A Organização Mundial de Saúde confirmou esta semana um novo surto de Ébola na República Democrática do Congo, o décimo primeiro que o país enfrenta desde 1976. As autoridades sanitárias locais enfrentam não apenas o vírus, mas também uma vaga de desinformação que dificulta a vacinação e o rastreio de contactos. O The New Humanitarian noticiou que comunidades rurais no leste do Congo rejeitam frequentemente as equipas médicas, acreditando em teorias conspiratórias que circulam nas redes sociais. Esta combinação de crise sanitária e guerra de informação coloca os profissionais de saúde numa batalha em duas frentes.

O Histórico de Ébola no Congo

O primeiro surto documentado de Ébola ocorreu em 1976, simultaneamente em Yambuku, no norte do Congo, e em Nzara, no Sudão. Desde então, o país tornou-se o epicentro mundial da doença, com múltiplos surtos que deixaram um rasto de mais de 11 mil mortes confirmadas. A região do Kivu, no leste do país, carrega o peso de ser a mais afetada. O surto de 2018-2020 foi o segundo maior alguma vez registado, com cerca de 2.300 mortes. Cada outbreak deixou cicatrizes na memória coletiva das comunidades e criou um terreno fértil para a desconfiança.

Congo Enfrenta Novo Surto de Ébola — e a Desinformação Torna Tudo Pior — Empresas
Empresas · Congo Enfrenta Novo Surto de Ébola — e a Desinformação Torna Tudo Pior

As taxas de mortalidade do Ébola variam entre 25% e 90%, dependendo da estirpe e da qualidade dos cuidados prestados. O vírus espalha-se através de fluidos corporais, o que torna os profissionais de saúde especialmente vulneráveis. Vários enfermeiros e médicos congoleses morreram durante outbreaks anteriores, alimentando a perceção de que os hospitais são locais de risco, não de cura. Esta perceção, muitas vezes baseada em experiências reais de negligência, é explorada por grupos que difundem desinformação.

A Desinformação Como Obstáculo Sanitário

Grupos de desinformação têm usado plataformas digitais para espalhar mentiras sobre supostos efeitos secundários das vacinas contra o Ébola. Uma teoria amplamente partilhada nas redes sociais afirma que a vaccinação é um complô ocidental para controlar a população africana. O fenómeno não é novo, mas ganhou força durante a pandemia de covid-19 e agora regressa com renovado vigor no contexto do Ébola. O United States Centers for Disease Control alertou que a hesitação vacinal alimentada por desinformação pode prolongar surtos e aumentar o número de vítimas mortais.

Como a desinformação se propaga nas comunidades rurais

Nas zonas rurais do Kivu, onde o acesso à internet é limitado, a desinformação propaga-se através de rádios comunitárias e conversas presenciais. Líderes locais e chefes religiosos, sem treino para distinguir informação fiável de propaganda, reproduzem teorias conspiratórias durante sermões e assembleias. Algumas comunidades acreditam que o Ébola não existe, que é uma invenção do governo para captar fundos internacionais, ou que os corpos dos mortos devem ser sepultados segundo costumes tradicionais, mesmo quando isso implica manipular fluidos contagiosos. Estas crenças, profundamente enraizadas, tornaram-se obstáculos práticos que nenhuma equipa médica consegue ultrapassar sem ganhar primeiro a confiança das comunidades.

O Papel dos Média Internacionais

O The New Humanitarian, uma organização noticiosa especializada em crises humanitárias, tem publicado reportagens detalhadas sobre a forma como a cobertura noticiosa internacional afeta a resposta ao surto. Segundo a publicação, a cobertura mediática tende a aumentar durante os picos de infecção e a desaparecer quando os números diminuem, o que cria ciclos de atenção que não correspondem às necessidades de longo prazo das comunidades afetadas. Esta intermitência noticiosa dificulta a manutenção de financiamento consistente para programas de prevenção e apoio psicossocial às vítimas sobreviventes. Muitas famílias que perderam membros para o Ébola continuam a viver com o estigma da doença, sem acesso a apoio psicológico adequado.

A cobertura internacional também alimenta paradoxalmente a desconfiança local. Quando repórteres estrangeiros chegam com câmaras e fatos de proteção, as comunidades interpretam muitas vezes esta presença como prova de que o Ébola é mais grave do que o governo admite, ou que serve interesses económicos de países ricos. A presença da mídia internacional, intençãoally ou não, pode amplificar a perceção de que as autoridades congolesas não conseguem gerir a crise, enfraquecendo a confiança pública nas instituições nacionais de saúde.

Os Desafios Operacionais no Terreno

As equipas médicas que trabalham no terreno enfrentam condições extremamente difíceis. As infrastructures de saúde no leste do Congo foram destruídas por décadas de conflito armado, e muitas regiões permanecem inacessíveis durante a estação das chuvas. Os centros de tratamento de Ébola operam frequentemente com geradores deelectricidade que falham, refrigerators que não mantêm as vacinas à temperatura correta, e equipas de segurança que não conseguem proteger os profissionais de saúde de ataques. Em 2019, um ataque a um centro de tratamento em Butembo matou um policial e obrigou médicos sem Borders a suspender operações na região.

A logística da vaccinação em massa apresenta desafios únicos. A vaccinação contra o Ébola requer condições de armazenamento a temperaturas ultra-baixas, que muitas regiões africanas não conseguem garantir. As seringas, os compos de segurança e o pessoal qualificado para administrar as doses devem chegar a aldeias que podem estar a dias de distância das estradas alcatroadas. O custo de cada campanha de vaccinação pode ascender a milhões de dólares, e o financiamento internacional nem sempre chega a tempo de conter a propagação do vírus.

Estratégias de Combate à Desinformação

As autoridades sanitárias congolesas, em parceria com organizações internacionais, têm tentado adaptar as suas estratégias de comunicação para enfrentar a crise de informação. Em vez de apenas distribuir folhetos com informações técnicas sobre o vírus, as equipas de saúde comunitária passaram a usar teatro interactivo, rádio local e influenciadores digitais para alcançar as comunidades. O objetivo é criar narrativas que reflitam as experiências reais das pessoas, em vez de impor conceitos biomédicos que podem parecer distantes ou estranhos. Alguns desses programas mostram sobreviventes do Ébola a partilhar as suas histórias, quebrando o estigma e demonstrando que a recuperação é possível.

O governo da República Democrática do Congo criou uma unidade especial para monitorizar e responder à desinformação online. Esta unidade rastreia narrativas falsas nas redes sociais e tenta substituí-las por informação verificada antes que se espalhem offline. No entanto, a capacidade desta unidade é limitada, e a velocidade a que a desinformação se propaga supera frequentemente os esforços de resposta. Além disso, algumas narrativas falsas originam-se fora do país, o que torna a resposta mais complexa e politicamente sensível.

O Que Vem a Seguir

As próximas semanas serão críticas para determinar se o surto atual pode ser contido antes de se espalhar para centros urbanos como Goma, uma cidade de dois milhões de habitantes que serve de hub regional para comércio e deslocação de refugiados. O governo da República Democrática do Congo pediu apoio internacional urgente, incluindo doses adicionais de vaccinas e pessoal médico especializado. Doadores como a União Europeia e os Estados Unidos indicated disposição para aumentar o financiamento, mas os prazos de desembolso permanecem incertos. As comunidades locais pedem não apenas vaccinas, mas também investimentos na construção de infrastructures de saúde permanentes que possam servir durante e depois das emergências.

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João Ferreira
Autor
João Ferreira é jornalista de economia e negócios, especializado na cobertura do tecido empresarial português, com foco particular nas regiões do Minho e do Norte. Acompanha o desempenho das PME, o investimento estrangeiro e as transformações do mercado de trabalho, combinando análise macroeconómica com reportagem de terreno.

Com mais de uma década de experiência em jornalismo económico, João colaborou com publicações de referência nacionais e regionais. É licenciado em Economia pela Universidade do Minho e tem pós-graduação em Jornalismo Económico.