O cardiologista João Ferreira, especialista do Hospital de Santa Maria em Lisboa, alertou sobre os efeitos do consumo excessivo de café no sistema cardiovascular. Em um artigo publicado na revista "Cardiologia Portuguesa", Ferreira destaca que o consumo diário de mais de 400 mg de cafeína, equivalente a aproximadamente quatro xícaras de café, pode causar aumento da pressão arterial e alterações no ritmo cardíaco. O estudo, baseado em dados de 2023, analisou 1.200 pacientes com histórico de consumo regular de café e revelou que 35% apresentaram sinais de arritmia após a ingestão de mais de 300 mg de cafeína por dia.
O impacto do café no corpo humano
Segundo o cardiologista, a cafeína atua como um estimulante do sistema nervoso central, aumentando a liberação de adrenalina. Isso pode levar a um aumento na frequência cardíaca e na pressão arterial, especialmente em pessoas com predisposição a doenças cardiovasculares. "O café não é inofensivo, mas seu impacto varia conforme a quantidade consumida e a sensibilidade individual", afirmou Ferreira.
Estudos anteriores já haviam mostrado que o consumo moderado de café — até 200 mg por dia — pode ter efeitos benéficos, como a redução do risco de doenças hepáticas e diabetes. No entanto, o especialista ressalta que em Portugal, onde o consumo médio diário de café é de aproximadamente 350 mg, há um risco crescente de complicações cardiovasculares. "É importante que as pessoas estejam cientes de como o café afeta seu corpo", reforçou.
Recomendações para o consumo moderado
O Ministério da Saúde de Portugal, em parceria com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, publicou um guia de recomendações para o consumo de cafeína. O documento indica que o limite seguro para a maioria dos adultos é de 400 mg por dia, mas pessoas com condições como hipertensão ou arritmias devem reduzir esse valor. Além disso, o consumo de café deve ser evitado nas horas que antecedem o sono, pois pode interferir na qualidade do descanso.
Além disso, Ferreira sugere que os consumidores verifiquem a quantidade de cafeína em bebidas como energéticos e chás, que muitas vezes contêm níveis semelhantes aos do café. "O problema está em não reconhecer o total de cafeína ingerido ao longo do dia", explicou. O especialista também alerta contra o uso de suplementos com cafeína, que podem acelerar ainda mais o coração.
Como a população portuguesa reage
Na capital, muitos cidadãos já estão mais atentos ao consumo de café. "Eu costumava tomar três xícaras por dia, mas, depois de ler sobre os riscos, reduzi para uma ou duas", contou Maria Silva, uma enfermeira de 42 anos que mora em Lisboa. Outros, como o professor de biologia Paulo Ferreira, mantêm o hábito, mas com mais atenção às quantidades. "Acho que o café é parte da nossa cultura, mas é importante equilibrar", afirmou.
O impacto do café também é notado em outros setores. Em 2023, o setor de café em Portugal gerou mais de 1,2 bilhão de euros em receita, segundo a Associação Portuguesa do Café. No entanto, com o aumento da conscientização sobre saúde, há uma tendência crescente de consumo de cafés com menor teor de cafeína e produtos alternativos, como o café descafeinado e o café verde.
Novas pesquisas em andamento
O Centro de Estudos Cardiovasculares de Lisboa está atualmente conduzindo um estudo de longo prazo para analisar os efeitos do café em diferentes grupos etários. O projeto, que envolverá 5.000 participantes, busca entender melhor como o consumo de cafeína afeta o coração ao longo da vida. "Esses dados poderão ajudar a criar diretrizes mais precisas para o público em geral", afirmou a coordenadora do estudo, Dra. Ana Moreira.
Além disso, a Universidade de Coimbra está investigando a relação entre o café e a saúde mental, com foco em como a cafeína pode influenciar o estresse e a ansiedade. "Não queremos dizer que o café é ruim, mas precisamos entender melhor os riscos", ressaltou o pesquisador Miguel Costa.
O que vem por aí
O Ministério da Saúde planeja lançar uma campanha nacional de conscientização sobre o consumo de cafeína no segundo trimestre de 2025. A iniciativa incluirá material informativo em clínicas, escolas e locais de trabalho, com o objetivo de reduzir os riscos associados ao excesso de café. Além disso, os especialistas recomendam que os consumidores façam exames cardíacos regulares, especialmente se apresentarem sintomas como palpitações ou tonturas.
Com o aumento do conhecimento sobre os efeitos do café, a população portuguesa pode tomar decisões mais informadas sobre seu hábito de consumo. O desafio está em equilibrar o prazer de beber café com a necessidade de proteger a saúde a longo prazo.


