O primeiro-Ministro de Bangladesh, Sheikh Hasina, revelou esta semana os destinos da sua viagem inaugural ao estrangeiro: Pequim e Kuala Lumpur. A escolha de Rahman, que sucede ao veterano líder Sheikh Hasina, exclui deliberadamente a Índia — uma decisão que está a gerar ondas diplomáticas em toda a região do Sul da Ásia.
A Viagem Que Ninguém Esperava
A deslocação de Rahman começa na próxima segunda-feira na capital da China, onde está prevista uma reunião com altos responsáveis do Partido Comunista. Segue-se depois Kuala Lumpur, capital da Malásia, onde o primeiro-Ministro vai participar numa cimeira da ASEAN. A ausência da Índia como destino inaugural marca uma rutura com décadas de protocolo diplomático em Dhaka.
Fontes próximas do escritório do primeiro-Ministro garantem que a decisão não representa um afastamento de Nova Délhi. Contudo, a escolha de Pequim como primeira paragem internacional envia uma mensagem clara sobre as prioridades comerciais do novo governo.
Porque Razão Pequim Tem Prioridade
A China é o maior parceiro comercial de Bangladesh, com um volume de trocas que ultrapassou os 15 mil milhões de dólares no ano passado. O corredor económico China-Paquistão, que atravessa território bengali, criou obrigações bilaterais que Rahman precisa de gerir pessoalmente. Além disso, Pekin emprestou milhares de milhões para infraestruturas críticas em Bangladesh, incluindo portos e autoestradas.
O Factor Tecnologia Chinesa
Bangladesh depende actualmente da China para equipamento militar, sistemas de telecomunicações 5G e projectos de energia. Rahman herdou estas parcerias da administração anterior, mas precisa de as renegociar em termos mais favoráveis. A deslocação a Pequim permite-lhe sentar-se à mesa com decisores que determinam o ritmo dessas obras.
A India Fica a Ver Navios
Nova Délhi observou a decisão com preocupação evidente. A Índia sempre considerou Bangladesh um pilar da sua política de vizinhança, investindo milhares de milhões em projectos de conectividade e segurança na fronteira. O silêncio oficial em Nova Délhi contrasta com o burburinho nos círculos diplomáticos.
Analistas em Dhaka apontam que Rahman está a enviar sinais contraditórios. Por um lado, quer manter a relação especial com a Índia. Por outro, precisa desesperadamente de investimentos chineses para alimentar o crescimento económico de Bangladesh, que visa atingir os 500 mil milhões de dólares de PIB até 2030.
O Que Muda na ASEAN
A segunda paragem de Rahman em Kuala Lumpur reforça a ambição de Bangladesh de se aproximar da Associação de Nações do Sudeste Asiático. Actualmente, Bangladesh tem apenas o estatuto de parceiro de diálogo sectorial, mas o governo quer upgrades. A Malásia, que detém este ano a presidência rotativa da ASEAN, pode facilitar essa aproximação.
Durante a cimeira em Kuala Lumpur, Rahman vai encontrar-se com o primeiro-Ministro Anwar Ibrahim. Os dois líderes partilham interesse em fortalecer o corredor comercial marítimo que liga os portos de Chattogram e Klang. Esse corredor pode transformar Bangladesh num hub regional para exportadores chineses que querem evitar as rotas tradicionais pelo Estreito de Malaca.
O Contexto Que Ninguém Conta
Sheikh Hasina, que governou Bangladesh durante 15 anos, visitou a Índia 14 vezes e a China apenas 4. Rahman, com apenas 10 meses no poder, está a inverter essa matriz. Os jovens bengalis que votaram nele esperam empregos — e são empresas chinesas que estão a construir fábricas em Dhaka, Chattogram e Sylhet.
A pressão interna para resultados económicos é imensa. Bangladesh registou um abrandamento no crescimento das exportações de vestuário, sector que emprega 4 milhões de pessoas. O governo precisa de novas fontes de investimento, e a China oferece dólares que o Ocidente conditionaliza a reformas políticas que Rahman não pode implementar sem risco de instabilidade.
O Que Vem a Seguir
Após Pequim e Kuala Lumpur, Rahman vai viajar para Ancara, Tóquio e Bruxelas até ao final do trimestre. A visita à Índia está prevista para Junho, mas ainda não há data confirmada. Diplomatas em Dhaka sugerem que Nova Délhi pode marcar uma visita reciprocíproca antes do verão para colmatar o que um responsável indiano chamou de "mal-entendido táctico".
O que importa agora é o que Rahman consegue em troca. Se Pekin anunciar investimentos em portos ou uma linha de crédito facilitada, a tendência está traçada. Se os chineses forem mesquinhos, Nova Délhi recupera terreno automaticamente. Bangladesh está a jogar num tabuleiro onde todos os grandes poderes asiáticos competem por influência.
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