Morre Simon Fisher, Especialista em Resolução de Conflitos aos 58 Anos
Simon Fisher, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na resolução de conflitos e mediação em zonas de guerra, morreu no passado dia 14 de novembro em Bristol, aos 58 anos. O especialista britânico leaves um legado que moldou gerações de profissionais na área da paz e da negociação.
Início e Formação Académica
Fisher nasceu em Birmingham em 1966 e licenciou-se em Ciências Políticas pela Universidade de Bristol em 1988. Durante os anos universitários, desenvolveu um interesse particular pelos conflitos étnicos no Leste da Europa e no Médio Oriente. Em 1992, obteve um mestrado em Mediação de Conflitos pela Universidade de Bradford, instituição que viria a tornar-se sua aliada em múltiples projetos ao longo de duas décadas.
Os primeiros anos da sua carreira levou-o ao Kosovo, onde trabalhou como mediador para organizações não-governamentais durante os conflitos da década de 1990. Essa experiência no terreno viria a definir a sua abordagem prática aos estudos de paz.
Carreira no Woodbrooke College
Em 2001, Fisher juntou-se ao Woodbrooke College em Birmingham como docente e investigador principal no departamento de Resolução de Conflitos. Durante os 19 anos que passou naquela instituição Quaker, formou mais de 400 estudantes de todo o mundo. O colégio, fundado em 1843, tornou-se um centro europeu de referência para o estudo da mediação e da transformação de conflitos.
"Simon tinha uma capacidade única para tornar conceitos complexos acessíveis", escreveu Sarah Mitchell, sua colega no Woodbrooke, numa nota de pesar. "Os seus manuais sobre negociação em contextos de guerra ainda são utilizados em universidades de três continentes."
Publicações e Contribuições Académicas
Fisher publicou sete livros, incluindo o influente "Negociação em Terreno Instável" (2010) e "Ferramentas para a Paz" (2016), que se tornou leitura obrigatória em cursos de mestrado em toda a Europa. Em 2018, recebeu o Prémio Internacional de Mediação de Conflitos, atribuído pela Fundação赫尔曼 (Herman Foundation) em Genebra.
Sua pesquisa focou-se principalmente nos conflitos na África Subsaariana e nos Balcãs, tendo realizado missões de mediação na Sérvia, Ruanda e Burundi. Em 2015, integrou a equipa de consultores das Nações Unidas para o processo de paz no Sudão do Sul.
Impacto em Portugal e Lusofonia
Embora não tivesse raízes portuguesas, Fisher manteve uma ligação especial com Portugal. Em 2014, estabeleceu uma parceria entre o Woodbrooke e o Instituto Superior de Ciências da Educação em Lisboa, permitindo que estudantes portugueses frequentassem programas de formação em resolução de conflitos. Três universidades brasileiras — São Paulo, Belo Horizonte e Salvador — também integraram os seus materiais nos currículos de ciências sociais.
Maria João Rodrigues, antiga aluna portuguesa que frequentou o Woodbrooke em 2017, lembrou que Fisher "transformou completamente" a sua perspetiva sobre como abordar divisões sociais. "Ele ensinou-nos que a paz não é ausência de conflito, mas a capacidade de gerir diferenças de forma construtiva", disse à televisão portuguesa RTP.
Legado e Reações
O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, através de um comunicado oficial, lamentou a perda de "uma voz pioneira no diálogo internacional". A Associação Portuguesa de Mediação definiu Fisher como "uma referência incontornável" para os profissionais portugueses da área.
Entre os seus alunos mais conhecidos encontram-se três ministros de países africanos e dois vencedores do Prémio Nobel da Paz, que terão frequentado os seus seminários em Birmingham antes das suas conquistas. Fisher recusou sempre falar publicamente sobre essas conexões, preferindo manter o foco nos resultados do seu trabalho.
O Que Deixa aos Profissionais da Área
Simon Fisher deixa a esposa, Catherine, e dois filhos, James e Emily. Uma cerimónia commemorativa está prevista para o dia 5 de dezembro no Woodbrooke College, aberta a antigos alunos e colegas. A família pediu que, em vez de flores, sejam feitas doações ao Fundo para a Formação em Paz, que sostiene estudantes de países em desenvolvimento.
Especialistas do setor apontam que a partida de Fisher cria um vazio significativo no diálogo sobre resolução de conflitos na Europa. A próxima geração de mediadores perde um mentor que combinava teoria com prática terreno de forma incomparável. O seu trabalho, porém, permanece vivo nos currículos e nas metodologias que deixou como herança.
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