Portugal enfrenta uma crise de talento no setor hoteleiro que ameaça a capacidade do país de sustentar o crescimento do turismo, um dos pilares da economia. Segundo o Ministério da Economia, 40% das empresas do setor relatam dificuldades em encontrar profissionais qualificados para posições essenciais, como recepcionistas e cozinheiros. A situação é mais crítica em Lisboa e no Algarve, onde a demanda por serviços de hospedagem cresce rapidamente.

Escassez de profissionais qualificados

A escassez de mão de obra qualificada no setor hoteleiro é um problema estrutural. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2019 e 2023, o número de empregos no setor aumentou em 22%, mas o número de profissionais com formação específica cresceu apenas em 8%. A disparidade é mais evidente em regiões turísticas, como o Algarve, onde a oferta de empregos supera em 30% a capacidade de formação local.

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João Ferreira, diretor da Associação Portuguesa deHotéis (APH), afirma que "o setor precisa de uma estratégia de formação mais alinhada com as necessidades reais das empresas. Muitos jovens optam por cursos que não têm conexão com o mercado de trabalho". Ele destaca que, em 2023, apenas 15% dos jovens que concluíram cursos de turismo encontraram emprego no setor, o que demonstra uma falha na ligação entre a educação e o mercado.

Impacto na economia e no turismo

A crise de talento tem impactos diretos no desempenho do turismo. Em 2023, o setor gerou 12% do PIB nacional, mas a falta de profissionais está causando atrasos na qualidade dos serviços e, em alguns casos, a redução de horas de trabalho. O Algarve, que recebeu 8,5 milhões de turistas em 2023, enfrenta especialmente a escassez de empregados em hotéis e restaurantes.

Segundo a Associação deHotéis do Algarve (AHA), 35% das unidades hoteleiras estão operando com 15% menos pessoal do que o necessário. "Isso afeta a experiência do cliente e pode levar a perdas de receita", explica Maria Santos, presidente da AHA. Ela também destaca que, em alguns hotéis, os clientes têm reclamado de atendimento deficiente e de serviços atrasados.

Reformas propostas pelo governo

O Ministério da Economia anunciou um plano de reformas para atrair mais profissionais ao setor. Entre as medidas, está a criação de programas de formação técnica em parceria com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Além disso, a proposta inclui isenções fiscais para empresas que investirem em capacitação de funcionários.

O secretário de Estado da Qualificação Profissional, António Gomes, afirmou que "a formação precisa ser mais prática e alinhada com as necessidades do mercado. Estamos trabalhando com as escolas e as empresas para que os jovens tenham mais oportunidades de entrar no setor com as habilidades certas".

Desafios e oportunidades

Apesar das propostas do governo, há críticas sobre a velocidade das mudanças. A Associação Portuguesa deHotéis (APH) pede mais investimento em programas de estágio e de capacitação contínua. "O setor precisa de mais tempo e mais recursos para formar profissionais", afirma João Ferreira. Além disso, há discussões sobre a possibilidade de atrair trabalhadores estrangeiros para compensar a escassez local.

Uma alternativa é a digitalização de processos. Algumas empresas estão investindo em sistemas automatizados para reduzir a dependência de mão de obra. "A tecnologia pode ser uma solução temporária, mas não resolve o problema de longo prazo", diz Maria Santos.

O que vem por aí

O governo pretende apresentar o plano de reformas no próximo mês, com a finalidade de lançar novas iniciativas até o final de 2024. As empresas do setor aguardam com expectativa, mas também com preocupação sobre a eficácia das medidas. A crise de talento não é apenas uma questão de recrutamento, mas de redefinir como o setor se prepara para o futuro.

Com a alta procura por turismo internacional, a capacidade de atrair e reter talentos será fundamental para manter a competitividade de Portugal. O próximo passo será ver se as propostas do governo serão suficientes para transformar a realidade do setor hoteleiro.

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Autor
Jornalista económica com 14 anos de experiência na cobertura de mercados financeiros e política monetária europeia. Formada em Economia pela Universidade do Porto, com pós-graduação em Jornalismo de Negócios pelo ISCTE. Colaborou com o Jornal de Negócios e a RTP Informação antes de integrar a redação do Minho Diário. Especializada em análise do BCE, taxas de juro e impacto macroeconómico nas famílias e empresas portuguesas.