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Política

China Move faz cair compras de petróleo — mas os preços ainda sobem

— Pedro Costa 4 min read

Um fenómeno curioso domina os mercados de crude esta semana. A China reduziu as compras de petróleo em volume, mas os preços continuam a subir. O que está a acontecer? A resposta está nos sinais que Pequim envia aos produtores, não apenas nas quantidades que efetivamente compra.

O sinal que move mais que a compra

Os mercados energéticos reagiram esta semana a dados que mostram um recuo nas importações chinesas de crude. ARPC, a petrolífera estatal da Argélia, comunicou que o barril de Brent ultrapassou os 87 dólares em certos contratos futuros. Contudo, a reação dos preços não seguiu a lógica habitual. Em vez de cair, o crude manteve trajetória ascendente. Analistas apontam uma razão: o mercado antecipa que a procura chinesa vai recuperar nos próximos meses.

A OPEC+ observa estes sinais com atenção. O cartel, que inclui países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, ajusta a produção com base nas expectativas de procura, não apenas nos números atuais. Quando a China dá sinais de que vai aumentar compras no segundo trimestre, os produtores começam a travar a oferta antes do tempo.

Como os sinais substituem os volumes

O mecanismo funciona assim: quando empresas estatais chinesas como a Sinopec ou a CNOOC começam a rondar contratos futuros no mercado de Singapura, os vendedores interpretam isso como uma intenção de compra futura. Mesmo que os volumes efetivos de crude que chegam aos portos de Qingdao este mês sejam menores que em janeiro, o mercado responde ao que vai acontecer, não ao que está a acontecer.

Esta dinâmica é particularmente relevante para o Irão. Teerão depende das vendas de petróleo para financiar o orçamento estatal. Quando a China sinaliza procura elevada, o Irão vê uma janela de oportunidade para negociar melhores preços pelos seus crude iranian, mesmo que as sanções norte-americanas continuem a limitar quem pode comprar diretamente.

O caso específico do crude iraniano

O petróleo iraniano enfrenta restrições desde que os Estados Unidos reimplantaram sanções em 2018. Contudo, a China continua a ser o principal destino para o crude que sai de terminais no Irã. A questão não é se a China compra petróleo iraniano — compra, através de canais indiretos — mas como os preços desse crude são definidos.

Quando os sinais de Pequim fazem subir o benchmark global, o crude iraniano também sobe, mesmo que a etiqueta diga outra coisa. Os intermediários que operam no Dubai ajustam os preços com base no que acontece em Londres e Nova Iorque. O Irão acaba por beneficiar de uma subida que não controlou.

O que isto significa para a Europa

Portugal e o resto da Europa enfrentam consequências diretas. O país importa quase totalidade do crude que refina nas unidades da Galp em Matosinhos e Sines. Quando o preço do barril sobe, o custo dos combustíveis nas bombas de gasolina segue, normalmente com uma defasagem de duas a três semanas.

A Agência Internacional de Energia alertou que os stocks de crude nos países da OCDE estão abaixo da média dos últimos cinco anos. Isto significa que qualquer perturbação na oferta, seja por cortes da OPEC+ ou por tensões no Médio Oriente, tem impacto imediato nos preços ao consumidor.

A estratégia de Pequim

Especialistas em mercados energéticos consideram que a China usa deliberadamente esta dinâmica a seu favor. Ao sinalizar procura sem comprar volume, Pequim consegue influenciar os preços sem gastar dinheiro em reservas que depois têm de ser armazenadas. É uma forma de soft power económico que funciona porque os mercados são forward-looking — olham para o futuro, não para o presente.

Esta semana, dados do Customs General Administration of China mostram que as importações de crude caíram 6% em comparação com o mês anterior. Ao mesmo tempo, o volume de contratos futuros comprados por empresas chinesas em bolsas asiáticas subiu 12%. A discrepância é propositada.

O que esperar nos próximos meses

A OPEC+ reúne-se em Viena na primeira semana de março para decidir se mantém ou ajusta os cortes na produção. A reunião será condicionada pelos sinais que vierem da China. Se os dados mostrarem que a atividade industrial chinesa acelerou em fevereiro, como indicam alguns indicadores preliminares, o cartel terá mais margem para reduzir oferta e empurrar os preços para cima.

Para Portugal, o cenário traduz-se em preços dos combustíveis mais altos na primavera. A Direção-Geral de Energia e Geologia publicará os próximos dados sobre a estrutura de preços dos combustíveis a 15 de março. Esse relatório mostrará se o impacto dos sinais chineses já chegou aos bolsos dos consumidores. O que está fora de dúvida é que a China continua a mover o preço do petróleo — mesmo quando compra menos.

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