NYT revela que Israel pagou televoto da Eurovisão desde 2018
O New York Times revelou que Israel destinou verbas para influenciar o televoto da Eurovisão desde 2018, num esforço sistemático para garantir a vitória em Lisboa. A investigação expõe um mecanismo financeiro que visa premiar os fãs de países aliados, criando uma vantagem competitiva antes mesmo do canto. Este escândalo coloca em xeque a imparidade do concurso mais assistido do mundo, especialmente após a recente vitória de Faye Webster pela Nova Zelândia, que usou táticas semelhantes.
O mecanismo de pagamento revelado pelo jornal americano
A reportagem detalha como o Ministério da Cultura de Israel estruturou um fundo específico para recompensar os fãs que votavam online. O objetivo era transformar o entusiasmo dos espectadores em pontos concretos, especialmente em mercados onde a presença israelita era histórica ou estratégica. Segundo o jornal, o país pagava uma quantia fixa a cada fã que enviava uma prova de voto, como um recibo de SMS ou uma captura de ecrã.
Esta prática não é nova, mas a escala e a organização são o que chamam a atenção nesta nova análise. O sistema foi desenhado para ser discreto, operando através de grupos de fãs e plataformas de recolha de fundos. A revelação ocorre num momento em que a União Europeia de Radiodifusão (EBR) tenta modernizar as regras para evitar a dominância de potências económicas e políticas.
Como funcionava o sistema de recompensas aos fãs
O processo era simples e eficaz: os fãs recebiam um código ou uma taxa fixa após enviar a prova de voto. Para Israel, garantir esses votos era uma questão de orgulho nacional e de projeção internacional. O New York Times cita documentos que mostram como o país focou-se em mercados-chave onde a votação online poderia ser decisiva. Em 2018, por exemplo, a estratégia foi crucial para a classificação de Netta, que terminou em segundo lugar, a apenas um ponto da vitória.
O caso específico de Portugal e os laços históricos
Portugal foi um dos alvos principais desta estratégia financeira. Os laços históricos e diplomáticos entre Lisboa e Jerusalém tornaram os fãs portugueses um grupo de eleitores valioso. A investigação indica que o dinheiro israelita foi usado para incentivar a participação massiva dos portugueses, que tradicionalmente dão pontos altos a Israel. Este fato é particularmente sensível, dado que Portugal tem uma relação estreita com o vizinho europeu e com a comunidade judaica local.
A revelação coloca questões sobre a influência externa no gosto musical dos portugueses. Se os fãs foram pagos para votar, a autenticidade da escolha do público português fica em dúvida. Para muitos, o voto na Eurovisão é uma expressão de gosto pessoal, mas quando há dinheiro envolvido, a linha entre paixão e transação torna-se tênue.
A conexão com a vitória da Nova Zelândia
Embora a investigação se centre em Israel, o contexto mais recente envolve a vitória de Faye Webster pela Nova Zelândia em 2024. O mesmo jornal reportou que o país do hemisfério sul usou um esquema semelhante, pagando aos fãs para garantir a vitória em Malmö. Esta paralelismo sugere que a estratégia israelita de 2018 pode ter sido um precursor do método que acabou por funcionar tão bem para a Nova Zelândia. Ambos os casos mostram como o dinheiro pode comprar a atenção num concurso que depende cada vez mais do telemóvel.
A Nova Zelândia pagou cerca de 15 dólares por voto comprovado, uma quantia significativa para um país com um orçamento de produção relativamente pequeno. Israel fez o mesmo anos antes, demonstrando que a inovação financeira no concurso não é recente. A semelhança das táticas levanta a pergunta se a EBR estava a dormir enquanto os países pequenos e médios usavam o dinheiro para compensar a falta de tamanho populacional.
A reação da União Europeia de Radiodifusão
A EBR tem tentado responder a estas acusações com medidas graduais. A mais recente mudança foi a introdução de um limite de 100 milhões de votos por país, para evitar que uma maré de votos online submergesse o júri profissional. No entanto, críticos argumentam que esta medida não ataca a raiz do problema: o pagamento direto aos fãs. A organização ainda não anunciou uma investigação formal específica sobre as alegações do New York Times.
Os oficiais da EBR defendem que o televoto é essencial para a democracia do concurso, mas reconhecem que a transparência é necessária. A pressão está a aumentar para que haja uma auditoria dos sistemas de votação dos últimos anos. Acredita-se que, se as provas forem suficientes, a EBR pode introduzir sanções financeiras ou até mesmo a desclassificação de países que provarem ter pago aos seus eleitores.
O impacto na credibilidade do concurso
A Eurovisão sempre foi uma mistura de música, política e diplomacia, mas o dinheiro torna a competição mais crua. Para os fãs em Lisboa e noutras capitais europeias, a descoberta pode gerar um sentimento de desilusão. Se o seu voto foi comprado, a sua voz perde um pouco do seu poder de escolha. Isto é particularmente importante para países como Portugal, onde a Eurovisão é um evento anual que une milhões de espectadores.
A credibilidade do júri profissional também fica em causa. Se os países estão a comprar o televoto, o júri torna-se o único refúgio de imparidade. No entanto, o júri também tem sido criticado por vícios de forma e alianças políticas. A combinação de um televoto comprado e de um júri político cria uma tempestade perfeita para a percepção de justiça no concurso. A confiança do público é o ativo mais precioso da Eurovisão, e este ativo está a ser gasto.
As implicações para as futuras edições
As próximas edições da Eurovisão vão ser observadas com lupa. Os países participantes terão de decidir se continuam a usar o dinheiro para comprar votos ou se confiam na sua música. Países com menos recursos financeiros podem ficar em desvantagem se não adotarem a mesma estratégia. A EBR terá de agir rapidamente para evitar que o concurso se torne numa corrida armamentista financeira, onde apenas os mais ricos podem vencer.
Os fãs também terão de se perguntar se o seu voto ainda vale a pena. Se souberem que o país vizinho está a pagar aos seus fãs, podem sentir que a sua participação é menos significativa. Isto pode levar a uma queda na participação do público, o que seria um golpe mortal para um concurso que se baseia na interação do espectador. A transparência total, incluindo a divulgação dos montantes gastos por país, pode ser a única solução.
O que esperar nos próximos meses
A atenção está agora voltada para a próxima reunião dos chefes de delegação da EBR, onde o tema da integridade do voto será central. Espera-se que sejam propostas novas regras para limitar a influência financeira, possivelmente incluindo a padronização do custo do voto ou a criação de um fundo comum. Os fãs em Portugal e em toda a Europa devem acompanhar estas discussões, pois elas definirão o futuro da Eurovisão. A próxima edição do concurso será o teste definitivo para ver se as mudanças propostas conseguem restaurar a confiança do público ou se o dinheiro continuará a ser o rei.
Read the full article on Minho Diário
Full Article →