A Yara, líder mundial na produção de fertilizantes, emitiu um alerta urgente sobre os potenciais efeitos dominó de uma escalada no conflito no Irã. A empresa adverte que uma interrupção significativa no fornecimento de petróleo e gás na região pode gerar escassez alimentar generalizada em várias regiões da África. O cenário descrito por Svein Tore Holsether, executivo-chefe da Yara, destaca a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento globais face a tensões geopolíticas no Golfo Pérsico.

Mecanismos de impacto na cadeia de abastecimento

A conexão entre o petróleo iraniano e o pão na mesa do consumidor africano parece distante, mas é direta no setor agrícola. O fertilizante depende intensamente do gás natural e do petróleo como matérias-primas e fontes de energia para a produção. Se o Irã, um dos maiores produtores de petróleo bruto, ver as suas exportações reduzidas, os preços dos combustíveis sobem globalmente.

Yara alerta para escassez alimentar na África se guerra no Irã escalonar — Politica
Política · Yara alerta para escassez alimentar na África se guerra no Irã escalonar

Este aumento de custos afeta diretamente o preço do uréia e do nitrato de amónio, dois dos fertilizantes mais utilizados no continente africano. A Yara explica que a margem de erro para os agricultores africanos é mínima. Um aumento de 20% no preço do fertilizante pode significar a diferença entre uma colheita lucrativa e uma colheita quase que se paga.

Além disso, o custo do transporte marítimo tende a inflacionar quando os navios precisam de desviar das rotas tradicionais do Golfo ou quando o preço do combustível de navio aumenta. Este efeito composto pode elevar o preço final do grão em até 15% nos mercados locais, segundo projeções preliminares da empresa norueguesa.

O papel estratégico do Irã na economia global

O Irã não é apenas um produtor de petróleo bruto, mas também um jogador crucial nos mercados de gás natural liquefeito (GNL). O país possui algumas das maiores reservas provadas de gás natural do mundo, embora a capacidade de exportação tenha sido historicamente limitada pela infraestrutura. Qualquer conflito que danifique as instalações de processamento ou bloqueie o Estreito de Ormuz alteraria a oferta global.

O Estreito de Ormuz é um gargalo geográfico por onde passa aproximadamente 20% do consumo mundial de petróleo. Uma interrupção parcial ou total neste estreito enviaria ondas de choque imediatas nos preços do petróleo, que já são voláteis. A Yara monitoriza diariamente os indicadores de preços do petróleo do Brent e do WTI para ajustar as suas estratégias de produção em fábricas na Noruega, nos Estados Unidos e na Holanda.

Para além do petróleo, o Irã exporta diretamente fertilizantes para países vizinhos e para mercados emergentes. Uma redução nesta exportação direta cria um vácuo que outros produtores, como a Rússia e os Estados Unidos, tentam preencher. No entanto, a capacidade de resposta rápida destes concorrentes é limitada por contratos de longo prazo e capacidade de produção instalada.

Impacto direto em Portugal e na Europa Ocidental

Embora o foco inicial do alerta da Yara seja a África, as implicações para Portugal e para a Europa Ocidental são substanciais. Portugal importa uma parte significativa dos seus fertilizantes, tornando a agricultura nacional sensível às flutuações do preço do gás europeu. O mercado português observa de perto como Yara afeta Portugal, uma vez que a empresa tem uma presença logística e comercial relevante no país ibérico.

A análise da Yara indica que, se os preços do gás europeu subirem devido à escassez no Golfo, os custos de produção em fábricas europeias aumentarão. Isto pode levar a um aumento nos preços revendedores em Portugal. Para o agricultor português, que já enfrenta desafios com a seca e a concorrência externa, este aumento de custos pode reduzir a competitividade dos produtos agrícolas nacionais nos mercados internacionais.

Além disso, a estabilidade dos preços dos fertilizantes é crucial para a segurança alimentar europeia. Um choque de oferta pode levar a uma maior dependência de importações de grãos da América do Sul ou da Ucrânia. Este fenómeno pode criar uma concorrência maior por espaço de armazenamento e transporte, afetando indiretamente o comércio de produtos agrícolas portugueses, como o azeite, o vinho e as frutas frescas.

Vulnerabilidade do continente africano

A África é considerada o continente mais vulnerável a choques nos preços dos alimentos devido à sua dependência de importações e à estrutura das suas cadeias de abastecimento. Muitos países africanos dependem fortemente de culturas básicas como o milho, o trigo e o arroz, que exigem uma entrada significativa de fertilizantes para manterem a produtividade. A falta de fertilizante leva a uma queda imediata na produção, que se traduz em preços mais altos nos mercados locais.

A Yara destaca que a capacidade de absorção de choques nos mercados africanos é menor do que em outras regiões. Em países como o Quénia, a Etiópia e o Nigéria, o custo do fertilizante representa uma fatia considerável da despesa total do agricultor. Um aumento no preço do petróleo pode forçar os agricultores a reduzir a quantidade de fertilizante aplicado por hectare, o que resulta em colheitas menores e, consequentemente, em uma maior dependência de importações de grãos.

Esta dinâmica cria um ciclo vicioso: a produção local cai, as importações aumentam, a moeda local desvaloriza devido à saída de divisas para pagar as importações, e o preço final do alimento sobe para o consumidor médio. Este cenário é particularmente preocupante em regiões onde a inflação alimentar já é elevada e a classe média está a ser erodida pelos custos da vida.

Estratégias de mitigação da Yara

Frente a este cenário de incerteza, a Yara está a tomar medidas proativas para estabilizar a oferta. A empresa está a aumentar as reservas estratégicas de matérias-primas e a diversificar as suas fontes de abastecimento de gás natural. A Yara explica que está a investir em tecnologias de produção mais eficientes que reduzem a pegada de carbono e o consumo de energia por tonelada de fertilizante produzido.

A empresa também está a trabalhar em estreita colaboração com os seus clientes na África e na Europa para otimizar a utilização de fertilizantes. Programas de "nutrição inteligente" visam ajudar os agricultores a aplicar a quantidade certa de fertilizante no momento certo, maximizando o retorno sobre o investimento e reduzindo o desperdício. Esta abordagem técnica pode ajudar a amortecer os efeitos dos aumentos de preço.

Além disso, a Yara está a explorar parcerias com produtores locais de gás e energia renovável para reduzir a dependência do gás natural tradicional. A produção de amónia verde, utilizando hidrogénio gerado por energia eólica ou solar, é vista como uma solução de longo prazo para descarbonizar o setor e reduzir a volatilidade dos custos de produção. A empresa tem metas ambiciosas para aumentar a quota de fertilizantes verdes na sua mistura de produtos até 2030.

Perspetivas de mercado e próximos passos

O mercado de fertilizantes está a ficar de olho no desenvolvimento das negociações diplomáticas no Médio Oriente e na resposta dos principais produtores de petróleo. Qualquer sinal de uma resolução rápida do conflito no Irã pode acalmar os mercados e estabilizar os preços. No entanto, se a tensão persistir, os investidores e os agricultores devem preparar-se para uma maior volatilidade nos preços dos insumos agrícolas nos próximos trimestres.

Para Portugal e para a Europa, o foco está em monitorizar os preços do gás natural e a capacidade de produção das fábricas locais. As autoridades europeias podem considerar medidas de intervenção no mercado, como a liberação de reservas estratégicas ou subsídios temporários para os agricultores, se os preços atingirem níveis críticos. A coordenação entre os países membros da União Europeia será fundamental para garantir a estabilidade do mercado único de fertilizantes.

Os leitores devem acompanhar de perto as declarações oficiais da Yara e os relatórios do Ministério da Agricultura português sobre a evolução dos preços dos insumos agrícolas. A próxima reunião do Conselho Europeu sobre a segurança alimentar e as atualizações sobre a produção de colheitas na África subsariana serão indicadores chave da gravidade do impacto. A situação requer atenção contínua, pois as decisões tomadas nas próximas semanas terão efeitos duradouros na segurança alimentar global e nos orçamentos dos agricultores em todo o mundo.

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Jornalista económica especializada em sustentabilidade, ESG e transição energética. Mestre em Economia do Ambiente pela Universidade de Coimbra. Sofia cobre a implementação dos critérios ESG nas empresas cotadas, o mercado de carbono europeu, as metas climáticas nacionais e o impacto da regulação ambiental da UE no tecido empresarial português. Premiada pelo Club de Jornalistas com o prémio de Jornalismo Ambiental em 2022.