A China concretou esta semana um lançamento relâmpago que poucos antecipavam. O novo foguete Longa Marcha 10A descolou do Centro de Lançamento de Satélites de Wenchang, na ilha de Hainan, pelas 06h30 locais, marcando a estreia de um veículo espacial projetado para regressar à Terra após cada missão — exatamente como a Falcon 9 da SpaceX fez durante anos.
O lançamento surpresa
O momento foi kepto em silêncio antes da descolagem. Apenas 48 horas antes, as autoridades chinesas emitiram um comunicadobrief announcing that the rocket had entered its final countdown phase. Nenhuma cobertura mediática internacional acompanhou o evento em direto — uma estratégia deliberada que reflete o secretismo que ainda envolve o programa espacial militar de Pequim.
Segundo fontes próximas do programa, o foguete conseguiu pousar com sucesso na zona de aterragem designada, a cerca de 500 quilómetros do local de lançamento. O Ministério das Finanças chinês já terá alocado o equivalente a 2,3 mil milhões de euros para o desenvolvimento desta tecnologia ao longo dos próximos cinco anos.
Como funciona a tecnologia
O Longa Marcha 10A utiliza motores de metano líquido — a mesma abordagem adotada pela Starship da SpaceX. Esta escolha não é casual. O metano oferece maior eficiência e, crucialmente, permite a produção de combustível diretamente no local de lançamento, eliminando a necessidade de logística complexa.
Os estágios do foguete são concebidos para aguentar pelo menos dez ciclos de reutilização sem manutenção significativa. A SpaceX conseguiu resultados similares com a Falcon 9, que já voou mais de 300 vezes, tornando-se o cavalo de batalha da indústria de lançamentos comerciais globais.
A comparação com a Falcon 9
A Falcon 9 estabeleceu o padrão da indústria desde 2015. Até hoje, a SpaceX recuperou mais de 250 primeiros estágios, reduzindo drasticamente os custos de acesso ao espaço. Cada lançamento da Falcon 9 custa aproximadamente 67 milhões de dólares, segundo dados públicos da empresa de Elon Musk.
A China ainda não revelou o custo projetado por lançamento do Longa Marcha 10A. Contudo, analistas do setor espacial estimam que, se a taxa de reutilização se confirmar, o preço poderá cair para níveis competitivos dentro de três a quatro anos.
Por que isto importa agora
O mercado global de lançamentos espaciais movimenta anualmente cerca de 6 mil milhões de dólares. A SpaceX domina mais de 60% desse mercado, deixando a China, a Europa e outros actores a competir pelas sobras. Pequim pretende inverter essa equação.
Para Portugal, as implicações são indirectas mas reais. A Agência Espacial Portuguesa mantém acordos de cooperação com a Agência Espacial Europeia, que por sua vez depende parcialmente de lançamentos russos — uma dependência que o conflito na Ucrânia tornou insustentável. Um competidor chinês mais barato poderia alterar as opções europeias.
O programa espacial chinês acelera
Nos últimos cinco anos, a China investiu mais de 10 mil milhões de dólares no seu programa espacial civil e militar. Construiu a sua própria estação espacial, a Tiangong, pousou sondas na Lua e prepara-se para enviar missões a Marte na próxima década.
Zhang Yulin, subdiretor da Administração Espacial Nacional da China, afirmou numa conferência em Xangai que "a reutilização não é uma opção — é uma necessidade estratégica". Estas declarações foram publicadas pelo jornal oficial China Daily no mês passado.
Reações internacionais
A NASA ainda não comentou publicamente o lançamento. A agência norte-americana, que depende da SpaceX para missões de carga e tripulação à Estação Espacial Internacional, viu no novo foguete chinês um sinal de que a competição global por lançamentos baratos acabou de ficar mais intensa.
Na Europa, a Arianespace — responsável pelos lançamentos do Vega e do Ariane 6 — enfrenta pressão acrescida. O foguete Ariane 6 ainda não atingiu operacionalidade plena, e a China entra agora no mercado com tecnologia de reutilização, exactamente quando os foguetes europeus mais precisam de competitividade.
O que vem a seguir
O próximo teste do Longa Marcha 10A está previsto para o final do primeiro trimestre de 2025, segundo fontes do setor. Dessa vez, carregará uma carga útil real — um satélite de comunicações para a empresa estatal China Satcom. Será a primeira vez que o foguete provar a sua viabilidade comercial.
Até lá, os analistas estarão a observar dois indicadores: a taxa de sucesso na recuperação dos estágios e o custo final por quilograma colocado em órbita. Se ambos convergirem com os números da Falcon 9, a corrida espacial global nunca mais será a mesma.
Por que isto importa agora O mercado global de lançamentos espaciais movimenta anualmente cerca de 6 mil milhões de dólares. Contudo, analistas do setor espacial estimam que, se a taxa de reutilização se confirmar, o preço poderá cair para níveis competitivos dentro de três a quatro anos.


