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Índia abandona Omã e olha para África — Médio Oriente perde domínio comercial

— Pedro Costa 6 min read

A Índia está a abandonar as suas rotas comerciais tradicionais no Médio Oriente e a transferir volume significativo de trocas para portos africanos, numa reconfiguração forçada pela escalada do conflito com o Irão. O porto de Dar es Salaam, na Tanzânia, tornou-se o novo corredor preferencial para empresas indianas que durante décadas dependeram de Omã como porta de entrada para a região. Este realinhamento, que envolve volumes estimados em milhares de milhões de dólares, está a transformar profundamente a geografia comercial do oceano Índico.

Omã perde centralidade estratégica no comércio indiano

Durante mais de trinta anos, Omã serviu como principal hub comercial da Índia no Golfo Pérsico. O porto de Mascate procesava mercadorias avaliadas em milhares de milhões de dólares anualmente, funcionando como ponto de entrada para produtos indianos destinados a mercados do Iraque, do Irão e dos países do Conselho de Cooperação do Golfo. A guerra em curso na região alterou completamente este cenário, tornando as rotas marítimas tradicionais demasiado arriscadas e dispendiosas para seguradoras e transportadoras.

Fontes do sector logístico em Nova Deli confirmaram que pelo menos três grandes empresas de importação indianas já transferiram as suas operações de distribuição de Mascate para Dar es Salaam. O Ministério do Comércio indiano não comentou oficialmente estas movimentações, mas dados da Autoridade Portuária da Tanzânia indicam um aumento de 23 por cento no movimento de carga contentorizada com origem em portos indianos durante o primeiro trimestre deste ano.

O conflito com o Irão força realinhamento urgente

O agravamento das tensões entre o Irão e potências regionais transformou o Golfo Pérsico numa zona de elevado risco para a navegação comercial. As sanções internacionais reimpostas ao Irão, combinadas com ameaças explícitas a navios mercantes na região do Estreito de Ormuz, criaram um ambiente operacional impossível para muitas empresas indianas. O custo do seguro marítimo para esta rota triplicou desde o início do conflito, tornando o transporte através do Golfo economicamente inviável para carregamentos de baixo valor.

O governo de Nova Deli autorizou o Ministério das Ferrovias e o Ministério dos Portos a acelerarem os protocolos de investimento em infraestruturas portuárias na costa oriental africana. O objectivo é duplicar a capacidade de recepção de carga no corredor do oceano Índico até ao final de 2025, respondendo à procura crescente de empresas nacionais que procuram alternativas viáveis ao Médio Oriente.

Rússia consolida-se como parceiro comercial prioritário

Paralelamente à viragem para África, a Índia aprofundou a sua relação comercial com a Rússia num momento em que Moscovo se encontra isolada dos mercados ocidentais. O volume de trocas bilaterais entre os dois países atingiu os 65 mil milhões de dólares no ano passado, representando um aumento de 40 por cento em relação ao período pré-conflito. O crude russo, vendido com descontos significativos, passou a representar uma fatia crescente das importações energéticas indianas, substituindo fornecimentos que antes vinham do Irão.

Esta aproximação à Rússia provocou desconforto em antigas potências coloniais europeias e nos Estados Unidos, mas Nova Deli tem mantido uma postura pragmática. O Primeiro-Ministro Narendra Modi reiterou em diversas ocasiões que a Índia serve os seus interesses nacionais e que não aceita lições de ninguém sobre soberania estratégica.

Impacto nos sectores-chave da economia indiana

O sector têxtil indiano, que emprega mais de 45 milhões de pessoas, está entre os mais afectados pela reconfiguração das rotas comerciais. As fibras sintéticas importadas do Irão através de Mascate foram substituídas por fornecimentos de Tanzânia e do Bangladesh, elevando os custos de produção em aproximadamente 8 por cento. Os industriais do têxtil em Ahmedabad já alertaram o governo para a necessidade de subsídios temporários que compensem esta desvantagem competitiva.

No sector alimentar, as importações de especiarias e frutos secos do Irão foram praticamente suspensas. Empresas em Cochim e em Mumbém redireccionaram as suas cadeias de aprovisionamento para fornecedores etíopes e moçambicanos, mas a qualidade e a fiabilidade destas novas fontes ainda não igualam a dos produtos iranianos.

A Tanzânia emerge como novo hub regional

Dar es Salaam está a viver uma expansão sem precedentes. O porto tanzaniano, que processava três milhões de toneladas de carga por ano em 2022, deve ultrapassar os cinco milhões até 2026, segundo projecções do Banco Africano de Desenvolvimento. Empresas estatais indianas como a Shipping Corporation of India já anunciaram o aumento de ligações directas entre portos de Goa e da Maharashtra com a capital económica tanzaniana.

A Tanzania Ports Authority confirmou que está em curso um programa de dragagem e alargamento das infraestruturas costeiras, com financiamento parcial de instituições financeiras indianas. O consórcio Linde Engineering India foi adjudicado para construir dois novos terminais de carga contentorizada com conclusão prevista para 2026.

Omã tenta recuperar terreno perdido

O Sultanato de Omã, consciente da erosão da sua posição, lançou um programa de incentivos fiscais para empresas indianas que mantenham operações no país. O Ministério do Comércio e do Investimento de Mascate reduziu em 50 por cento as taxas portuárias para navios que operem em rotas combinadas Omã-Tanzânia, tentando posicionar-se como ponto de escala intermédio em vez de destino final.

No entanto, analistas do Observer Research Foundation, um think tank sediado em Nova Deli, consideram que Omã perdeu uma janela estratégica. «A guerra acelerou tendências que já existiam», escreveu Rajesh Rajagopal num relatório recente. «A Índia estava a diversificar-se antes do conflito. Agora tem uma razão adicional e uma alternativa clara.»

O que vem a seguir: corredores alternativos e competição regional

Os próximos meses serão decisivos para perceber se a mudança é estrutural ou meramente táctica. Em Junho, a Câmara de Comércio Índia-África organiza uma missão empresarial a Dar es Salaam, Maputo e Mombasa com a participação de 120 empresas dos sectores da manufactura, agro-negócio e logística. Esta visita determinará o volume de investimentos que poderão ser anunciados antes do final do ano.

O porto moçambicano de Nacala e o terminal queniano de Mombasa estão igualmente em curso para receber financiamento indiano no valor de 800 milhões de dólares, conforme revelou o vice-secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano durante uma audiência parlamentar em Março. Estes investimentos reforçarão a presença indiana na costa oriental africana e consolidarão corredores alternativos ao Médio Oriente.

A reconfiguração em curso está a redefinir não apenas rotas comerciais, mas também relações de poder no oceano Índico. Omã, o Irão e os estados do Golfo vêem o seu peso relativo diminuir enquanto economias africanas sobem na hierarquia comercial indiana. Este realinhamento, embora impulsionado por uma crise, poderá revelar-se permanente se os novos parceiros africanistas demonstrarem fiabilidade e competitividade nos próximos anos.

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