Paulo Rosado critica burocracia europeia e exige ação urgente em Lisboa
O fundador da OutSystems, Paulo Rosado, lançou um alerta direto sobre a capacidade de crescimento das empresas em Portugal e no resto da Europa. A crítica foca-se na excessiva regulação e nos entraves estruturais que, segundo ele, estão a sufocar a inovação e a competitividade regional face aos gigantes norte-americanos e asiáticos. Esta intervenção ocorre num momento crucial para a economia portuguesa, que tenta consolidar a sua posição tecnológica enquanto lidada com desafios inflacionários e de produtividade.
O diagnóstico da liderança tecnológica
Paulo Rosado não economizou palavras ao descrever o cenário atual. A sua análise vai além das queixas habituais sobre impostos, apontando para uma estrutura de governação e regulamentação que parece desenhada para a estabilidade em vez da velocidade. Para uma empresa de tecnologia que opera no ritmo acelerado do mercado global, essa lentidão pode ser fatal. A mensagem é clara: sem uma mudança de paradigma na forma como os Estados gerem as suas economias, o risco de estagnação aumenta exponencialmente.
A OutSystems é um caso de estudo de sucesso português. A empresa, com sede em Lisboa e presença global, tornou-se uma das maiores empresas de software de Europa fora do Vale do Silício. Este sucesso demonstra que o talento e a qualidade do produto não faltam em Portugal. O problema, segundo a perspetiva de Rosado, reside nos mecanismos que permitem ou dificultam a escalabilidade desse sucesso inicial. A capacidade de crescer depende tanto da inovação interna quanto da liberdade externa para operar.
Os entraves estruturais na Europa
A burocracia é frequentemente citada como o inimigo número um da empresa média europeia. Em Portugal, este fenómeno é agravado pela sobreposição de camadas de regulamentação vinda de Bruxelas e aplicada pelos governos nacionais. Cada nova diretiva europeia exige uma tradução legislativa local, o que muitas vezes introduz nuances e atrasos que complicam o dia a dia dos gestores. Este custo oculto do tempo e da atenção dirige-se diretamente para a competitividade das empresas.
O custo do tempo administrativo
O tempo gasto por um gestor português em questões administrativas é superior à média da Zona Euro. Estudos recentes indicam que as empresas gastam, em média, mais de 200 horas por ano em papelada, comparado com cerca de 150 horas nos Estados Unidos. Esta diferença pode parecer pequena, mas quando multiplicada por milhares de empresas e centenas de milhares de gestores, o impacto na produtividade agregada é enorme. Cada hora perdida em preenchimento de formulários é uma hora que não foi dedicada à inovação, ao cliente ou à expansão de mercado.
Além disso, a incerteza regulatória cria um ambiente onde o risco é penalizado. As empresas hesitam em investir a longo prazo quando as regras do jogo podem mudar com cada nova legislatura ou diretiva europeia. Esta aversão ao risco leva a que o capital fique retido em ativos seguros, como a habitação, em vez de fluir para setores dinâmicos como a tecnologia ou a indústria transformadora. O resultado é uma economia menos flexível e mais dependente de setores tradicionais.
O contraste com o modelo norte-americano
É impossível analisar a crítica de Rosado sem comparar a realidade europeia com a dos Estados Unidos. Nos EUA, o mercado de trabalho é mais flexível, a tributação das sociedades é frequentemente mais baixa e o acesso ao capital de risco é mais ágil. Empresas como a OutSystems tiveram a oportunidade de crescer rapidamente precisamente porque conseguiram atrair investimento e talento num ambiente que recompensa a velocidade. A Europa, por outro lado, tende a proteger o status quo, o que pode ser uma vantagem para o trabalhador individual, mas um obstáculo para a dinâmica do mercado.
Esta diferença de modelos tem implicações diretas na atração de talento. Os jovens profissionais qualificados em Portugal olham para o mercado internacional e veem oportunidades de crescimento mais rápidas e recompensas financeiras mais altas. Se a estrutura econômica local não oferecer um caminho claro para a ascensão profissional e financeira, o fenómeno da fuga de cérebros continuará a ser uma das principais preocupações demográficas e económicas do país. Manter o talento exige mais do que salários competitivos; exige um ambiente onde se sinta que se pode construir algo de grande escala.
As implicações para a economia portuguesa
Para Portugal, as palavras de Paulo Rosado servem como um espelho. O país tem feito avanços significativos nas últimas décadas, com melhorias no PIB per capita e no índice de desenvolvimento humano. No entanto, para saltar da classe média para a elite económica europeia, são necessárias reformas estruturais profundas. A dependência de fundos europeus é uma vantagem temporária, mas não substitui a necessidade de uma base industrial e tecnológica robusta e competitiva. A sustentabilidade do crescimento futuro dependerá da capacidade de gerar valor interno.
O setor das tecnologias de informação e comunicação (TIC) é um dos pilares da economia moderna. Em Portugal, este setor representa uma fatia crescente do valor acrescentado bruto e do emprego qualificado. Se as grandes empresas de tecnologia sentem os efeitos da burocracia, as pequenas e médias empresas (PMEs), que constituem a espinha dorsal da economia portuguesa, sentem-nos com ainda mais intensidade. Para uma PME, cada dia de atraso na aprovação de um contrato ou na libertação de um crédito pode significar a diferença entre o lucro e o lucro mínimo, ou até mesmo a sobrevivência.
A necessidade de uma agenda de reformas
A crítica não é apenas um gesto de frustração, mas um chamado à ação. As reformas necessárias passam pela simplificação do código do trabalho, pela digitalização efetiva da administração pública e pela criação de regimes fiscais que incentivem o investimento de longo prazo. Não se trata apenas de cortar impostos, mas de tornar o sistema mais previsível e eficiente. Os investidores valorizam a certeza. Saber que as regras não mudarão arbitrariamente permite planejar com maior confiança e arriscar com maior inteligência.
Os governos em Lisboa e nas capitais europeias têm a oportunidade de liderar esta mudança. A concorrência entre nações para atrair investimento direto estrangeiro está a intensificar-se. Países como a Irlanda, a Estónia e até a Polónia têm sabido aproveitar as suas vantagens comparativas para se tornarem polos de atração de empresas tecnológicas. Portugal tem o talento, a localização geográfica estratégica e uma infraestrutura de telecomunicações de ponta. Faltam agora as políticas públicas que removam os obstáculos que impedem esse potencial de se traduzir em resultados económicos concretos e sustentáveis.
Os desafios da integração europeia
A União Europeia tenta harmonizar o mercado único, mas a implementação das diretivas varia de país para país. Esta fragmentação cria um mercado que é, na prática, uma coleção de mercados nacionais com regras ligeiramente diferentes. Para uma empresa que quer escalar rapidamente por toda a Europa, esta falta de uniformidade é um custo adicional significativo. A crítica de Rosado toca neste ponto sensível: a Europa precisa de ser mais do que um mercado de consumo; precisa de ser um ecossistema de inovação coeso. Isto exige uma vontade política forte para ceder algumas soberanias nacionais em troca de uma eficiência coletiva maior.
Além disso, a questão da competitividade face aos gigantes tecnológicos dos EUA e da China é cada vez mais premente. Estas empresas beneficiam de economias de escala e de ecossistemas de investimento que as empresas europeias, muitas vezes fragmentadas, têm dificuldade em igualar. A resposta europeia tem sido, por vezes, a criação de monolitos regulatórios, como o ato digital de mercados, que visa controlar o poder das grandes empresas. Embora esta seja uma medida necessária para proteger os consumidores e a concorrência, corre-se o risco de asfixiar a inovação se não for acompanhada de medidas que fomentem o surgimento de novos concorrentes locais. O equilíbrio entre regulação e liberdade é delicado e requer uma atenção constante.
O papel do setor privado na mudança
Embora a responsabilidade recaia em grande medida sobre os Estados, o setor privado também tem um papel a desempenhar. As associações empresariais precisam de unir as suas vozes para defender uma agenda comum, em vez de lutar por benefícios setoriais isolados. O exemplo de empresas como a OutSystems, que têm projeção internacional, serve de inspiração e de pressão sobre os decisores políticos. Quando os líderes de mercado falam, os governos tendem a ouvir, especialmente quando há evidências concretas de que as políticas atuais estão a gerar resultados mistos. A articulação entre o setor público e o privado é fundamental para desenhar soluções que funcionem na prática, e não apenas no papel.
Os investidores também precisam de pressionar as empresas a adotarem melhores práticas de governação e eficiência operacional. A competitividade não depende apenas do ambiente externo, mas também da capacidade interna das empresas de se adaptarem e inovarem. Empresas que conseguem automatizar processos, reduzir a dependência de mão de obra qualificada escassa e aproveitar as novas tecnologias terão uma vantagem competitiva, independentemente da burocracia. No entanto, mesmo as empresas mais eficientes sofrem quando o ambiente macroeconómico é hostil. A sinergia entre a eficiência microeconómica e a estabilidade macroeconómica é o caminho para o crescimento sustentado.
Próximos passos e o que observar
As próximas eleições europeias e as movimentações nos governos nacionais serão momentos-chave para avaliar se estas críticas serão levadas a sério. Os cidadãos e os investidores devem observar com atenção as propostas de lei relacionadas com a simplificação administrativa e a política fiscal. A implementação concreta das medidas anunciadas será mais reveladora do que os discursos proferidos durante as campanhas eleitorais. O tempo é o recurso mais escasso para as empresas de tecnologia, e a janela de oportunidade para a Europa assumir a liderança em setores estratégicos está a fechar-se. A ação urgente é necessária para garantir que o talento e o investimento continuem a fluir para a região, consolidando o futuro económico de Portugal e da Europa.
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