A Comissão da União Africana emitiu esta quarta-feira um comunicado oficial a apelar à desescalada imediata das tensões no Médio Oriente, alertando para os riscos sistémicos que o conflito entre o Irão e os Estados Unidos representa para o continente africano. O documento, distribuir pela sede da organização em Adis Abeba, surge numa altura em que os mercados internacionais registam volatilidade acrescida e vários governos africanos tentam mediengar as consequências económicas de uma potencial escalada.

O Apelo Formal da União Africana

O comunicado da Comissão exige que todas as partes envolvidas no conflito recorram ao diálogo como instrumento prioritário para resolver as divergências. A organização sublinha que a via militar apenas aprofundará a instabilidade regional e terá repercussões directas nos países africanos, muitos dos quais mantêm relações económicas profundas com ambas as partes. «A União Africana reitera que a paz e a estabilidade no Médio Oriente são questões que afectam directamente a segurança alimentar e energética do nosso continente», lê-se no documento.

União Africana Lança Alerta sobre Escalada no Médio Oriente — Riscos Globais Aumentam — Energia
Energia · União Africana Lança Alerta sobre Escalada no Médio Oriente — Riscos Globais Aumentam

O gabinete do presidente da Comissão, que superintende as relações externas da organização, confirmou que contactos diplomáticos estão em curso com governos de todo o continente para coordenar uma posição africana unificada. Fontes próximas do processo indicaram que países como o Egipto, a África do Sul e a Nigéria estão a assumir um papel de liderança nestes esforços de mediação.

Consequências Económicas para África

Os efeitos de qualquer escalada no Golfo Pérsico sentir-se-iam imediatamente nos mercados africanos. O preço do petróleo já subiu mais de 8 por cento nas últimas duas semanas, o que representa um custo adicional significativo para economias importadoras de crude como o Gana, o Quénia e o Senegal. O Egipto, que subsidia activamente os combustíveis, enfrenta uma pressão fiscal crescente sobre um Orçamento já debilitado.

As rotas comerciais marítimas que passam pelo Estreito de Ormuz e pelo Mar Vermelho estão no centro das preocupações. Qualquer perturbação nestas vias navegáveis teria impacto directo no tempo de entrega e nos custos de importação para países do Corno de África e da África Oriental. O porto de Djibouti, por exemplo, serve de porta de entrada para mercadorias destinadas a vários países sem litoral na região.

Impacto nos Mercados de Capitais

As bolsas africanas já demonstram sinais de nervosismo. O índice da bolsa de Joanesburgo caiu 2,3 por cento na última sessão, reflectindo a aversão ao risco dos investidores internacionais. Moedas de vários países da África Subsaariana depreciaram-se face ao dólar norte-americano, o que aumenta o custo do serviço da dívida denominada em moeda estrangeira.

A Posição Histórica da União Africana

A organização não é nova em intervir em conflitos externos ao continente. Em 2023, a União Africana mediou conversações sobre a crise no Sudão, e nos últimos anos tem tentado afirmar-se como actor diplomático global. O comunicado desta semana marca, contudo, uma das intervenções mais directas sobre tensões no Médio Oriente, sinalizando que a ameaça é considerada suficientemente grave para justificar uma acção preventiva.

Especialistas em relações internacionais afro-árabes apontam que a organização enfrenta umdilema complexo. Por um lado, mantém laços históricos com países do mundo árabe; por outro, os Estados Unidos são um parceiro estratégico em matéria de segurança e desenvolvimento. A diplomacia africana tem tentado navegar estas águas turvas evitando tomar partido, mas o tom do comunicado sugere que a preocupação com uma escalada descontrolada sobrepõe-se agora a outras considerações.

A Ameaça Terrorista e a Instabilidade Regional

O comunicado refere ainda que a instabilidade no Médio Oriente pode alimentar a actividade de grupos extremistas na África Oriental e no Sahel. Analistas de segurança em Nairobi e Abuja partilham esta preocupação. Grupos como a Al-Shabaab na Somália e organizações afiliadas à Al-Qaeda no Sahel poderiam beneficiar de um ambiente de caos estratégico para intensificar as suas operações.

O Centro Africano de Estudos Estratégicos alertou num relatório recente que a proliferação de armas leves e médias na região do Corno de África tem origem parcial em cadeias de abastecimento que passam pelo Golfo. Qualquer escalada militar que interrompa ou altere essas cadeias poderia ter consequências imprevistas para a segurança regional.

Reacções dos Governos Africanos

Governos de todo o continente reagiram com cautela ao comunicado da União Africana. A África do Sul, que mantém relações históricas com o Irão e laços económicos fortes com os Estados Unidos, apelou à contenção de todas as partes. O ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano confirmou que Pretória está disponível para facilitar conversações caso todas as partes concordem.

No entanto, nem todos os governos africanos partilham a mesma posição. Alguns países do Corno de África, com laços militares directos com Washington, limitaram-se a declarar que acompanham a situação com «preocupação». A Etiópia, que depende parcialmente de apoio dos Estados Unidos no sector da defesa, não emitiu um comunicado próprio sobre o conflito.

O Que Acontece a Seguir

A União Africana convocou uma reunião extraordinária dos seus órgãos de paz e segurança para a próxima semana. O encontro, que decorrerá em formato virtual, reunirá embaixadores e representantes de todos os Estados-membros para debater uma estratégia comum. Os líderes africanos esperam aprovar um plano de acção que inclua o envio de um enviado especial à região e o estabelecimento de uma linha directa de comunicação com Teerão e Washington.

O continente fica agora numa posição delicada. A dependência africana do petróleo do Médio Oriente significa que uma guerra total seria catastrófica para economias já pressionadas pela dívida e pela inflação. O sucesso ou fracasso dos esforços diplomáticos africanos será testado nas próximas semanas, quando os próximos desenvolvimentos no Golfo determinarem se o apelo à calma será ouvido ou se a espiral de violência se tornará inevitável.

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Rui Gomes
Autor
Rui Gomes é jornalista especializado em energia, sustentabilidade e política ambiental. Cobre a transição energética portuguesa, as energias renováveis, a política climática europeia e os desafios da descarbonização para a indústria e os consumidores nacionais.

Com formação em engenharia de energias renováveis, Rui combina conhecimento técnico com jornalismo de interesse público, explicando temas complexos de forma acessível. Licenciou-se na Universidade de Aveiro e concluiu pós-graduação em Jornalismo Ambiental.