Mercado do Etanol: Análise da Estrutura da Cadeia da Indústria de 2020 a 2024

Desde o início da década de 2020, o mercado do etanol tem vindo a experimentar uma transformação significativa, impulsionada por fatores económicos, ambientais e tecnológicos. Portugal, assim como outros países europeus, tem vindo a adaptar a sua estratégia energética para incorporar fontes renováveis, com o etanol a emergir como uma alternativa relevante aos combustíveis fósseis tradicionais. Este artigo realiza uma análise aprofundada da estrutura da cadeia de produção do etanol, identificando as principais dinâmicas, actores, desafios e oportunidades que marcaram o período de 2020 a 2024, numa tentativa de compreender as tendências que irão moldar o futuro desta indústria em Portugal e na União Europeia.

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Contexto e evolução do mercado do etanol em Portugal até 2020

Para compreender a estrutura atual do mercado do etanol, é fundamental analisar o contexto que precedeu o período de 2020. Portugal, enquanto país membro da União Europeia, tem vindo a alinhar a sua política energética com as metas de sustentabilidade e redução de emissões de gases com efeito de estufa. Desde o início dos anos 2010, o consumo de biocombustíveis, incluindo o etanol, tem vindo a crescer de forma consistente, apoiado por regulações europeias e nacionais.

O aumento do preço do petróleo, aliado às pressões ambientais e às metas de descarbonização, impulsionou o investimento na produção de biocombustíveis. Em 2019, Portugal produziu aproximadamente 150 milhões de litros de etanol, maioritariamente a partir de milho e beterraba açucareira, com uma capacidade instalada que ultrapassava os 200 milhões de litros anuais. Apesar dos avanços, a dependência de matérias-primas importadas e os custos de produção elevados continuam a representar desafios significativos para a competitividade do setor.

Estrutura da cadeia de produção do etanol em Portugal (2020-2024)

A cadeia de produção do etanol pode ser dividida em várias etapas principais: cultivo ou aquisição de matérias-primas, transformação, distribuição e utilização final. Cada uma destas fases apresenta dinâmicas específicas que influenciam a eficiência, sustentabilidade e rentabilidade do setor.

Matérias-primas e produção agrícola

A principal fonte de matérias-primas para a produção de etanol em Portugal continua a ser o milho, seguido pela beterraba açucareira e, em menor escala, pela cevada e trigo. Nos últimos anos, tem-se observado um aumento no cultivo de matérias-primas de origem nacional, embora a importação de milho continue a representar uma parcela significativa, devido à sua maior produtividade e custos mais competitivos.

Dados de 2023 indicam que aproximadamente 60% do milho utilizado na produção de etanol era importado de países como a Ucrânia e os Estados Unidos, enquanto a beterraba açucareira é cultivada principalmente em regiões do centro e sul do país, contribuindo para a sustentabilidade da cadeia agrícola local.

Transformação e produção de etanol

A transformação de matérias-primas em etanol é realizada através de processos de fermentação ou hidrólise enzimática, dependendo da matéria-prima. Em Portugal, a maioria das unidades industriais utiliza processos de fermentação alcoólica, que oferecem maior eficiência e menor impacto ambiental.

Nos últimos anos, o investimento em tecnologia de ponta tem permitido aumentar a eficiência dos processos e reduzir as emissões de gases de efeito de estufa. Empresas como a Biovale e a EcoFuel lideraram a adoção de tecnologias de última geração, aumentando a capacidade instalada e a produção de etanol de qualidade superior.

Distribuição e utilização final

Após a produção, o etanol é distribuído através de uma rede de postos de abastecimento autorizados, integrando-se no mercado de combustíveis com blends de até 10% de etanol (E10), conforme regulamentação europeia. Além disso, há uma crescente procura por misturas mais elevadas (como E85) para veículos flex-fuel, embora a sua adoção ainda seja limitada devido à infraestrutura insuficiente.

O mercado de transporte rodoviário representa cerca de 80% do consumo de etanol em Portugal, com uma tendência crescente para a utilização de biocombustíveis avançados em setores industriais e de aviação.

Principais actores e investimentos na cadeia do etanol (2020-2024)

O período de 2020 a 2024 evidenciou uma maior concentração de actores na cadeia do etanol, com empresas nacionais e internacionais a investirem em novas unidades de produção, bem como em projetos de expansão e inovação tecnológica.

  • Empresas produtoras: A Biovale, EcoFuel e GreenAgro são as principais produtoras de etanol em Portugal, com capacidade instalada combinada superior a 300 milhões de litros anuais.
  • Investidores internacionais: Fundos de investimento e empresas estrangeiras, sobretudo do Norte de África e da UE, têm vindo a estabelecer parcerias estratégicas para o desenvolvimento de projetos de biocombustíveis.
  • Instituições públicas e reguladoras: O governo português, através do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e do Ministério do Ambiente e Ação Climática, tem promovido incentivos fiscais e apoios à inovação no setor.

Nos últimos quatro anos, o investimento total na cadeia de produção de etanol em Portugal ultrapassou os 200 milhões de euros, com destaque para projetos de modernização industrial e pesquisa em matérias-primas alternativas, como resíduos agrícolas e resíduos urbanos.

Desafios enfrentados pela indústria do etanol em Portugal

Apesar do crescimento observado, o setor do etanol enfrenta diversos desafios que ameaçam a sua sustentabilidade e competitividade no mercado europeu.

Dependência de matérias-primas importadas

A elevada dependência de milho importado, sobretudo de países fora da União Europeia, representa vulnerabilidade face a flutuações de preços e a questões geopolíticas. A diversificação de matérias-primas, incluindo fontes de biomassa residual, é uma prioridade para reduzir essa dependência.

Custos de produção e competitividade

Os custos de produção, influenciados pelo preço da matéria-prima, energia e tecnologias de transformação, permanecem elevados. A competitividade do etanol português face a mercados externos, como o brasileiro ou o norte-americano, requer inovação e eficiência energética.

Infraestrutura de abastecimento e adoção de veículos flex-fuel

A insuficiente infraestrutura de postos de abastecimento com combustíveis com maior conteúdo de etanol limita a adoção de veículos flex-fuel. A expansão dessa rede é essencial para aumentar a quota de mercado do biocombustível.

Questões regulatórias e ambientais

As regulamentações europeias, embora favoráveis ao biocombustível, impõem requisitos rigorosos de sustentabilidade e de emissões de gases de efeito de estufa. Garantir que as matérias-primas sejam produzidas de forma sustentável é fundamental para evitar sanções e promover uma imagem positiva do setor.

Tendências e perspectivas para o mercado do etanol até 2024

O futuro do mercado do etanol em Portugal apresenta várias tendências promissoras, impulsionadas por avanços tecnológicos, políticas públicas e uma maior consciencialização ambiental.

  1. Expansão de capacidades de produção: Espera-se um aumento de pelo menos 30% na capacidade instalada até 2024, com novos projetos de unidades de produção mais sustentáveis e eficientes.
  2. Inovação em matérias-primas: A aposta na utilização de resíduos agrícolas, resíduos urbanos e matérias-primas de baixo impacto ambiental deverá crescer, contribuindo para a diversificação da cadeia.
  3. Adopção de combustíveis com maior conteúdo de etanol: A expansão de redes de abastecimento para blends superiores (E85) e veículos compatíveis deverá acelerar, apoiando a transição para uma mobilidade mais sustentável.
  4. Integração com outras fontes de energia renovável: A produção de etanol de segunda geração, integrada com projetos de energia solar e eólica, promete reduzir custos e aumentar a sustentabilidade.
  5. Políticas públicas de incentivo: A continuação de incentivos fiscais, apoios à inovação e regulamentos favoráveis será decisiva para consolidar o crescimento do setor.

Contudo, a concretização destas tendências dependerá de fatores como a estabilidade dos mercados internacionais de matérias-primas, a evolução das políticas ambientais europeias e a capacidade de inovação do setor português.

Em suma, o mercado do etanol em Portugal encontra-se numa fase de transição, com potencial para se tornar numa peça-chave na matriz energética sustentável do país, desde que sejam superados os desafios atuais e aposte na inovação e diversificação.

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Author
Mariana Costa
Especialista em mercados de capitais e investimento. Licenciada em Finanças pela Católica Lisbon School of Business and Economics, com CFA (Chartered Financial Analyst) e experiência em gestão de ativos. Mariana analisa o PSI-20, obrigações do Tesouro, fundos de investimento e a evolução da Euronext Lisbon. Contribui regularmente para publicações da área financeira e é comentadora de economia nos principais órgãos de comunicação social.