Francis Kabongo estava a esconder-se dentro de casa quando ouviu os disparos. Ao amanhecer, saiu e encontrou o vizinho morto na rua, atingido na cabeça. "Eles dispararam contra tudo o que se movia", conta Kabongo, 34 anos, residente no bairro de Munigi, nos arredores de Goma, a cidade estratégica junto ao lago Kivu, no leste da República Democrática do Congo.
A offensive launched by M23 rebels in mid-December has thrust Goma into a new wave of violence that has killed dozens of civilians and forced more de 900.000 pessoas a fugir em poucas semanas. As milícias ocuparam territórios a leste da cidade, cortando estradas e deixando a população encurralada sem acesso a ajuda humanitária.
Avanço rebelde força evacuação de hospitais
As forças do M23 avançaram rapidamente durante a segunda semana de dezembro, ocupando as cidades de Sake e Minova, ambas a menos de 30 quilómetros de Goma. Hospitais nestas localidades foram evacuados à pressa, com profissionais médicos a relatar dezenas de feridos graves transportados em veículos civis por estradas bloqueadas.
O Ministério da Saúde da RDC confirmou que pelo menos 14 centros de saúde nas zonas afetadas interromperam operações. "Os pacientes foram obrigados a sair antes de termos tempo de transferir os mais críticos", explicou a Dra. Grace Muhindo, responsável pelo hospital provincial de Goma.
Crítica à resposta internacional
A missãoda ONU na RDC, a MONUSCO, confirmou ter intensificado patrulhamentos na zona periurbana de Goma, mas civis cuestionaram a eficácia da presença militar. "Vimos veículos da ONU passar, mas nunca param quando há tiroteio", disse Espérance Mwanga, liderança comunitária no bairro de Ndosho.
Os Estados Unidos e a França pressionaram por uma reunião de emergência do Conselho de Segurança, mas sem resultados concretos até ao momento. Um relatório interno do escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU, datado de 19 de dezembro, estimou que 60% das infraestruturas médicas na zona norte de Goma ficaram inoperacionais.
O apoio de Kigali em causa
O Governo do Rwanda recusou categoricamente as acusações de Kinshasa, que voltou a acusar Kigali de armar e financiar o M23. "São acusações sem fundamento, usadas pelo Congo para desviar a atenção das suas próprias falhas militares", afirmou Louise Umutoni, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Rwanda, em comunicado enviado à imprensa.
Contudo, investigators das Nações Unidas documentaram, num relatório confidencial de novembro, a presença de armas e uniformes com marcas militares ruandesas em posições controladas pelo M23. O documento, الذي اطلعت عليه Reuters, refere que pelo menos três lotes de munições confiscados a rebeldes continham numeração de série compatível com fornecimentos militares registados em 2023.
O M23, originalmente formado por desertores do exército congolês em 2012, mantém a sua designação — riferida ao acordode paz de 23 de março desse ano que nunca foi implementado. O grupo controla vastas zonas de mineração de coltan e cobalto na província do Norte do Kivu.
Crise humanitária agrava-se
Mais de 940.000 pessoas fugiram de suas casas desde o início da nova ofensiva, segundo dados do ACNUR. Os campos de deslocados em Goma, já superlotados com dezenas de milhares de pessoas, receberam nas últimas duas semanas pelo menos mais 85.000 novas chegadas, segundo a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras.
"Estamos sem espaço, sem água potável suficiente e sem medicamentos para todos", admitiu Peter Kamau, coordinador de emergência da MSF na região. A organização alertou para um surto de cólera nos campos de Kibati e Nyamilele, com pelo menos 340 casos suspeitos registados.
A Cruz Vermelha Internacional mobilizou 120 voluntários adicionais para ajudar na distribuição de alimentos, mas as estradas bloqueadas limitam os fornecimentos. Três comboios humanitários foram atrasados na semana passada quando milícias locais interromperam a linha férrea que liga Goma a Bukavu.
Negocições bloqueadas
O Presidente Félix Tshisekedi ordenou a suspensão de todas as conversações com o M23 até que as forças rebelde se retirem dos territórios ocupados em dezembro. "Não pode haver diálogo sob a ameaça de armas", declarou o Palácio Presidencial num comunicado de 21 de dezembro.
O enviado especial da UA para os Grandes Lagos, Mohamed Ali Amir, tentou mediar um cessar-fogo temporário durante o período de fim de ano, mas sem sucesso. Fontes próximas às negociações disseram que os rebeldes exigem primeiro o reconhecimento de território já controlado antes de qualquer acordo de tréguas.
Impacto no comércio regional
A violência afectou gravemente o comércio transfronteiriço entre a RDC e o Rwanda. O mercado de Rusayo, o maior ponto de troca informal entre os dois países, permaneceu encerrado durante 12 dias em dezembro pela primeira vez em cinco anos. Comerciantes estimam perdas superiores a 2 milhões de dólares por dia de paralisação.
A empresa de telecomunicações Vodacom Congo confirmou que pelo menos 17 torres de comunicação na zona norte de Goma foram danificadas ou destruídas, deixando mais de 400.000 pessoas sem rede móvel. A paralisação complica a coordenação de ajuda humanitária e deixa famílias sem forma de comunicar.
Perspetivas para janeiro
Analistas alertam que a situação poderá escalar nas próximas semanas caso não haja um acordo de cessar-fogo antes da época das chuvas, que traditionally начинается em janeiro e dificulta movimentações militares. O Instituto de Estudos de Segurança emitiu um relatório a antecipar "um inverno de crise" para a região.
Kabongo, o testemunho inicial, diz que já não sai de casa depois das 17h00. "Antes tínhamos uma vida. Agora só esperamos que não nos encontrem." Três organizações de defesa dos direitos humanos pediram uma reunião extraordinaria do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para janeiro. A proibição de entrada de jornalistas na zona conflitante complica a verificação independente dos relatos.


