Vítor Gaspar, antigo ministro das Finanças de Portugal, colocou uma questão que tem vindo a reverberar nos círculos económicos internacionais: estará o mundo preparado para colocar a política à frente da economia? A declaração surgiu durante uma intervenção no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, perante uma audiência de economistas, académicos e decisores políticos.
A questão colocada por Gaspar
O antigo governante, que liderou o Ministério das Finanças durante anos particularmente difíceis para Portugal, considerou que a ordem económica global está a ser desafiada por pressões geopolíticas sem precedentes. Gaspar lembrou que, durante décadas, a integração económica internacional foi construída sobre a premissa de que os mercados e o comércio funcionariam independentemente de considerações políticas. "Essa premissa está agora a ser posta em causa", afirmou noInstituto, sem rodeios.
A intervenção do economista suscitou um debate intenso entre os presentes. Muitos concordaram que a fragmentação das cadeias de abastecimento, as sanções cruzadas e as tensões comerciais têm vindo a alterar fundamentalmente a forma como os países encaram as suas relações económicas bilaterais.
Carreira responde com perspectiva europeia
Maria João Carreira, antiga embaixadora portuguesa junto da União Europeia, contrapôs que a Europa tem demonstrado, de forma consistente, que está disposta a sacrificar eficiência económica em nome de objetivos políticos. Citou como exemplo as sanções impostas à Rússia, que tiveram custos económicos significativos para os Estados-membros, mas foram mantidas por convicção geopolítica. "A Europa já tomou essa decisão varias vezes", observou Carreira. "A questão não é se estamos preparados, mas se conseguimos gerir as consequências."
Os dados parecem dar razão a esta análise. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o comércio mundial cresceu apenas 0,8% em 2023, muito abaixo das projeções anteriores à pandemia. Ao mesmo tempo, o número de medidas restritivas ao comércio implementadas por países do G20 triplicou desde 2019.
O peso da incerteza nos mercados
Os mercados financeiros reagiram com nervosismo às discussões que se seguiu. Em Lisboa, o índice PSI-20 registou uma descida de 1,2% na sessão seguinte ao evento, numa altura em que os investidores avaliam o impacto potencial de uma possível reorganização das prioridades económicas globais. O euro desceu para 1,072 dólares, reflectindo preocupações mais amplas com a estabilidade cambial.
Economistas presentes no Institutoalertaram para os riscos de uma fragmentação mais acelerada. Um estudo recente da Universidade Nova de Lisboa estimou que uma rutura completa das cadeias de abastecimento globais poderia custar à zona euro até 7% do seu produto interno bruto ao longo de cinco anos.
Contexto histórico e lições do passado
Gaspar recorreu à história para fundamentar a sua análise. O período entre as duas guerras mundiais, lembrou, demonstrou catastrophicamente o que acontece quando considerações políticas dominam as decisões económicas. O protecionismo da década de 1930 agravou a Grande Depressão e contribuiu para a instabilidade política que culminou na Segunda Guerra Mundial.
Contudo, o antigo ministro reconheceu que o contexto atual apresenta diferenças significativas. A interdependência económica é hoje muito mais profunda, e os mecanismos de cooperação internacional, embora imperfeitos, são mais robustos do que eram na primeira metade do século XX.
Implicações para Portugal e a zona euro
A discussão no Instituto não se limitou a questões globais. Os participantes analisaram também as implicações concretas para Portugal e para a zona euro. Gaspar alertou que um mundo onde a política prevalece sobre a economia poderia ser particularmente desafiante para países de dimensão média como Portugal, que dependem fortemente do comércio internacional e do investimento estrangeiro.
O turismo, que representa cerca de 15% do PIB português, seria um dos setores mais vulneráveis. Alterações nos padrões de viagem ditadas por considerações políticas ou de segurança poderiam afetar significativamente a economia nacional.
Perspetivas para a banca portuguesa
O setor bancário português, que tem vindo a recuperar de anos de restruturação, enfrenta igualmente incertezas. As exigências de diversificação de fornecedores e a possível relocalização de cadeias produtivas poderiam beneficiar setoresOs bancos nacionais deverão adaptar as suas estratégias de financiamento para refletir um ambiente económico mais fragmentado e politicamente orientado.
O que esperar nos próximos meses
A discussão organizada pelo Institutoem Lisboa Terminou sem consensus, mas com um sentimento partilhado: a questão levantada por Gaspar não é retórica. Os próximos meses deberán trazer respostas, à medida que as tensões comerciais se intensifiquem e as próximas reuniões do G20 e do Fundo Monetário Internacional se aproximem.
Os analistas prevêem que a temática Voltará a dominar a agenda económica internacional já no outono, quando a Comissão Europeia apresentar as suas propostas para uma maior autonomia estratégica europeia. Até lá, Portugal e os seus parceiros terão de decidir até que ponto estão realmente dispostos a aceitar custos económicos em nome de objetivos políticos.
O euro desceu para 1,072 dólares, reflectindo preocupações mais amplas com a estabilidade cambial.Economistas presentes no Institutoalertaram para os riscos de uma fragmentação mais acelerada. O protecionismo da década de 1930 agravou a Grande Depressão e contribuiu para a instabilidade política que culminou na Segunda Guerra Mundial.Contudo, o antigo ministro reconheceu que o contexto atual apresenta diferenças significativas.


