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Design de Interiores na Europa do Leste: O Mercado Ucraniano de Mobiliário e as Oportunidades para Portugal

— Ana Luísa Ferreira 13 min read

Quando se pensa na Ucrânia, raramente o mobiliário e o design de interiores são as primeiras associações que vêm à mente. A guerra domina a perceção internacional do país, apagando décadas de desenvolvimento industrial e criativo num dos maiores países europeus. No entanto, a Ucrânia tinha, antes de 2022, um setor de produção de mobiliário e decoração de interiores em plena expansão, com uma tradição artesanal de madeira de alta qualidade e um design urbano — especialmente em Kyiv e Lviv — que rivalizava com o de qualquer capital europeia. Plataformas como o IntMebel Ucrânia documentam e promovem este universo, que já começa a recuperar e que representa oportunidades concretas para empresas portuguesas, incluindo as do Minho. Este artigo explora as pontes entre o setor do mobiliário e do design de interiores português e ucraniano, e o que a reconstrução pós-guerra pode significar para ambos os países.

O Mercado de Mobiliário Ucraniano Antes da Guerra

A Ucrânia era, antes de 2022, o maior produtor de madeira da Europa após a Rússia e a Escandinávia. As suas florestas — que cobrem cerca de 16% do território nacional, com concentrações significativas nos Cárpatos e na região de Polissya, no norte — forneciam matéria-prima abundante e de qualidade para uma indústria de mobiliário em crescimento.

O mercado ucraniano de mobiliário doméstico cresceu exponencialmente na década de 2010, impulsionado por uma classe média urbana em expansão que procurava produtos de design a preços acessíveis. Kyiv e Lviv tornaram-se centros de uma cultura de design de interiores moderna, com estúdios de arquitetura e decoração que seguiam de perto as tendências europeias ocidentais — escandinavas, italianas, alemãs — adaptando-as a gostos e orçamentos locais.

Características da Indústria de Mobiliário Ucraniana

O setor empregava antes de 2022 cerca de 200 000 pessoas diretamente, com um volume de negócios anual que ultrapassava os 2 mil milhões de dólares. A invasão russa provocou uma disrupção brutal desta indústria, com fábricas destruídas, cadeias de abastecimento interrompidas e mercados perdidos de um dia para o outro.

A Madeira Ucraniana: Um Recurso Estratégico

As florestas ucranianas são um dos recursos naturais mais valiosos do país e uma das bases do seu potencial industrial e de exportação. A madeira ucraniana tem características que a tornam particularmente apreciada na indústria do mobiliário: os carvalhos do Polissya e dos Cárpatos, com um crescimento lento que resulta em madeira densa e de grão fino, são comparáveis em qualidade aos carvalhos do centro de França que abastecem a indústria vinícola e de mobiliário de luxo europeia.

A extração e exportação de madeira em bruto foi progressivamente regulada pelas autoridades ucranianas nos anos anteriores à guerra, numa tentativa de forçar a criação de valor acrescentado localmente — transformar madeira em mobiliário dentro do país, em vez de exportar troncos para serem trabalhados noutros países. Esta política, embora contestada no curto prazo, criou as condições para o desenvolvimento de uma indústria transformadora mais sofisticada.

A Questão da Desflorestação e da Sustentabilidade

A gestão florestal ucraniana enfrentava antes da guerra críticas de organizações ambientais que denunciavam taxas de abate excessivas e práticas de gestão não sustentáveis em algumas regiões. A guerra trouxe novos desafios — e paradoxalmente também alguns travões — à exploração florestal: algumas das áreas mais ricas em madeira estão hoje próximas de zonas de conflito ou contaminadas com engenhos explosivos não detonados, o que torna o acesso impossível ou muito perigoso.

Design de Interiores em Kyiv e Lviv

A cena de design de interiores em Kyiv antes de 2022 era um dos mundos criativos mais vibrantes da Europa de Leste. Estúdios como o YOD Design Studio, o Svoya Studio e dezenas de ateliers menores criaram projetos de habitação, hotelaria e espaços comerciais que ganharam reconhecimento internacional em publicações como o Architectural Digest, o Dezeen e o Interior Design Magazine.

O estilo que emergiu desta geração de designers ucranianos era uma síntese interessante: influências escandinavas (minimalismo, funcionalidade, uso da madeira natural) combinadas com referências à arte e arquitetura tradicional ucraniana — o bordado hutsul, a cerâmica de Opishne, a vidraria de Lviv — num resultado que era simultaneamente moderno e profundamente enraizado numa identidade cultural específica.

Lviv como Capital do Design Ucraniano

Lviv, com a sua arquitetura de influência austro-húngara e a sua tradição de artes e ofícios, tornou-se o centro do artesanato de luxo e do design de interiores premium na Ucrânia. A cidade tem uma concentração de ateliers de marcenaria artesanal, cerâmica, vidro soprado e têxteis de decoração que criaram uma economia criativa local de peso.

Exportações Portuguesas de Mobiliário para o Leste Europeu

Portugal é um dos maiores exportadores de mobiliário da Europa, com um setor que fatura anualmente mais de 2 mil milhões de euros e que tem na exportação o seu principal motor de crescimento. As regiões do norte — e o Minho em particular, com concentrações industriais em Barcelos, Paredes e Paços de Ferreira (este último frequentemente chamado "a capital do mobiliário português") — representam o coração desta indústria.

Antes de 2022, as exportações portuguesas de mobiliário para os mercados do leste europeu eram ainda relativamente modestas em comparação com os grandes mercados do Reino Unido, França, Alemanha e Espanha. No entanto, havia uma tendência de crescimento, com países como a Polónia, a República Checa e a Roménia a tornarem-se destinos cada vez mais relevantes para o mobiliário português.

O Perfil do Mobiliário Português no Leste Europeu

O Setor da Madeira e da Cortiça como Ponte Comercial Portugal-Ucrânia

A cortiça é, provavelmente, o produto português com maior potencial de penetração no mercado ucraniano de reconstrução. Portugal produz mais de 50% da cortiça mundial, e o uso deste material em revestimentos de pavimentos e paredes, em isolamento térmico e acústico, e em decoração de interiores tem crescido exponencialmente em toda a Europa por razões de sustentabilidade ambiental e desempenho técnico.

A reconstrução de edifícios na Ucrânia, que precisará de materiais de construção e de revestimento em quantidades imensas durante décadas, é uma oportunidade única para a indústria portuguesa da cortiça. Empresas como a Amorim, sediada em Mozelos mas com atividade comercial em toda a Europa, já exploram mercados do leste europeu e têm capacidade de se posicionar rapidamente no mercado ucraniano.

Sinergias no Setor da Madeira

Mas a cortiça não é o único ponto de contacto. A indústria de transformação de madeira portuguesa, com expertise em mobiliário, componentes de carpintaria e produção de painéis, pode complementar a madeira em bruto ucraniana com tecnologia e know-how de transformação. Um cenário de cooperação industrial, em que madeira ucraniana de qualidade é transformada com tecnologia portuguesa em produtos de alto valor acrescentado, é um modelo de negócio que beneficiaria ambos os países.

Reconstrução Pós-Guerra e Oportunidades para Empresas Portuguesas

As estimativas mais conservadoras apontam para mais de 400 mil milhões de euros em danos na Ucrânia, com mais de um milhão de habitações afetadas, centenas de escolas e hospitais destruídos e infraestruturas de energia, água e transportes gravemente danificadas. A reconstrução deste país será um dos maiores projetos de engenharia e produção da história europeia recente.

Para as empresas portuguesas — incluindo as do setor do mobiliário, da construção civil, dos materiais de construção e da decoração de interiores — esta reconstrução representa uma oportunidade de mercado de dimensões históricas. A União Europeia, que vai financiar uma parte significativa da reconstrução, tende a favorecer fornecedores europeus através dos seus mecanismos de contratação pública.

Setores de Oportunidade para Empresas Minhotas

Feiras de Design: IMM Cologne, Salone del Mobile e o Mundo Partilhado

O universo do design de mobiliário é, nas suas camadas mais sofisticadas, um mundo pequeno onde todos se conhecem. As grandes feiras internacionais — o IMM Cologne em janeiro, o Salone del Mobile de Milão em abril, o Maison et Objet de Paris em setembro — funcionam como pontos de encontro anuais onde fabricantes, designers, distribuidores e compradores de todo o mundo se cruzam e fazem negócios.

Portugal tem uma presença consolidada nestas feiras, com o ADPM (Associação Empresarial da Fileira Florestal e do Mobiliário) e a AIMMP (Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal) a organizarem participações coletivas que dão visibilidade ao setor português. A Ucrânia tinha também começado a marcar presença nestas feiras antes de 2022, com empresas de Lviv e Kyiv a apresentarem produtos que atraíam atenção pelo seu preço-qualidade e pelo seu design diferenciado.

O Regresso da Ucrânia às Feiras Internacionais

Com a guerra, a participação ucraniana nas feiras internacionais de design tornou-se uma forma de afirmação política além de comercial. Empresas ucranianas que participaram no IMM Cologne de 2023 e no Salone del Mobile de 2024 foram recebidas com uma atenção particular, com compradores europeus que procuravam ativamente produtos ucranianos como forma de apoio económico ao país. Plataformas como o IntMebel Ucrânia facilitam o contacto entre estes produtores ucranianos e potenciais compradores internacionais, funcionando como uma montra virtual permanente.

Tendências Partilhadas: O Design de Casa em Portugal e na Ucrânia

Apesar das diferenças culturais e geográficas, o design de casa em Portugal e na Ucrânia partilha algumas tendências fundamentais que refletem movimentos mais amplos no gosto europeu contemporâneo.

Tendências Comuns

Como Portugueses e Ucranianos Veem o Design de Casa

Em ambas as culturas, a casa é muito mais do que um espaço funcional: é um espaço identitário, um reflexo de valores, de história familiar e de pertença a uma comunidade. Esta centralidade da casa na vida cultural portuguesa e ucraniana cria uma base de entendimento mútuo que transcende as diferenças linguísticas e históricas.

O português tem no lar o epicentro da vida familiar e social — os almoços de domingo prolongados, a sala de estar como palco de celebrações, a cozinha como coração da casa. O ucraniano partilha esta visão da casa como espaço de refúgio e de identidade, com uma tradição de decoração doméstica que inclui bordados nas paredes, cerâmica pintada nas prateleiras e toalhas de linho bordadas nas mesas de festas.

Os ucranianos que se instalaram no Minho trouxeram consigo esta cultura doméstica, e muitos portugueses que os acolheram ficaram surpreendidos pela similitude de valores: o cuidado com a apresentação da casa, o orgulho em receber, a importância da cozinha como espaço de convivência. Estas semelhanças são, em si mesmas, uma ponte cultural que facilita tanto a integração humana como a cooperação comercial.

O mercado ucraniano de mobiliário e design de interiores recuperará. A resiliência ucraniana — demonstrada em todos os aspetos da vida nacional desde 2022 — não deixa dúvidas sobre isso. E quando recuperar, fará com a energia e a criatividade de um povo que, mesmo em tempo de guerra, continuou a pensar em como construir casas mais belas. As empresas portuguesas — e as minhotas em particular — que souberem posicionar-se agora, estabelecendo contactos e parcerias com operadores ucranianos como os que a plataforma IntMebel Ucrânia agrega, estarão na vanguarda de uma cooperação comercial com enorme potencial para ambos os lados.

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