Adam Weinstein, investigador do The Quincy Institute, criticou duramente a estratégia norte-americana para o Irão, acusando Washington de perseguir o que designou como uma "guerra perfeita" — um cenário militar que ignora os custos reais e as consequências imprevisíveis para a região e para os próprios interesses dos EUA.
O Que Diz o The Quincy Institute
Weinstein, fellow de política externa no think tank sediado em Washington, considerou que a abordagem da administração americana assenta numa "fantasia estratégica". Num artigo publicado na semana passada, escreveu que os decisores norte-americanos "continuam a desenhar planos que exigem condições impossíveis — território seguro, aliados fiáveis, inimigos que cooperam" para justificar uma intervenção militar.
O The Quincy Institute, fundado em 2019 por antigos diplomatas e especialistas em segurança nacional, tem vindo a alertar para o que classifica como "hiperintervencionismo" da política externa dos EUA. Este novo ataque à estratégia iraniana surge num momento em que as tensões entre Washington e Teerão voltaram a intensificar-se, com manobras militares americanas no Golfo e sanções renovadas.
Contexto das Tensões Atuais
As relações entre os EUA e o Irão deterioraram-se significativamente desde 2018, quando a administração Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do acordo nuclear de 2015 (JCPOA). Desde então, Teerão acelerou o seu programa de enriquecimento de urânio, e Washington respondeu com a chamada "pressão máxima" — uma estratégia de sanções económicas e isolamento diplomático que, segundo os críticos, não conseguiu mudar o comportamento iraniano.
Weinstein argumentou que a "pressão máxima" transformou-se numa política sem saída clara. "Os EUA têm agora duas opções: aceitar que o Irão será um Estado com capacidade nuclear ou considerar uma solução militar", escreveu. "Nenhuma destas opções é boa. Mas Washington continua a fingir que existe uma terceira via — a guerra perfeita que resolve tudo sem custos."
Análise Militar e Limitações
Especialistas militares ouvidos pela AFP, em condição de anonimato, confirmaram que qualquer operação contra o Irão exigiria recursos substanciais. Estimativas de think tanks independentes sugerem que uma campanha aérea limitada custaria entre 10 e 15 mil milhões de dólares por mês, sem garantias de destruir a totalidade das instalações nucleares iranianas — muitas das quais subterrâneas e protegidas.
Além disso, o Irão dispõe de capacidade para fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo mundial. Essa ameaça já fez subir o preço do barril em occasions anteriores, criando pressão económica tanto nos EUA como nos aliados europeus e asiáticos.
Reações em Washington e no Irão
A resposta de Teerão às críticas do The Quincy Institute foi imediata. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, numa conferência de imprensa em Teerão, acusou Washington de "projetar as suas próprias fantasias militaristas" e lembrou que "toda a região pagaria o preço de uma aventura norte-americana".
No Capitólio, a receção foi dividida. Senadores do Partido Republicano criticaram o The Quincy Institute por ser demasiado "colombiano" e por subestimar a ameaça iraniana. Já alguns democratas, embora cautelosos, reconheceram que as questões levantadas pelo instituto merecem debate público.
Implicações para Portugal e Europa
A questão iraniana não é apenas um assunto norte-americano. Portugal, enquanto aliado da NATO, tem interesses diretos na estabilidade do Golfo Pérsico — desde a segurança das rotas marítimas até ao impacto nos preços da energia. Lisboa mantém ainda relações económicas significativas com Teerão, apesar das sanções.
Weinstein alertou que "qualquer conflito na região afetará diretamente os aliados europeus". Referiu-se especificamente ao potencial encerramento de rotas comerciais e ao risco de ataques a navios no Estreito de Ormuz, por onde passam cargueiros com destino a portos europeus.
O Que Vem Agora
Os próximos meses serão decisivos. As negociações sobre o programa nuclear iraniano permanecem num impasse, com a Europa a tentar mediar um regresso ao acordo de 2015. Washington mantém a pressão, mas sem sinais claros de uma mudança de estratégia.
Weinstein terminou o seu artigo com um aviso: "A guerra perfeita não existe. Cada vez que Washington a procura, aproxima-se de um desastre real. O Irão não é o Iraque nem o Afeganistão. Qualquer plano que não conte com essa realidade está condenado ao fracasso."
O帝, Adam Weinstein deve falar novamente em Washington na próxima semana, numa sessão organizada pelo Quincy Institute aberta ao público. O evento, marcado para quinta-feira no centro da cidade, deverá atrair representantes de várias agências governamentais e de think tanks rivais.


