garantias de que os fundos serão bem utilizados e que não haverá duplicação de investimentos já previstos noutros programas. O resultado das eleições europeias de junho poderá influenciar a trajetória final da iniciativa.

Os próximos meses serão decisivos para perceber que forma concreta tomará a estratégia. Os Estados-membros têm até ao final do ano para apresentar candidaturas aos fundos disponíveis, e as primeiras decisões de financiamento deverão ser anunciadas no primeiro trimestre de 2025. A capacidade da Europa para executar este plano em paralelo com outras prioridades, como a transição energética e a coesão territorial, será um teste à vontade política do bloco. O mundo tecnológico está a observar, e a resposta europeia às big tech americanas poderá redefinir o equilíbrio de poder no setor durante a próxima década.

Opinião Editorial

As tensões comerciais entre os dois blocos, já exacerbadas por disputas em torno de tarifas e subsídios, poderão intensificar-se com a implementação do plano.O impacto para Portugal e a Península IbéricaPara Portugal, o plano europeu representa uma oportunidade de posicionamento estratégico no ecossistema digital europeu. A legislação antimonopólio europeia já resultou em multas milionárias contra empresas como a Google, mas os críticos argumentam que as coimas não alteraram substancialmente o poder de mercado destas empresas.Do outro lado do Atlântico, analistas em Washington acompanha a situação com atenção.

— minhodiario.com Equipa Editorial
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Autor
Correspondente de negócios internacionais com foco na relação entre Portugal e os mercados emergentes, nomeadamente Brasil, Angola e Moçambique. Licenciada em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma de Lisboa e mestre em Economia Internacional. Inês acompanha os fluxos de investimento luso-africanos, o papel das empresas portuguesas no PALOP e as oportunidades de exportação para mercados da CPLP. Fala português, inglês e espanhol fluentemente.