Simon Fisher: Morreu o Mediador que Ajudou a Transformar a Gestão de Conflitos em África
Simon Fisher faleceu aos 67 anos, deixando um vazio profundo no campo da resolução de conflitos internacionais. Nascido em Bristol, Fisher dedicou mais de três décadas a trabalhar directamente com comunidades afectadas por violência e guerra, tornando-se uma figura central na formação de mediadores e na criação de ferramentas práticas para gerir tensões sociais.
Origens e Formação Académica
Fisher cresceu em Bristol e estudou na Universidade local antes de se juntar ao Woodbrooke College, em Birmingham, uma instituição conhecida pelo seu compromisso com a paz e a justiça social. Essa formação moldeou a abordagem única que viria a desenvolver no trabalho de campo. O seu método combinava teoria académica com experiência prática no terreno, algo raro na altura.
Ao longo da carreira, Fisher nunca abandonou a ligação a Birmingham. Regressava regularmente ao Woodbrooke College para conduzir workshops e partilhar conhecimento com novas gerações de mediadores. Muitos dos seus alunos viriam a ocupar posições de liderança em organizações humanitárias pelo mundo inteiro.
O Trabalho no Terreno
Durante os anos 90, Fisher passou períodos prolongados em zonas de conflito em África. Trabalhou com comunidades divididas por guerras civis, ajudou a facilitar diálogos entre grupos rivais e desenvolveu técnicas que ainda hoje são ensinadas em centros de formação. O seu trabalho na Libéria e na Serra Leoa ficou particularmente marcado na memória dos colegas.
A abordagem de Fisher distinguia-se pela recusa em impor soluções externas. Em vez disso, o mediador trabalhava com as estruturas já existentes nas comunidades, fortalecendo a capacidade local de gestão de conflitos. Esse método lento mas profundo revelou-se mais eficaz a longo prazo do que as intervenções rápidas.
A Metodologia Responding
Uma das maiores contribuições de Fisher foi o desenvolvimento da metodologia Responding. O framework, criado em parceria com colegas do Woodbrooke College, oferece um conjunto de ferramentas práticas para quem trabalha em situações de violência. A metodologia concentra-se em cinco fases: prevenir, preparar, conter, resolver e transformar.
O Responding tornou-se referência em organizações como a Cruz Vermelha e a ONU. Fisher apresentou o modelo em conferências internacionais e publicou manuais que continuam a ser usados como base para programas de formação. A metodologia permitiu que mediadores com menos experiência entrassem em zonas de conflito com maior segurança e eficácia.
Legado e Reconhecimento
Fisher nunca procurou reconhecimento público. Recusou várias nomeações para prémios e preferiu permanecer nos bastidores, deixando que o seu trabalho falasse por si. No entanto, colegas e organizações de paz lamentaram publicamente a sua morte, destacando a influência que exerceu nas suas carreiras.
O director do Woodbrooke College descreveu Fisher como «um dos pensadores mais brilhantes e humildes que a instituição já produziu». Em comunicado, a instituição prometeu continuar a promover os métodos que Fisher desenvolveu ao longo de décadas de trabalho. Os arquivos do seu trabalho serão digitalizados para ficar disponíveis a investigadores.
Impacto em Portugal e nos PALOP
O trabalho de Fisher chegou a Portugal e aos países africanos de língua portuguesa através de parcerias entre o Woodbrooke College e organizações locais. Formadores portugueses participaram em cursos ministrados por Fisher e adaptaram a metodologia Responding a contextos específicos. Esse impacto continua a ser sentido em projectos de paz em Angola e Moçambique.
Especialistas em resolução de conflitos em Lisboa confirmaram que as ferramentas desenvolvidas por Fisher ainda são amplamente utilizadas. «O framework que ele criou permite-nos actuar de forma estruturada sem perder de vista a HUMANIDADE de cada situação», escreveu um destes especialistas em publicação especializada. Esse equilíbrio entre rigor e empatia define o método Fisher.
Os Últimos Anos
Nos últimos anos, Fisher enfrentou problemas de saúde mas continuou a escrever e a aconselhar organizações. Viajou menos, mas mantinha-se disponível para consultas e revisões de texto. O seu último livro, publicado em 2023, reunia lições aprendidas em quatro décadas de trabalho no terreno.
A cerimónia fúnebre decorreu em Birmingham, reunindo familiares, colegas e antigos alunos. Em vez de flores, a família pediu donativos para o fundo de bolsas do Woodbrooke College que financia a formação de mediadores de países em desenvolvimento. A primeira bolsa Simon Fisher será atribuída já no próximo ano lectivo.
Como Continuar o Trabalho
O desafio agora está nas mãos de quem aprendeu com Fisher. O Woodbrooke College anunciou que vai organizar uma conferência anual em memória do mediador, reunindo practitioners e académicos para debater o futuro da resolução de conflitos. A primeira edição está marcada para Fevereiro.
Os ficheiros digitais de Fisher estão a ser organizados por uma equipa de antigos colaboradores. A expectativa é que todo o material fique disponível online até ao final do ano. Enquanto isso, organizações que utilizam o framework Responding preparam actualizações para manter as ferramentas relevantes. O trabalho continua.
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