A Comissão Europeia apresentou esta quarta-feira um plano de ação detalhado para reforçar o papel internacional do euro, respondendo a anos de debate sobre a vulnerabilidade da moeda europeia face a pressões geopolíticas e à crescente contestação do dólar americano nos mercados globais.
O plano revelado em Bruxelas
O documento, intitulado «O Euro num Mundo Contestado: Das Palavras aos Atos», estabelece 16 medidas concretas para aumentar a utilização do euro no comércio internacional, nos contratos energéticos e nos mercados financeiros. A Comissão propõe incentivos fiscais para empresas que facturem em euros, bem como o desenvolvimento de instrumentos de pagamento europeus independentes de infraestruturas americanas.
A comissária europeia para os Serviços Financeiros, Mairead McGuinness, revelou que o plano resultará em legislação ainda este ano. «Já tivemos tempo suficiente para debates teóricos», afirmou em conferência de imprensa em Bruxelas. «O que o mercado precisa agora são sinais claros de que a Europa está disposta a agir.»
Contexto: uma moeda forte mas vulnerável
O euro permanece a segunda moeda mais utilizada no mundo, representando cerca de 20% das reservas cambiais globais e 40% dos pagamentos internacionais. No entanto, a sua penetração nos mercados de commodities — especialmente petróleo e gás — permanece limitada, com a maioria dos contratos ainda cotados em dólares.
Esta dependência tornou-se particularmente evidente durante os conflitos comerciais entre Washington e Pequim, quando sanções secundárias ameaçaram empresas europeias que operavam em dólares. Vários países, incluindo Irão e Venezuela, tentaram o sistema SWIFT, acelerando os esforços europeus para criar alternativas.
A posição estratégica de Portugal
Portugal, como membro da zona euro com forte exposição ao comércio internacional, as propostas com particular interesse. O país, cuja economia depende em 80% das trocas comerciais com parceiros europeus, poderia beneficiar diretamente de maior estabilidade cambial e menor exposição a flutuações do dólar.
O Banco de Portugal alertou em relatório recente que empresas portuguesas perdem anualmente cerca de 2,3 mil milhões de euros em custos de conversão cambial, uma fatia significativa que poderia ser reduzida com maior utilização do euro nos contratos internacionais.
As críticas e os obstáculos
Não faltam céticos. Analistas do Deutsche Bank emitiram um relatório na semana passada questionando se a Europa possui a coesão política necessária para implementar reformas tão ambiciosas. «Cada Estado-membro tem interesses comerciais distintos», escreveu a equipa de analistas. «Convencer a Hungria, a Polónia ou a Grécia a adotarem o euro em contratos com a China não será simples.»
Além disso, o setor energético europeu permanece dependente de tecnologias americanas para liquidação de contratos. O gás natural liquefeito, crucial após a redução das importações russas, é quase exclusivamente negociado em dólares, com de pricing controlado por bolsas em Nova Iorque e Houston.
A resposta do Banco Central Europeu
O BCE manifestou apoio ao plano, mas fez questão de distinguir entre política monetária e política comercial. Christine Lagarde, presidente do banco, reiterou que o BCE não pode obligar empresas ou países a utilizar o euro. «O nosso papel é criar as condições para que o euro seja atrativo», declarou Lagarde em discurso em Frankfurt.
O BCE anunciou que trabalha num programa piloto para a emissão de obrigações digitais em euros até ao final de 2025, um projeto que poderia facilitar transações diretas entre instituições europeias sem passar pelo sistema dólar.
Mercados reagem com cautela
Nos mercados cambiais, o euro manteve-se estável após o anúncio, comercializando-se em torno de 1,09 dólares. Investidores aguardam sinais concretos de implementação antes de ajustar posições. A cotação do euro tem oscilado entre 1,07 e 1,12 dólares nos últimos 12 meses, reflexo da incerteza sobre a política monetária americana e o ritmo de crescimento europeu.
Ações de bancos europeus como o BNP Paribas e o Deutsche Bank registaram ganhos modestos na sessão de quinta-feira, com os mercados a antecipar maior procura por serviços de custódia e liquidação em euros.
O que acontece a seguir
O plano segue agora para votação no Parlamento Europeu, onde deverá enfrentar debate intenso. O Conselho Europeu de dezembro incluirá o tema na agenda, com os líderes nacionais a serem chamados a demonstrar compromisso político. A Comissão propõe um prazo de 18 meses para a primeira fase de implementação.
O verdadeiro teste virá quando empresas europeias enfrentarem a escolha entre contratos em euros com menores proteções ou contratos em dólares com infraestrutura mais robusta. A capacidade da UE de criar alternativas tecnológicas viáveis determinará se este plano representa uma mudança genuína ou apenas mais retórica.
Os próximos meses serão decisivos. Até março de 2025, o Parlamento votará a legislação sobre pagamentos transfronteiriços em euros. Até junho, o BCE apresentará os resultados do programa piloto de obrigações digitais. Se prazos forem cumpridos, a Europa terá dado o primeiro passo concreto para transformar palavras em ações — e o euro poderá finalmente começar a afirmar-se como moeda de escolha num mundo cada vez mais multipolar.
O gás natural liquefeito, crucial após a redução das importações russas, é quase exclusivamente negociado em dólares, com de pricing controlado por bolsas em Nova Iorque e Houston.A resposta do Banco Central EuropeuO BCE manifestou apoio ao plano, mas fez questão de distinguir entre política monetária e política comercial. Christine Lagarde, presidente do banco, reiterou que o BCE não pode obligar empresas ou países a utilizar o euro.


