Minho Diário AMP
Europa

Yara alerta: guerra no Irão pode escassear alimentos em África

— Sofia Rodrigues 7 min read

A empresa norueguesa Yara, líder mundial na produção de fertilizantes, alertou que um conflito prolongado no Irão pode desencadear uma grave escassez de alimentos em vários países africanos. O aviso foi feito por Svein Tore Holsether, diretor executivo da empresa, destacando a vulnerabilidade da cadeia de abastecimento global face às tensões geopolíticas no Médio-Oriente.

Esta situação coloca em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas que dependem das importações de insumos agrícolas para manter a produtividade das suas colheitas. A interligação entre o preço do petróleo, o custo do transporte marítimo e a disponibilidade de ureia torna a situação extremamente volátil para os mercados emergentes.

O papel central da Yara na agricultura global

A Yara International é reconhecida como uma das maiores fornecedoras de fertilizantes no mercado internacional. A empresa produz uma mistura complexa de nutrientes essenciais, como nitrogénio, fósforo e potássio, que são fundamentais para o crescimento das plantas. Sem estes insumos, a produtividade agrícola cai drasticamente, levando a preços mais elevados nos mercados locais.

Em Portugal, a presença da Yara é significativa, com operações que influenciam o custo dos produtos agrícolas e a eficiência do setor. A empresa possui uma refinaria estratégica em Sines, que processa o gás natural para produzir amónia e, posteriormente, ureia. Esta infraestrutura é vital não apenas para o mercado interno português, mas também para as exportações para a Europa e para a costa ocidental de África.

A análise do impacto da Yara em Portugal revela como as decisões tomadas em Oslo ou em Houston podem afetar diretamente o agricultor no Alentejo ou no Ribatejo. A estabilidade dos preços dos fertilizantes depende da eficiência logística e da estabilidade política nas rotas de abastecimento de matérias-primas, como o gás natural e o petróleo.

Como o conflito no Irão afeta a cadeia de abastecimento

O Irão ocupa uma posição geográfica crucial para o comércio global, controlando o Estreito de Ormuz, por onde passa uma fração significativa do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) mundial. Qualquer interrupção neste estreito provoca um aumento imediato nos preços do combustível, o que eleva o custo do transporte marítimo de grãos e fertilizantes.

Impacto nos custos de produção agrícola

Quando o preço do petróleo sobe, o custo do transporte de fertilizantes aumenta, mas também o preço do próprio nitrogénio, que é derivado do gás natural. A Yara indica que a volatilidade no Médio-Oriente pode fazer com que o preço da ureia suba entre 15% e 25% nos primeiros meses de um conflito aberto. Este aumento de custo é muitas vezes repassado ao agricultor, que pode decidir reduzir a quantidade de fertilizante aplicado por hectare.

A redução na aplicação de fertilizante leva a uma diminuição no rendimento das colheitas. Em países africanos onde a margem de lucro do agricultor é fina, uma queda de 10% na produção pode significar a diferença entre o excedente para venda e a necessidade de importar trigo ou milho para alimentar a população urbana.

A vulnerabilidade específica de África

África é o continente mais dependente das importações de fertilizantes para manter a sua produção agrícola. Muitos países africanos importam até 80% dos seus insumos agrícolas, tornando-os extremamente sensíveis às flutuações nos mercados globais. A Yara destaca que a falta de fundos e de infraestruturas de armazenamento torna a situação ainda mais crítica para nações como o Quénia, a Etiópia e o Nigéria.

A segurança alimentar em África já está sob pressão devido às alterações climáticas e à inflação pós-pandemia. A adição de uma crise geopolítica no Médio-Oriente atua como um multiplicador de riscos. Se o preço dos fertilizantes subir e a disponibilidade diminuir, os governos africanos podem ser forçados a subsidiar os preços, o que coloca uma pressão adicional nas suas contas públicas, muitas vezes já endividadas.

A análise de como o Irão afeta Portugal e o resto do mundo mostra que a crise não é isolada. A dependência de importações é uma característica partilhada por muitas economias europeias e africanas. A interligação dos mercados significa que uma decisão de stockagem de fertilizante na China ou uma greve nos portos do Mediterrâneo pode ter efeitos em cadeia que chegam às fazendas no sul de África.

Respostas do mercado e estratégias de mitigação

Frente a estes riscos, a Yara e outras empresas do setor estão a adotar estratégias de diversificação de fornecedores e de aumento das reservas estratégicas. A empresa norueguesa tem investido em tecnologias para tornar a produção de fertilizantes mais eficiente e menos dependente do gás natural tradicional, como a utilização de energia renovável para produzir hidrogénio verde.

Os governos europeus, incluindo o de Portugal, têm observado a situação de perto. A União Europeia tem discutido a criação de um mercado único de fertilizantes para garantir o abastecimento durante crises externas. Esta medida visa reduzir a dependência de fornecedores únicos e estabilizar os preços para os agricultores europeus, o que, por sua vez, afeta a competitividade das exportações agrícolas europeias para África.

Para os investidores e para o setor agrícola, a lição é a necessidade de flexibilidade. A capacidade de ajustar as culturas plantadas em função do custo dos insumos e a negociação de contratos de longo prazo com fornecedores como a Yara tornam-se ferramentas essenciais para gerir o risco. A transparência na comunicação das cadeias de abastecimento é outro fator crítico para evitar pânico no mercado.

Implicações para a política agrícola portuguesa

Portugal, como membro da União Europeia e parceiro histórico de várias nações africanas, tem um papel a jogar na estabilização dos mercados agrícolas. A análise de como a Yara afeta Portugal mostra que a eficiência da refinaria de Sines é um ativo estratégico nacional. Manter esta unidade competitiva e integrada nas rotas de exportação para a África Ocidental pode ajudar a garantir o abastecimento de fertilizantes para parceiros comerciais importantes.

Além disso, a política agrícola comum (PAC) da Europa pode ser ajustada para dar mais apoio aos agricultores face à volatilidade dos preços dos insumos. Isto inclui subsídios diretos ao custo do fertilizante ou incentivos à adoção de práticas agrícolas mais eficientes no uso de nutrientes. Estas medidas podem ajudar a amortecer o impacto de choques externos, como o conflito no Irão.

A colaboração entre Portugal e os países africanos na área da investigação agrícola e na logística de abastecimento pode também ser reforçada. Partilhar conhecimento sobre a gestão de fertilizantes e a otimização do uso de água pode aumentar a resiliência das culturas africanas face às mudanças climáticas e às crises de abastecimento. Esta abordagem de parceria estratégica pode beneficiar ambos os lados, garantindo fluxos comerciais mais estáveis.

Projeções futuras e o que esperar

Os especialistas da Yara indicam que a situação no Médio-Oriente permanecerá volátil nos próximos meses. Se o conflito no Irão se intensificar, é provável que vejamos um aumento significativo nos preços dos fertilizantes e uma maior competição pelo abastecimento. Os países africanos serão alguns dos primeiros a sentir os efeitos desta escassez, especialmente se não tiverem reservas estratégicas bem geridas.

Para os leitores em Portugal e em África, a atenção deve estar voltada para os anúncios de política económica dos principais produtores de fertilizantes e para as decisões dos governos sobre subsídios agrícolas. O acompanhamento dos preços do petróleo e do gás natural será essencial para antecipar as flutuações nos custos de produção agrícola. A próxima reunião do conselho de administração da Yara e os relatórios trimestrais da FAO serão indicadores-chave para avaliar a evolução da crise.

Share:
#Mercado #Crescimento #Para #Como #Global #Mais #Produtos #Setor #Empresas #Exportações

Read the full article on Minho Diário

Full Article →