O pesquisador David Mukanga, líder do programa de investigação da Wellcome Research Programme, destacou a necessidade de fortalecer a pesquisa local na luta contra a malária em África, afirmando que a dependência de estudos internacionais limita a eficácia das estratégias de combate à doença. A declaração foi feita durante um fórum em Nairobi, Kenya, onde especialistas debateram a atual situação epidemiológica no continente.
Uma Crise que Requer Soluções Locais
Mukanga enfatizou que, apesar dos avanços globais na luta contra a malária, a falta de investimento em pesquisas locais tem dificultado a adaptação de estratégias às realidades específicas de cada país. "A maioria dos estudos é feita fora do continente, e isso não considera os fatores locais como variações climáticas, resistência parasitária e acesso a tratamentos", afirmou.
Na África, 94% dos casos de malária e 93% das mortes por essa doença ocorrem, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2022, a doença causou mais de 670 mil mortes, com o continente representando 95% dos casos globais. "Precisamos de mais dados de origem local para desenvolver políticas eficazes", destacou Edwine Barasa, pesquisador da Universidade de Nairobi, que também participou do evento.
Desafios na Pesquisa Local
Barasa explicou que a falta de infraestrutura, financiamento e capacitação de pesquisadores locais é um dos principais obstáculos. "Muitos países africanos têm dificuldade em manter laboratórios de qualidade e em atrair talentos para a área de saúde pública", afirmou. Ele ressaltou que, sem investimento contínuo, a luta contra a malária continuará sendo uma batalha desigual.
Além disso, a resistência dos parasitas à quimioprofilaxia e ao tratamento com artemisinina tem aumentado, especialmente em regiões como a Zâmbia e o Malawi. "Esses dados não são amplamente divulgados ou analisados localmente, o que dificulta a resposta rápida", disse Mukanga.
Importância do Colaboração Regional
O pesquisador também destacou a necessidade de maior cooperação entre países africanos. "A malária não conhece fronteiras. Apenas com ações unificadas podemos reduzir o impacto da doença", afirmou. Ele mencionou que iniciativas como o Programa de Pesquisa em Saúde da Wellcome têm sido fundamentais, mas não suficientes.
Barasa destacou que iniciativas regionais, como a Rede de Pesquisa da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), podem ser um passo importante. "A integração de dados e a troca de conhecimento entre países podem acelerar a inovação local", ressaltou.
Projetos em Andamento e Futuro da Pesquisa
Atualmente, o Wellcome Research Programme está financiando projetos em mais de 20 países africanos, com foco em testes rápidos, vacinas e estratégias de controle. Um dos projetos mais recentes, em Angola, visa desenvolver uma nova metodologia de monitoramento de casos de malária com base em dados coletados por comunidades locais.
Além disso, a OMS anunciou um plano de ação para 2024 com metas claras de redução de casos e mortes. A meta é atingir 90% de cobertura com tratamentos e prevenção até o final da década. "Isso exige mais investimento em pesquisa local, senão não vamos atingir os objetivos", afirmou um porta-voz da OMS.
O Papel da Comunidade e da Educação
Barasa destacou que a educação e a conscientização são partes fundamentais do processo. "É preciso que as comunidades entendam os riscos e as estratégias de prevenção", afirmou. Ele citou projetos em Uganda e Tanzânia, onde a participação de líderes locais tem aumentado a adesão a campanhas de vacinação e uso de mosquiteiros.
Mukanga enfatizou que a formação de pesquisadores locais também é essencial. "Precisamos de mais cientistas africanos na área de saúde pública, e isso exige apoio institucional e financiamento contínuo", disse.
Os especialistas destacam que a luta contra a malária exige uma abordagem multifacetada. Além da pesquisa, é necessário fortalecer a infraestrutura de saúde, melhorar o acesso a tratamentos e aumentar a conscientização nas comunidades.
O Que Virá a Seguir
Em 2024, a OMS planeja lançar uma nova iniciativa de monitoramento em tempo real para casos de malária, com a participação de mais de 30 países africanos. Além disso, o Wellcome Research Programme anunciará novos projetos de pesquisa em março, com foco em tecnologias inovadoras de detecção e tratamento.
Barasa e Mukanga reforçam que a prioridade deve ser investir em pesquisas locais para garantir estratégias eficazes e sustentáveis. "A malária é uma crise global, mas a solução tem que ser local", concluíram. O próximo passo é ver como os governos e organizações internacionais vão responder a essa demanda crescente por inovação e conhecimento de origem africana.


