A evolução do mercado de baterias entre 2019 e 2023: uma análise regional aprofundada
No contexto da transição energética global e do crescimento acelerado de veículos elétricos, o mercado de baterias tem vindo a experimentar uma transformação sem precedentes entre 2019 e 2023. Esta análise concentra-se na evolução regional deste setor, abrangendo as Américas, Ásia-Pacífico (APAC), Europa e África, destacando os principais fatores que impulsionaram o crescimento, as estratégias adotadas por atores-chave e as projeções para o futuro próximo. O período de referência, 2020, serve como ponto de análise comparativa, permitindo compreender as dinâmicas e tendências que moldaram o mercado de baterias nesta fase de rápida expansão.
Dinâmicas globais e o impacto do contexto económico de 2020
O ano de 2020 marcou um ponto de inflexão para o setor de baterias, fortemente influenciado pela pandemia de COVID-19, que acelerou a procura por soluções de energia limpa e transporte sustentável. Apesar dos desafios logísticos e das interrupções na cadeia de abastecimento, o mercado de baterias registou um crescimento robusto, impulsionado por políticas governamentais de estímulo à transição energética e por um aumento na procura de veículos elétricos (VE). Utilizando dados de fontes como a Agência Internacional de Energia (AIE) e relatórios de mercado, verifica-se que o volume global de produção de baterias de íon-lítio atingiu aproximadamente 180 GWh em 2020, representando um crescimento de cerca de 20% face ao ano anterior.
Este crescimento foi suportado por investimentos massivos em capacidade de produção, especialmente na Ásia, que consolidou a sua posição dominante. A seguir, exploraremos de forma detalhada as tendências e dinamismos de cada região, analisando os fatores que contribuíram para o crescimento e os desafios enfrentados.
Americas: liderança e inovação na produção de baterias
As Américas, lideradas pelos Estados Unidos e Canadá, destacaram-se pelo investimento em inovação tecnológica e pela expansão da capacidade de produção de baterias. Os Estados Unidos, em particular, reforçaram a sua posição através de apoios governamentais, como o Plano de Infraestrutura de Biden, que prevê um investimento de mais de 100 mil milhões de dólares na cadeia de valor das baterias até 2025.
Em 2020, a região registou uma capacidade instalada de aproximadamente 45 GWh, representando cerca de 25% da produção global. As principais empresas, como a Tesla, LG Chem e Panasonic, continuaram a expandir as suas fábricas, enquanto novos players, incluindo startups de tecnologia limpa, entraram no mercado com soluções inovadoras.
Outro fator relevante foi o aumento da procura por veículos elétricos na América do Norte, apoiada por regulações mais rígidas de emissões e incentivos fiscais, que impulsionaram as vendas e, consequentemente, a necessidade de maior capacidade de armazenamento de energia. Além disso, o desenvolvimento de centros de investigação focados em baterias de estado sólido aponta para uma futura inovação que poderá alterar significativamente o mercado.
Ásia-Pacífico: o motor de crescimento e inovação tecnológica
A região da Ásia-Pacífico permanece como o principal centro de produção e inovação no setor de baterias, respondendo por mais de 70% da capacidade instalada global em 2020. A China, liderando este movimento, consolidou-se como o maior fabricante de baterias de íon-lítio, com uma capacidade que ultrapassou os 100 GWh, apoiada por políticas governamentais de apoio à indústria de veículos elétricos e à produção de componentes de energia renovável.
Empresas como CATL, BYD e LG Chem expandiram significativamente as suas operações, enquanto a Índia iniciou esforços para criar uma cadeia de valor própria, com investimentos em centros de pesquisa e fábricas de montagem. A Coreia do Sul, através de empresas como a Samsung SDI e LG Chem, também manteve uma presença forte, investindo em tecnologias de próxima geração, como as baterias de estado sólido e de lítio-azoto.
O crescimento nesta região foi também alimentado pela forte procura interna na China e na Índia, que visam reduzir a dependência das importações de combustíveis fósseis e promover a mobilidade sustentável. A estratégia de integração vertical, que envolve a produção de matérias-primas, componentes e montagem final, foi decisiva para manter a competitividade do setor na região.
Europa: o foco na sustentabilidade e na inovação regulatória
A Europa, apesar de apresentar uma capacidade de produção menor em comparação com a Ásia, registou um crescimento notável, impulsionado por políticas ambientais rigorosas e pelo compromisso de se tornar neutra em carbono até 2050. Países como a Alemanha, a França e a Noruega investiram em centros de pesquisa e desenvolvimento, bem como na criação de clusters industriais focados em baterias para veículos elétricos e armazenamento de energia.
Em 2020, a capacidade instalada na região atingiu cerca de 20 GWh, representando cerca de 11% do mercado global. As principais iniciativas incluem a instalação de gigafábricas por parte de fabricantes como a Northvolt, a Acciona e a Volkswagen, que visam diminuir a dependência de importações e promover a economia circular, através de programas de reciclagem de baterias.
Adicionalmente, as regulamentações ambientais europeias incentivaram a adoção de baterias de maior durabilidade e maior eficiência, estimulando a inovação na tecnologia de células e na gestão de ciclos de vida. A questão da sustentabilidade na cadeia de abastecimento, incluindo a origem de matérias-primas como o lítio e o cobalto, é uma prioridade, levando ao desenvolvimento de alternativas menos dependentes de minerais críticos.
África: oportunidades emergentes e desafios na cadeia de abastecimento
Apesar de ainda estar numa fase inicial de desenvolvimento no setor de baterias, a África apresenta potencial significativo, sobretudo devido às suas reservas de matérias-primas essenciais, como o lítio, cobalto e níquel. Países como o Zâmbia, o Zimbabué e a Namíbia estão a explorar a sua riqueza mineral, com o objetivo de integrar-se na cadeia de valor global e atrair investimentos estrangeiros.
No entanto, o continente enfrenta desafios consideráveis, incluindo a falta de infraestrutura, a instabilidade política e a ausência de uma cadeia de valor consolidada. Em 2020, a capacidade instalada de baterias na África era residual, estimada em menos de 1 GWh, mas há projetos em fase de desenvolvimento para criar hubs de mineração e montagem de componentes.
O interesse crescente de investidores internacionais, aliado a políticas de incentivos de alguns governos, pode impulsionar o setor nos próximos anos. Além disso, a África pode beneficiar de programas de transferência de tecnologia e de desenvolvimento de competências, essenciais para criar uma indústria de baterias sustentável e integrada.
Perspetivas futuras e tendências de mercado até 2023 e além
Com base na evolução observada entre 2019 e 2023, várias tendências emergem para o futuro do mercado de baterias. Entre elas, destacam-se:
- Expansão da capacidade de produção global: espera-se que a capacidade instalada ultrapasse os 300 GWh até 2025, com a Ásia mantendo a liderança, mas com crescimentos significativos na Europa e América do Norte.
- Avanços tecnológicos: as baterias de estado sólido, de lítio-azoto e outras tecnologias de próxima geração prometem maior densidade energética, maior segurança e menor impacto ambiental.
- Foco na sustentabilidade e na cadeia de abastecimento ética: a pressão por matérias-primas provenientes de fontes responsáveis leva ao desenvolvimento de alternativas menos dependentes de minerais críticos e à promoção de reciclagem e reutilização de baterias.
- Integração com sistemas de armazenamento de energia renovável: a crescente adoção de painéis solares e parques eólicos aumenta a procura por soluções de armazenamento de energia eficientes e de grande escala.
- Iniciativas políticas e regulamentares: os incentivos governamentais e as metas de neutralidade carbónica impulsionarão a procura e o investimento na cadeia de valor das baterias, estimulando a inovação e a competitividade global.
Perante este cenário, o mercado de baterias apresenta-se como um setor estratégico, com potencial para transformar o panorama energético mundial, impulsionando a economia circular, a inovação tecnológica e a sustentabilidade ambiental. A dinâmica regional, embora diversa, convergirá para uma crescente integração e cooperação, essenciais para enfrentar os desafios de uma transição energética global eficaz.


