Nadia Massih, presidente de um organismo europeu de referência, pronunciou-se esta semana sobre as consequências de uma eventual vitória russa na Ucrânia, alertando que o colapso do país representação o colapso do projeto europeu tal como este existe hoje.

O aviso que gerou ondas de choque

A declaração surgiu num contexto de intensificação dos ataques russos no leste da Ucrânia e de debates crescentes nas capitais europeias sobre o ritmo e a profundidade do apoio militar a Kiev. Massih, que ocupa um cargo de liderança numa instituição europeia ключowa, afirmou sem reservas: «Se a Ucrânia cair, esta será o fim da União Europeia e o fim do futuro da Europa.»

Presidente adverte: queda da Ucrânia significa o fim da União Europeia — Politica
Política · Presidente adverte: queda da Ucrânia significa o fim da União Europeia

As palavras foram pronunciadas durante um fórum internacional realizado em Varsóvia, onde participam líderes políticos, militares e económicos de mais de duas dezenas de países europeus. O evento decorre num momento crítico, marcado pela pressão russa sobre linhas defensivas ukrainianas que têm sido testadas nos últimos meses.

A lógica por trás do aviso

A posição de Massih parte de um raciocínio geopolítico simples: a Ukraine serve actualmente como escudo territorial da NATO e da União Europeia. Perder Kiev significaria que as forças russas avançariam para fronteiras que fazem parte, directa ou indirectamente, do espaço europeu integrado.

Fontes diplomáticas presentes no fórum de Varsóvia indicaram que vários governos manifestaram preocupação crescente com o financiamento do esforço de guerra ukrainiano. O custo total do apoio militar e económico prestado pela União Europeia à Ukraine desde Fevereiro de 2022 ultrapassa os 87 mil milhões de euros, segundo dados do Conselho Europeu.

O debate sobre os limites do apoio

Dentro da própria União Europeia, a coesão em torno da questão ukrainiana mostra sinais de erosão. Governos da Hungria e da Eslováquia têm repetidamente bloqueado ou adiado decisões sobre novos pacotes de ajuda militar, criando fricções com as posições de Berlim, Paris e Varsóvia.

Esta divisão interna contrasta com o discurso oficial de Bruxelas, que mantém que o apoio à Ukraine é uma questão de sobrevivência estratégica para o continente. A Comissão Europeia reiterou em Fevereiro que qualquer retrocesso no apoio a Kiev representaria um «erro histórico imperdoável».

Por que a Ukraine não é um caso isolado

Analistas ouvidos pela imprensa internacional argumentam que o aviso de Massih reflecte uma realidade frequentemente subestimada na percepção pública europeia: a guerra na Ukraine não é um conflito distante que diga respeito apenas aos seus directamente envolvidos. É, na prática, uma confrontação entre a ordem internacional pós-1945 e uma tentativa de revisão unilateral das fronteiras por parte de Moscovo.

Desde 2022, quatro países nórdicos e bálticos — Finlândia, Suécia, Estónia e Letónia — aumentaram significativamente os seus orçamentos de defesa. A Finlândia, que partilha 1.340 quilómetros de fronteira com a Rússia, investiu mais de 11 mil milhões de euros em capacidades militares desde o início da invasão.

O que está em jogo para Portugal

Para Portugal, as implicações de um cenário de derrota ukrainiana não são abstractas. O país mantém actualmente cerca de 35 militares destacados em missões de formação no terreno, no âmbito do programa europeu de assistência militar. Além disso, Lisboa beneficiou de fundos europeus destinados à acolhimento de refugiados, num fluxo que ultrapassou as 50 mil pessoas registadas em território nacional desde o início do conflito.

A possibilidade de um colapso ukrainiano coloca ainda questões directas sobre a segurança energética europeia. A Ukraine é um corredor fundamental para o transporte de gás natural para o centro da Europa, e a sua queda alteraria profundamente a arquitectura energética do continente.

Próximos passos e o que observar

Dentro de duas semanas, os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reúnem-se em Bruxelas para debater um novo pacote de sanções contra Moscovo e a possibilidade de utilizar activos russos congelados para financiar a reconstrução da Ukraine. A votação está longe de ser garantida, com a Hungria a ameaça vetar qualquer medida que considere provocação desnecessária.

O resultado dessa reunião poderá determinar se a Europa mantém a narrativa de firmeza que tem predominado ou se começa a preparar-se para um cenário que, há dois anos, parecia impensável. O relógio geográfico continua a avançar, e as palavras de Massih ecoam agora nos corredores de poder de Lisboa a Helsínquia.

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Opinião Editorial

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Pedro Costa
Autor
Pedro Costa é jornalista político a cobrir a Assembleia da República, o Governo e as relações de Portugal com as instituições europeias. Baseado em Lisboa, acompanha os debates legislativos, as negociações orçamentais e a política externa portuguesa com particular atenção às questões de governação e administração pública.

Pedro tem vasta experiência em cobertura parlamentar e reportagem de política europeia, tendo seguido várias presidências do Conselho da UE. É licenciado em Ciência Política pela Universidade de Lisboa.