China: 'Mulher-Aranha' escala prédios para pagar tratamentos do filho deficiente
Xu Junyun sobe até 30 andares todos os dias. Esta mãe solteira de Hefei, na China, trabalha como alpinista industrial limpando e reparando fachadas de edifícios altos para pagar os tratamentos do filho deficiente e os cuidados médicos da mãe doente. O seu trabalho perigoso, que lhe valeu a alcunha de 'Mulher-Aranha', tornou-se viral nas redes sociais chinesas e levantou um intenso debate sobre a precariedade laboral e o custo dos cuidados de saúde na segunda maior economia do mundo.
O trabalho que poucos aceitam
Todas as manhãs, Xu Junyun ata-se com cordas de segurança e desce pelas paredes de vidro dos arranha-céus de Hefei. O seu trabalho consiste em limpar janelas, substituir painéis danificados e inspecionar estruturas em edifícios que podem ultrapassar os 100 metros de altura. Os salários neste setor são superiores à média, o que atrai trabalhadores dispostos a enfrentar o medo e as condições adversas. Contudo, o risco de acidentes mortais mantém muitos afastados desta profissão.
A escolha de Xu não foi por vocação. Após o divórcio, ficou sozinha com um filho que sofre de uma deficiência que exige tratamentos contínuos e dispendiosos. A mãe idosa, que vive com ela, também necessita de cuidados médicos regulares. Sem formação superior e com responsabilidades familiares impossíveis de abandonar, encontrou nesta profissão a única forma de garantir um rendimento estável.
As dificuldades invisíveis da classe média chinesa
A história de Xu Junyun expõe uma realidade que afeta milhões de famílias na China. O sistema de segurança social, embora tenha avançado nas últimas décadas, ainda deixa lacunas significativas para pessoas com disabilities e doenças crónicas. Os tratamentos especializados podem custar milhares de yuans por mês, um valor impossível de cobrir com salários mínimos.
Em Hefei, capital da província de Anhui, no leste da China, o custo de vida tem vindo a subir nos últimos anos. Empresas tecnológicas estabeleceram-se na cidade, elevando os preços no imobiliário e nos serviços básicos. Para famílias como a de Xu, que dependem de um único rendimento, cada decisão financeira é uma batalha diária.
O sistema de apoio social em questão
O governo chinês tem investido em programas de proteção para pessoas com deficiência, incluindo subsídios mensais e apoio à integração profissional. Contudo, críticos argumentam que os valores atribuídos são insuficientes para cobrir todas as despesas médicas. Organizações não-governamentais têm tentado preencher estas lacunas, mas a procura ultrapassa frequentemente a oferta disponível.
Xu nunca recebeu apoio institucional substancial. Disse à imprensa local que tentou candidatar-se a subsídios, mas os processos burocráticos e os requisitos de elegibilidade acabaram por afastá-la. A experiência deixou-a descrença nas soluções governamentais e reforçou a sua determinação em contar apenas consigo própria.
Viral nas redes sociais
Um vídeo publicado numa plataforma chinesa mostrou Xu a trabalhar na fachada de um edifício comercial no centro de Hefei. As imagens, filmadas por um colega, tornaram-se virais em poucas horas. Milhares de utilizadores comentaram a publicação, muitos elogiando a sua coragem e resiliência. Outros usaram a oportunidade para criticar a falta de políticas públicas eficazes de proteção familiar.
A hashtag criada em torno da história acumulou mais de 50 milhões de visualizações. Comentadores salientaram que Xu representa uma geração de chineses que sustenta três gerações — os avós, os filhos e, em muitos casos, netos com necessidades especiais. Esta dinâmica familiar, alimentada pela política do filho único durante décadas, coloca pressão enorme sobre quem fica no papel de cuidador principal.
O debate sobre a dignidade no trabalho
A exposição mediática abriu uma discussão mais ampla sobre as condições de trabalho na indústria de manutenção de edifícios. Relatos de acidentes mortais surgiram nas conversas online, com utilizadores a questionar porque continuam a existir tão poucos regulamentos de segurança aplicados. Alguns apontaram que empresas preferem contratar trabalhadores independentes para evitar responsabilidades legais.
Xu não comentou publicamente sobre a exposição mediática. Amigos próximos disseram que ela permaneceu focada no trabalho, temendo que qualquer distração pudesse pôr em risco o seu emprego. A família mantém-se dependente do rendimento mensal que recebe no final de cada projeto completado.
Os números por trás da história
Estima-se que existam cerca de 85 milhões de pessoas com deficiência na China, segundo dados oficiais. Deste total, uma parte significativa vive abaixo do limiar da pobreza, apesar dos esforços governamentais para reduzir essa vulnerabilidade. Em Hefei, o salário médio de um alpinista industrial situa-se entre os 6.000 e os 10.000 yuans mensais, o equivalente a cerca de 770 a 1.280 euros, dependendo da experiência e dos projetos realizados.
Xu trabalha entre 25 a 30 dias por mês, alternando entre diferentes obras na região metropolitana. A variação de projetos garante algum rendimento estável, mas também significa ausência prolongada de casa. O filho, atualmente com 12 anos, é cuidado pela avó durante estes períodos, uma solução que Xu considera um compromisso necessário.
O que esperar do futuro
A divulgação da história de Xu Junyun coincidiu com um momento de crescente escrutínio sobre as políticas sociais na China. O governo anunciou recentemente planos para expandir a rede de cuidados infantis e de apoio a pessoas com deficiência, mas especialistas alertam que a implementação pode demorar anos. Famílias na mesma situação de Xu continuam a procurar soluções imediatas.
Nas próximas semanas, organizações de defesa dos direitos das pessoas com deficiência em Hefei anunciaram que pretendem solicitar reuniões com autoridades locais para discutir apoio específico para famílias em situação semelhante. O caso de Xu pode servir como catalisador, mas o sucesso dependerá da vontade política e dos recursos disponíveis. O que é certo é que, enquanto isso, Xu continuará a descer e a subir edifícios, porque a família não pode esperar por mudanças que ainda não chegaram.
Leia Também
Read the full article on Minho Diário
Full Article →