Um alerta резонуе dos principais especialistas em saúde pública africana: a chamada «estratégia fortaleza» contra surtos de Ebola está condenada ao fracasso. A advertência surge num momento em que várias nações do continente avaliam as suas capacidades de resposta a potenciais epidemias, recorrendo a medidas de controlo fronteiriço que historiadores de saúde pública consideram já testadas e inadequadas. A análise comparada entre a abordagem militarizada e as respostas comunitárias bem-sucedidas do passado revela um fosso profundo entre teoria e prática na luta contra esta doença.

As Lições de Zaire

O primeiro grande surto documentado de Ebola decorreu em Zaire, atual República Democrática do Congo, em 1976. Nesse ano, o vírus matou cerca de 280 pessoas numa região remota do norte do país. As autoridades coloniais belgas, que administram o território, tentaram conter a propagação através do isolamento estrito das aldeias afetadas e do estabelecimento de cordões sanitários em torno das zonas de contágio. A estratégia militarizada conseguiu, eventualmente, travar a expansão da doença para fora da região de Yambuku, mas à custa de profundas feridas na confiança entre as comunidades locais e os profissionais de saúde.

África Face ao Ebola: Estratégia Fortaleza Repete Erros de Zaire e Libéria — Energia
Energia · África Face ao Ebola: Estratégia Fortaleza Repete Erros de Zaire e Libéria

Decénios depois, a abordagem de isolamento mostrou as mesmas falhas fundamentais. Em 2019, quando um novo surto atingiu a cidade de Goma, na fronteira com o Ruanda, as autoridades congolesas implementaram контрольно-пропускные пункты rigorosos nas estradas de acesso. A população reagiu com hostilidade, recusando cooperation com as equipas de rastreamento de contactos. Vários profissionais de saúde foram atacados por residentes que viewiam os cordões sanitários como uma forma de ocupação, não de protecção.

O Custo Humano das Barreiras Físicas

Os dados da Organização Mundial de Saúde revelam que, durante o surto de 2014-2016 na África Ocidental, as restrições de mobilidade impostas pelos governos afetados resultaram num aumento significativo da mortalidade por causas não relacionadas com o Ebola. Mulheres grávidas não conseguiram aceder a unidades de saúde para partos assistidos. Doentes crónicos abandonaram tratamentos essenciais por medo de serem colocados em quarentena. A mortalidade collateral superou, em várias regiões, os números direta atribuíveis ao próprio vírus.

A Experiência da Libéria

A Libéria tornou-se, durante o surto de 2014, num dos países mais severamente afetados pela epidemia de Ebola na África Ocidental. Com mais de 10.000 mortos e quase 5.000 crianças órfãs, o país enfrentou uma crise de proporções históricas. O governo liberiano, sob pressão da comunidade internacional, implementou uma estratégia de contenção que combinava cordões militares nas fronteiras, proibição de reuniões públicas e encerramento de escolas durante vários meses.

O efeito prático dessas medidas revelou-se profundamente ambíguo. A economia liberiana contraiu-se dramaticamente, com o Banco Mundial a estimar perdas superiores a 1,5 mil milhões de dólares no Produto Interno Bruto. A fome e a pobreza, consequências diretas do colapso económico induced pelo lockdown, mataram mais pessoas do que o próprio Ebola em certas regiões rurais. Simultaneamente, as fronteiras seladas não conseguiram impedir a entrada de casos vindos da Serra Leoa e da Guiné-Conacri, países com os quais a Libéria partilha longas fronteiras porosas e permeáveis.

O que realmente travou a propagação do vírus na Libéria, según os relatórios da época, foi a mudança de estratégia implementada em 2015. O governo liberiano passou a investir massivamente na mobilização comunitária, trabalhando com chefes tradicionais, religiosas e jovens para modificar práticas funerárias de alto risco e encorajar a denúncia precoce de sintomas. Esta abordagem bottom-up reduziu a transmissão de forma mais efetiva do que os controlos militares nas estradas.

O Que Funciona

Investigadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres publicaram, em 2023, um estudo comparativo que analisou 47 respostas a surtos de Ebola desde 1976. A conclusão principal foi inequívoca: comunidades com elevados níveis de literacia sanitária e envolvimento ativo na resposta registaram taxas de transmissão 60% inferiores às comunidades sujeitas a controlos externos impositivos. O factor determinante não era a quantidade de recursos militares ou financeiros disponíveis, mas sim o grau de confiança mútua entre populações e profissionais de saúde.

Esta evidência tem implicações profundas para a arquitectura das respostas futuras. Sistemas de vigilância comunitária, onde membros das próprias comunidades são formados para identificar sintomas e referenciar casos suspeitos, demonstraram ser mais eficazes do que checkpoints militares. A formação de equipas locais de enterro seguro, compostas por residentes das próprias aldeias, eliminou a resistência cultural às medidas de segurança que tinha alimentado rituais funerários clandestinos durante os piores momentos dos surtos passados.

A Armadilha da Estratégia Fortaleza

O conceito de «estratégia fortaleza» assenta numa premissa fundamental: o Ebola pode ser mantido fora de um território através da sua selagem física. Esta premissa ignora três realidades biológicas e sociais incontornáveis. Primeiro, o período de incubação do vírus pode estender-se até 21 dias, durante os quais indivíduos infectados mas assintomáticos atravessam fronteiras sem qualquer detecção. Segundo, as fronteiras africanas são, em grande medida, artificiais, traçadas por potências coloniais sem consideração pela continuidade étnica e comercial das populações locais. Terceiro, a estigmatização induced por medidas de isolamento transforma comunidades inteiras em aliados relutantes da resposta sanitária.

A Nigéria oferece um contraponto instrutivo. Durante o surto de 2014, o país confirmou apenas 20 casos de Ebola, apesar de Lagos, a maior cidade africana com mais de 20 milhões de habitantes, ter sido o primeiro ponto de entrada de um caso importado da Libéria. A resposta nigeriana baseou-se na identificação rápida, no rastreamento exaustivo de contactos e na comunicação pública transparente. O governo não fechou fronteiras nem implementou cordões militares. O surto foi contido em menos de três meses sem recurso a medidas de força.

O Que Vem a Seguir

A próxima reunião do Comité de Emergência da Organização Mundial de Saúde, agendada para o final do corrente trimestre, deverá debater novas recomendações para a preparação africana contra doenças haemorrhágicas. Organizações não-governamentais activas na região dos Grandes Lagos pressionam para que os financiamentos internacionais sejam condicionados à adopção de estratégias baseadas em evidências, e não em reacções de pânico político. O desafio permanece enorme: os sistemas de saúde de muitos países africanos continuam sub-financiados, com despesas públicas em saúde abaixo dos 5% do PIB recomendados pela própria OMS.

O verdadeiro teste para os decisores africanos não será erguer muros, mas construir pontes — entre governos e comunidades, entre ciência e tradição, entre resposta imediata e preparação a longo prazo. As lições de Zaire e da Libéria estão disponíveis. A questão é se há vontade política para as aplicar antes que o próximo surto force decisões precipitadas nas capitais do continente.

Opinião Editorial

Durante o surto de 2014, o país confirmou apenas 20 casos de Ebola, apesar de Lagos, a maior cidade africana com mais de 20 milhões de habitantes, ter sido o primeiro ponto de entrada de um caso importado da Libéria. O surto foi contido em menos de três meses sem recurso a medidas de força.O Que Vem a SeguirA próxima reunião do Comité de Emergência da Organização Mundial de Saúde, agendada para o final do corrente trimestre, deverá debater novas recomendações para a preparação africana contra doenças haemorrhágicas.

— minhodiario.com Equipa Editorial
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Autor
Analista de mercados e jornalista de dados com formação em Estatística pelo ISEG — Lisboa School of Economics & Management. Paulo integra metodologias quantitativas na cobertura jornalística, produzindo análises baseadas em dados sobre setores como turismo, imobiliário e retalho. Foi investigador no INE antes de transitar para o jornalismo económico. Domina ferramentas de visualização de dados e econometria aplicada.