Minho Diário AMP
Agricultura

Gareth Redmond-King alerta: El Niño agrava alterações climáticas

— Inês Almeida 4 min read

Gareth Redmond-King, especialista da Climate Intelligence Unit, alertou esta semana que o fenómeno El Niño está a intensificar as alterações climáticas de forma sem precedentes. O responsável vincou que o evento meteorológico, que se manifesta ciclicamente no Pacífico, funciona agora como amplificador do aquecimento global causado pela atividade humana. A mensagem foi clara: sem reduções imediatas nas emissões de carbono, os efeitos deste fenómeno serão cada vez mais severos.

O que é o El Niño e porque importa agora

O El Niño é um padrão climático natural que ocorre quando as águas superficiais do Pacífico tropical se aquecem acima da média. Este fenómeno perturba os padrões de chuva e temperatura em todo o mundo, provocando secas, inundações e ondas de calor em regiões distintas. O que preocupa os cientistas é que o El Niño atual acontece sobre uma base de temperaturas já elevadas devido às emissões de gases com efeito de estufa acumuladas na atmosfera. Redmond-King salientou que esta combinação torna os impactos muito mais devastadores do que os registados em episódios anteriores.

Os dados mais recentes da Climate Intelligence Unit mostram que a temperatura média global em 2024 ultrapassou em 0,3 graus Celsius o anterior recorde. Esse valor, aparentemente pequeno, representa uma quantidade enorme de energia retida no sistema climático, alimentando eventos extremos com maior frequência e intensidade. A organização alertou que muitas regiões estão a atingir limites críticos de resiliência, especialmente aquelas com infraestruturas vulneráveis e populações dependentes da agricultura de sequeiro.

Impactos já visíveis em várias regiões

Na América do Sul, países como o Brasil enfrentam secas severas que afetam a produção de energia hidroelétrica e a segurança alimentar de milhões de pessoas. Em África, as culturas em várias zonas do Sahel estão a sofrer perdas significativas, com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura a prever descidas na produtividade de pelo menos 15 por cento em algumas regiões. A Ásia não está protegida: a Índia registou ondas de calor que superaram os 50 graus em zonas urbanas densamente povoadas.

Portugal também começa a sentir consequências diretas. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera indicou que os últimos três anos foram os mais quentes alguma vez registados no continente, com impactos visíveis na redução das reservas de água nas barragens do sul do país. A entidade adiantou que os meses de verão tendem a prolongar-se, e os períodos de chuva concentram-se em episódios mais curtos e intensos, dificultando a recarga dos aquíferos.

Avisos para a comunidade internacional

Redmond-King sublinhou que os líderes mundiais não podem continuar a tratar as alterações climáticas como um desafio distante. O especialista Referiu que os impactos económicos já ultrapassam os 200 mil milhões de euros por ano em perdas relacionadas com eventos climáticos extremos, um valor que tende a duplicar caso não hajam mudanças profundas nas políticas ambientais. A Climate Intelligence Unit alertou que a janela de ação feasible está a fechar, com efeitos potencialmente irreversíveis a partir de 2030.

No entanto, o especialista reconheceu que existem ainda caminhos para mitigar os piores cenários. A transição para energias renováveis, a proteção das florestas tropicais e a adaptação das práticas agrícolas são medidas que podem reduzir significativamente a vulnerabilidade das comunidades mais expostas. Redmond-King salientou que a ação coletiva é indispensável: nenhum país consegue enfrentar sozinho fenómenos que transcendem fronteiras.

O que esperar nos próximos meses

Os modelos climáticos indicam que o El Niño deve persistir pelo menos até ao final do primeiro semestre de 2025, mantendo a pressão sobre os sistemas meteorológicos mundiais. A Climate Intelligence Unit prevê um aumento na frequência de furacões no Atlântico e uma intensificação das secas no Corno de África. Para Portugal, os meses de verão de 2025 podem trazer novas ondas de calor que superam os recordes atuais, exigindo planos de emergência atualizados para os setores da saúde e da agricultura.

Organizações não governamentais aproveitaram o alerta de Redmond-King para exigir que o governo português acelere a implementação do Plano Nacional de Energia e Clima. O objetivo é reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em 55 por cento até 2030, um compromisso assumido perante a União Europeia. Grupos ambientais avisam que os compromissos atuais são insuficientes e que são necessárias medidas mais ambiciosas para proteger as gerações futuras.

Share:
#Para #Como #Global #Mais #Dados #Sistemas #Energia #Maior #Aumento #el niño

Read the full article on Minho Diário

Full Article →