Um cão de rua que se tornou fenómeno viral e símbolo de identidade urbana no Brasil está agora no centro de uma disputa cultural com o México. O animal, conhecido nas redes sociais como "Caramelo", alcançou milhões de visualizações em vídeos que documentavam a sua vida nas ruas de São Paulo, antes de se transformar em merch e até em tema de canções. Agora, figuras públicas mexicanas asseguram que o cão não é brasileiro — e que a sua história pertence ao património do México.
A origem de um fenómeno digital
Em 2023, um vídeofilmado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, mostrou Caramelo a atravessar uma passadeira ao som de música ambiente. O vídeo acumulou mais de 12 milhões de visualizações em duas semanas. Criadores de conteúdo brasileiros começaram a seguir o cão, documentando as suas rotinas e.publicando vídeos que mostravam a sua personalidade peculiar.
Maria Clara Ferreira,uma designer gráfica de 28 anos que vive em Pinheiros, foi uma das primeiras a publicar imagens do cão. "Ele aparecia sempre à mesma hora, junto ao café da esquina", explicou ao jornal Folha de S.Paulo. O cão tornou-se rapidamente um símbolo de resistência urbana, com tatuagens e printed t-shirts a surgirem em poucos meses.
A reivindicação mexicana
O Ministério do Turismo do México revelou em Fevereiro que estava a trabalhar numa campanha para usar Caramelo como Embaixador da Cultura Mexicana no estrangeiro. A Ministra野 mexicana, Fernanda López, anunciou que o cão tinha raízes mexicanas, apontando para a fotografia de um cão com aparência semelhante tirada em Oaxaca em 2019.
Em entrevista ao portal El Universal, López declarou: "Este cão representa a identidade dos povos mesoamericanos. A sua presença nas ruas de São Paulo é resultado de migrações que remontam a décadas." A afirmação gerou imediatamente reacções adversas nas redes sociais brasileiras, com a hashtag #CarameloÉBrasileiro a trending topic durante várias horas.
A resposta brasileira
OInstituto Brasileiro de Animais de Rua,uma ong sediada em Curitiba, repudiou as declarações mexicanas. "Não podemos permitir que uma narrativa cultural seja apropriada desta forma", inúmerou a directora executiva, Renata Alves,em comunicado oficial. O grupo adiantou que Caramelo foi identificado com microchip em 2021 por um voluntário da organização — documentação que, segundo a ong, prova a sua permanência contínua em São Paulo desde essa data.
Deputados brasileiros propuseram umProjecto de Lei para proteger a imagem de animais que se tornem símbolos culturais nacionais. O autor da proposta, congressman Carlos Macedo, disse ao Portal G1: "Se deixarmos isto passar, amanhã qualquer país pode reclamar os nossos símbolos."
O debate nas redes sociais
O confronto entre brasileiros e mexicanos nas redes sociais adoptou tons humorísticos. Influenciadores de ambos os países criaram vídeos comparativos, tentando provar a origem do cão através de detalhes como a cor da coleira ou o formato das orelhas. Um meme que mostra Caramelo a usar uma bandeira brasileira num vídeo e uma bandeira mexicana no dia seguinte acumulou mais de 500 mil partilhas.
Especialistas em direito da propriedade intelectual consultadOS pela BBC Brasil affirmaram que, juridicamente, é praticamente impossível reclamar propriedade sobre um animal vivo. "A questão aqui não é legal — é cultural e identitária", explicou o professor Henrique Almeida, da Universidade de São Paulo.
O que acontece a seguir
Está marcada para Junho uma reunião entre representantes culturais de ambos os países no âmbito da CPLP, com o objectivo de encontrar uma resolução para o impasse. O director do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, proposeu uma exposição conjunta que explorasse a figura do cão errante como símbolo comum das culturas latino-americanas — uma solução que, por agora, nenhum dos lados confirmou.
A história de Caramelo vai continuar a desenrolar-se nas redes sociais. O próximo capítulo, garantem os seus seguidores mais dedicados, será filmado nas ruas de São Paulo — onde o cão foi visto pela última vez em Março, segundo relatos de moradores.


