Os termómetros na Europa estão a registar valores que há uma década pareceriam impossíveis. Em 2024, várias regiões do continente superaram os seus máximos históricos por margens significativas, não por décimas, mas por graus inteiros. Os cientistas alertam que esta tendência não é uma anomalia — é o novo normal.
Ondas de calor cada vez mais intensas
Desde o verão de 2023 que a Europa enfrenta uma sequência de eventos climáticos extremos. Em Itália, o vale do Pó ultrapassou os 48°C, um valor que supera o recorde anterior do país. Na Grécia, os incêndios florestais destruíram áreas que antes eram consideradas seguras. Em Portugal, o Interior Norte e o Alentejo enfrentaram semanas com temperaturas acima dos 45°C.
Os dados do Serviço Copernicus de Monitorização da Atmosfera confirmam que os últimos cinco anos foram os mais quentes alguma vez registados no continente. A média das temperaturas máximas de verão subiu 2,3°C em relação à média do século XX.
Por que os recordes caem agora
A física por trás deste fenómeno é clara. O aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera intensifica o aquecimento. Mas há um fator adicional: a humidade relativa do ar também está a mudar. Quando o ar é mais húmido, a capacidade do corpo humano arrefecer através da sudação diminui, tornando o calor mais perigoso.
Os modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas projetam que, até 2050, ondas de calor como a de 2023 poderão ocorrer a cada dois anos. O que era extremo tornará- se comum.
O papel das cidades
As áreas urbanas amplificam o problema. O betão e o asfalto das cidades absorvem radiação solar durante o dia e libertam-na à noite, impedindo o arrefecimento noturno. Em Madrid e em Barcelona, as temperaturas noturnas durante as ondas de calor têm superado os 28°C, um valor considerado crítico para a saúde pública.
Impacto na saúde e na economia
Os hospitais europeus reportaram um aumento de 40% nos internamentos por golpe de calor no último verão. Em Espanha, as autoridades de saúde contabilizaram mais de 2.000 mortes diretamente atribuíveis às altas temperaturas entre junho e agosto.
Os impactos económicos também são visíveis. A agricultura no sul da Europa sofreu perdas estimada em milhares de milhões de euros devido à seca e ao calor extremo. Os rios usados para refrigeração de centrais energéticas alcançaram temperaturas que obrigaram à redução temporária da produção.
A resposta institucional
A Comissão Europeia aprovou em 2024 um regulamento sobre gestão de riscos climáticos que obriga todos os Estados-membros a desenvolver planos nacionais de adaptação. O documento estabelece metas concretas para a proteção de populações vulneráveis e a redução da exposição das infraestruturas críticas ao calor.
Em Portugal, o Ministério do Ambiente revelou que está a investir na criação de uma rede de centros de climatização públicos onde os cidadãos podem refugiar-se durante ondas de calor extremas. O programa, com um orçamento inicial de 50 milhões de euros, visa cobrir 150 municípios até 2026.
O que vem a seguir
Os meteorologistas preveem que o verão de 2025 trará novas ondas de calor. Os modelos sazonais indicam probabilidades acrescidas de temperaturas acima da média entre junho e setembro no Mediterrâneo. A Organização Mundial de Meteorologia pediu aos governos que ativem planos de preparação antes do início da estação quente.
A questão central já não é se os recordes vão continuar a cair. É quantos graus adicionais a humanidade está disposta a aceitar antes de alterar fundamentalmente a forma como consome energia e usa os recursos do planeta.


