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Agricultura

Simon Fisher: Morreu o Mediador que Ajudou a Transformar a Gestão de Conflitos em África

— Inês Almeida 4 min read

Simon Fisher faleceu aos 67 anos, deixando um vazio profundo no campo da resolução de conflitos internacionais. Nascido em Bristol, Fisher dedicou mais de três décadas a trabalhar directamente com comunidades afectadas por violência e guerra, tornando-se uma figura central na formação de mediadores e na criação de ferramentas práticas para gerir tensões sociais.

Origens e Formação Académica

Fisher cresceu em Bristol e estudou na Universidade local antes de se juntar ao Woodbrooke College, em Birmingham, uma instituição conhecida pelo seu compromisso com a paz e a justiça social. Essa formação moldeou a abordagem única que viria a desenvolver no trabalho de campo. O seu método combinava teoria académica com experiência prática no terreno, algo raro na altura.

Ao longo da carreira, Fisher nunca abandonou a ligação a Birmingham. Regressava regularmente ao Woodbrooke College para conduzir workshops e partilhar conhecimento com novas gerações de mediadores. Muitos dos seus alunos viriam a ocupar posições de liderança em organizações humanitárias pelo mundo inteiro.

O Trabalho no Terreno

Durante os anos 90, Fisher passou períodos prolongados em zonas de conflito em África. Trabalhou com comunidades divididas por guerras civis, ajudou a facilitar diálogos entre grupos rivais e desenvolveu técnicas que ainda hoje são ensinadas em centros de formação. O seu trabalho na Libéria e na Serra Leoa ficou particularmente marcado na memória dos colegas.

A abordagem de Fisher distinguia-se pela recusa em impor soluções externas. Em vez disso, o mediador trabalhava com as estruturas já existentes nas comunidades, fortalecendo a capacidade local de gestão de conflitos. Esse método lento mas profundo revelou-se mais eficaz a longo prazo do que as intervenções rápidas.

A Metodologia Responding

Uma das maiores contribuições de Fisher foi o desenvolvimento da metodologia Responding. O framework, criado em parceria com colegas do Woodbrooke College, oferece um conjunto de ferramentas práticas para quem trabalha em situações de violência. A metodologia concentra-se em cinco fases: prevenir, preparar, conter, resolver e transformar.

O Responding tornou-se referência em organizações como a Cruz Vermelha e a ONU. Fisher apresentou o modelo em conferências internacionais e publicou manuais que continuam a ser usados como base para programas de formação. A metodologia permitiu que mediadores com menos experiência entrassem em zonas de conflito com maior segurança e eficácia.

Legado e Reconhecimento

Fisher nunca procurou reconhecimento público. Recusou várias nomeações para prémios e preferiu permanecer nos bastidores, deixando que o seu trabalho falasse por si. No entanto, colegas e organizações de paz lamentaram publicamente a sua morte, destacando a influência que exerceu nas suas carreiras.

O director do Woodbrooke College descreveu Fisher como «um dos pensadores mais brilhantes e humildes que a instituição já produziu». Em comunicado, a instituição prometeu continuar a promover os métodos que Fisher desenvolveu ao longo de décadas de trabalho. Os arquivos do seu trabalho serão digitalizados para ficar disponíveis a investigadores.

Impacto em Portugal e nos PALOP

O trabalho de Fisher chegou a Portugal e aos países africanos de língua portuguesa através de parcerias entre o Woodbrooke College e organizações locais. Formadores portugueses participaram em cursos ministrados por Fisher e adaptaram a metodologia Responding a contextos específicos. Esse impacto continua a ser sentido em projectos de paz em Angola e Moçambique.

Especialistas em resolução de conflitos em Lisboa confirmaram que as ferramentas desenvolvidas por Fisher ainda são amplamente utilizadas. «O framework que ele criou permite-nos actuar de forma estruturada sem perder de vista a HUMANIDADE de cada situação», escreveu um destes especialistas em publicação especializada. Esse equilíbrio entre rigor e empatia define o método Fisher.

Os Últimos Anos

Nos últimos anos, Fisher enfrentou problemas de saúde mas continuou a escrever e a aconselhar organizações. Viajou menos, mas mantinha-se disponível para consultas e revisões de texto. O seu último livro, publicado em 2023, reunia lições aprendidas em quatro décadas de trabalho no terreno.

A cerimónia fúnebre decorreu em Birmingham, reunindo familiares, colegas e antigos alunos. Em vez de flores, a família pediu donativos para o fundo de bolsas do Woodbrooke College que financia a formação de mediadores de países em desenvolvimento. A primeira bolsa Simon Fisher será atribuída já no próximo ano lectivo.

Como Continuar o Trabalho

O desafio agora está nas mãos de quem aprendeu com Fisher. O Woodbrooke College anunciou que vai organizar uma conferência anual em memória do mediador, reunindo practitioners e académicos para debater o futuro da resolução de conflitos. A primeira edição está marcada para Fevereiro.

Os ficheiros digitais de Fisher estão a ser organizados por uma equipa de antigos colaboradores. A expectativa é que todo o material fique disponível online até ao final do ano. Enquanto isso, organizações que utilizam o framework Responding preparam actualizações para manter as ferramentas relevantes. O trabalho continua.

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